Xenofobia cabloca

Conversa de Mercado / 5 maio 2017

Enquanto o governo tenta passar a mensagem para a população de que conseguiu pôr fim à recessão, de que está fazendo as reformas necessárias ao bem-estar de todos e de que acabou com a gastança desenfreada de Dilma, a realidade se impõe. A insatisfação abre espaço para os extremismos da direita que se fazem presentes na cena política instalada, na que pode se instalar na Presidência em 2018, em movimentos “populares”, pancadarias e borrachadas em protestos e flores jogadas nas ruas.

Flertamos com o autoritarismo como a Alemanha o fez até ter Hitler. Há diferenças e semelhanças. Cresce a xenofobia, mas o país é mulato; políticos pregam o nacionalismo econômico, mas não temos tecnologia – sequer indústria. Cresce o apelo por uma “ditadura” democrática, com o poder concedido pelo próprio povo. Talvez por conta do expressivo número de senhores de engenho que compõem a população, pesquisas demonstram que uma parte expressiva dos brasileiros quer, através do voto, eleger um político que apoia a ditadura militar, deseja combater a violência na porrada e que acredita que afrodescendente não serve nem para procriar. Cada um tem o Trump e a Le Pen que merece.

Assim como Trump quer construir o muro contra os “cucarachas”, manifestantes vão à Paulista protestar com a nova lei da “migração” (sic), como dizia a faixa por eles estendida. Até em um país caracterizado pela miscigenação há aqueles que se consideram “sangue puro” e são xenófobos. Em vídeos divulgados pelo Movimento Direita São Paulo, um dos responsáveis pelo ato, a nova lei, elaborada para substituir o Estatuto do Estrangeiro, de 1980, que praticamente criminalizava os estrangeiros que ingressavam no país, é chamada de “estatuto do terrorista”. Com a mudança, o imigrante deixa de ser visto como uma ameaça à segurança nacional.

Bolsonarices não ficam restritas à Paulista. Evolução natural dos paneleiros, proliferam-se orgulhosos nas ruas os que batem continência e ensinam o gesto a filhos e sobrinhos dizendo: “Faz como nosso candidato”. Em vez de enrubescer, outros justificam esse voto atribuindo ao presidenciável a proposta da vacina que “cura” gays. A frequência com que um transeunte ouve esse tipo de coisa relaciona-se tanto à tendência externa, marcada pela ascensão de líderes conservadores, quanto pela atual situação político-econômica brasileira. A polarização das últimas eleições entre PT e PSDB e o deslocamento deste último para o extremo, os escândalos da Lava Jato e a visão de que é preciso “moralizar” o governo e que “na ditadura não havia corrupção”, dão margem para que surjam novos partidos e movimentos que podem se destacar no próximo ano.

Piora o quadro, como ocorreu na Alemanha pré Hitler, a ausência de uma efetiva recuperação econômica, o que aumenta a rejeição ao governo atual e as críticas ao anterior, incitando a radicalização como forma de trazer mudança. Não adianta, no entanto, só dar chiliques. A economia não abre exceções pelo grito. Vide uma das principais bandeiras do governo Temer, a austeridade fiscal: limitou-se a um marketing de terror. De fato, as contas do setor público consolidado, que englobam o Governo Federal, os estados, municípios e as empresas estatais, registraram o maior rombo para meses de março desde o início da série histórica, em dezembro de 2001: R$ 11,04 bilhões.

No mês passado, o governo anunciou que o rombo do Governo Central ficará R$ 129 bilhões em 2018, bem acima da projeção anterior, de R$ 79 bilhões. Este será o quinto ano de déficit. A culpa, segundo a equipe econômica, é do governo petista.

Enquanto os atores políticos tradicionais teimam em deixar de enfrentar problemas de frente e juram que nada fizeram para ter o nome no SPC da Lava Jato, surgem movimentos radicais, que vão às escolas saber como professores dão aula e defendem que a guinada direitista é a única saída. Apesar dos conceitos que trazem, atraem pessoas que esquecem qual é sua própria cor e, ao invés das suas, preocupam-se com a liberdade e a sexualidade do próximo. Num estado que se diz laico, a bancada evangélica não vê a hora de ter um dos seus no poder.

 

Ana Borges e Maurício Palhares

Diretores da Compliance Comunicação.