Venda de imóveis usados cai 28,67% em SP; mercado pode piorar com corte da Caixa

Conjuntura / 10 Outubro 2017

A locação de imóveis residenciais cresceu pelo segundo mês seguido na cidade de São Paulo (+ 2,35%) enquanto que o mercado de venda de imóveis usados recuou 28,6% em agosto comparado a julho. A consequência desses movimentos distintos se refletiu nos preços. Os valores dos aluguéis subiram 2,25% em média. Os preços do metro quadrado dos imóveis usados caíram 0,84%.

Segundo a pesquisa feita com 291 imobiliárias da capital pelo Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo (Creci-SP), os imóveis mais alugados, com 54,71% do total de contratos, foram os que têm aluguel mensal até R$ 1.200. Os imóveis mais vendidos foram os de preço final até R$ 500 mil, com 62,69% das vendas registradas nas imobiliárias consultadas.

A pesquisa apontou que 43,28% desses imóveis foram vendidos com financiamento bancário, dos quais 35,82% receberam crédito de vários bancos privados e públicos e 7,46% da Caixa Econômica Federal (CEF), o principal agente financiador da casa própria, com participação de quase 70% no total de crédito imobiliário do Brasil. Os 7,46% representam o menor percentual de crédito concedido pela CEF este ano no mercado de imóveis usados da capital paulista, segundo a pesquisa do Conselho.

- A situação pode ficar ainda pior para quem precisa comprar a casa própria - afirma José Augusto Viana Neto, presidente do Creci-SP.

Aplicada a decisão da Caixa Econômica Federal de que só financiará 50% do valor dos imóveis, quem pretender comprar uma casa ou apartamento na capital de R$ 500 mil terá de desembolsar R$ 250 mil.

- Sem contar os mais ricos, que são a minoria e não precisam de financiamento, só uma parte minúscula da elite da classe média deve ter esse dinheiro disponível -, argumenta Viana Neto.

O presidente do Creci paulista adverte que os resultados da pesquisa Creci-SP "mostram que o governo precisa agir com urgência para reativar a indústria imobiliária se pretende evitar que continue aumentado a desigualdade, a pobreza e as condições de vida degradadas de milhões de famílias".

Segundo ele, se o ajuste fiscal nas contas públicas é fundamental para que a Economia volte a crescer, igualmente importante é dar condições para esse crescimento "com o estímulo a um dos setores que mais geram empregos diretos e indiretos e movimentam uma imensa cadeia produtiva".

O Brasil tem um déficit estimado de 6 milhões de moradias (cortiços, favelas, moradias precárias) e com a recessão dos últimos três anos não tem conseguido manter os programas e políticas de redução desse grave passivo social, reconhece Viana Neto. Mas ele destaca que "queimar capital público vendendo empresas e participações acionárias unicamente para reduzir déficit de dívida não é uma atitude responsável em relação à dívida social do país, muito mais grave que qualquer outra".

- O Governo Federal arrecadou vários bilhões de reais nas últimas semanas com leilões de campos de petróleo, venda de usinas hidrelétricas e empresas estatais e deveria destinar a maior parte desse dinheiro para capitalizar, por exemplo, a Caixa Econômica Federal e assim criar novas linhas de crédito e ampliar os financiamentos para a casa própria.

A seu ver, "nenhuma política pública de qualquer governo pode ser considerada responsável se não tiver como propósito fundamental o bem-estar de seus cidadãos, o que inclui a moradia digna e decente".

 

Caixa - O presidente do Creci-SP ressalta que a entidade sempre apoiou e foi parceira da Caixa Econômica Federal, "mas não pode deixar de criticar quando ela inverte os papéis com os bancos privados ao cobrar juros mais altos nos financiamentos imobiliários". Em agosto, nas taxas médias informadas pelos bancos, a Caixa tinha os juros mais caros: 10,25% ao ano no SFH e 11,25% no SFI, mais TR. As taxas eram, respectivamente, de 9,74% e 10,65% nas duas linhas no Banco do Brasil; 9,3% e 9,9% no Itaú Unibanco; 9,5% e 9,5% no Bradesco; e 9,49% e 9,9% no Santander.

- Se considerarmos que a inflação oficial, a medida pelo IPCA, está acumulada até agosto em 1,62%, então não há argumento que justifique esse juro sete vezes acima da inflação que a Caixa está cobrando, nem servem de alívio também as taxas dos bancos privados.

A respeito, o presidente do Creci-SP lembra que o percentual de imóveis usados financiados na cidade de São Paulo em agosto, de 43,28% do total vendido pelas imobiliárias pesquisadas, é o terceiro pior do ano. O "recorde negativo" pertence a maio, quando apenas 34,34% dos imóveis vendidos foram financiados por bancos, e o segundo pior mês foi março, com 40,63%.

Ainda em agosto, 50,75% das casas e apartamentos negociados pelas 291 imobiliárias pesquisadas foram vendidas à vista. "Não foi o pior resultado do ano, no sentido de termos mais esse tipo de venda do que a financiada, pois em julho o percentual chegou a 61,62%, mas é mais um indicativo das restrições enfrentadas por um mercado que depende tanto de crédito quanto o automobilístico", pondera Viana Neto.

Embora o acumulado de vendas no ano, de janeiro a agosto, apresente crescimento, de 107,01%, ele não expressa uma real retomada de crescimento do mercado de imóveis usados. O presidente do Creci-SP enfatiza que é preciso "comparar para avaliar a situação real do mercado", e cita como referência o índice de vendas da capital em agosto, que ficou em 0,2302.

Esse índice é 38,9% inferior ao índice médio de 2013, de 0,3767, quando o mercado já começava a sentir os efeitos da pré-recessão que se intensificaria no final de 2014, e está 45,77% abaixo do índice médio de vendas de 2012. Até este ano, e desde 2007, o índice médio de vendas da capital nunca havia caído abaixo desse patamar.