Valle Central do Chile – Parte 1

A Cabernet Sauvignon brilha em frescor e elegância no Alto Cachapoal, ao pés dos Andes e em solos aluviais pedregosos.

Vinho etc / 21:10 - 7 de jun de 2019

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Vamos começar a explorar o Chile vitivinícola pelo seu nada modesto Valle Central, sem dúvida, a região mais significativa, por muitos motivos, de naturezas histórica, geográfica, produtiva, econômica, turística etc. Um motivo reforça o outro. A região vitivinícola do Valle Central se estende da província de Chacabuco, região metropolitana de Santiago, à província de Cauquene, no Valle do Maule – vale mais a sul dos outros três da área central que se seguem setentrionalmente: Valle do Curicó, Valle do Rapel e Valle do Maipo. O Valle Central, a despeito de algumas diferenças sub-regionais, está no âmago do clima de estilo mediterrâneo, mas terá temperaturas mais amenizadas pelas proximidades da Cordilheira dos Andes ou da Costa, vales banhados por rios, que também exercem papel importante na irrigação dos vinhedos e constituição dos solos.

O Valle do Maipo, que engloba a zona metropolitana de Santiago – tanto que se é possível visitar viñas (nome mais utilizado para denominar vinícolas no Chile) como Concha y Toro e Cousino Macul via transportes públicos de Santiago – é tradicional e clássico ao mesmo tempo. Foi ali, próximo a Santiago, que foram plantadas as primeiras cepas trazidas pelos espanhóis no século XVI para que o suprimento de vinho para celebração das missas fosse garantido futuramente. Foi ali também que em meados do século XIX se estabeleceram algumas famílias abastadas pelo lucro da mineração para fundarem suas vinícolas – viñas modelo que formam a clássica vitivinicultura do Valle del Maipo e que foram privilegiadas para o turismo, uma vez coladas na capital chilena.

Hoje, no mundo do vinho, um grande produtor tem vinhedos em várias regiões, justamente para diversificar sua produção, mas pode-se dizer que boa parte das mais importantes vinícolas chilenas têm sua base no Valle del Maipo. Ali se encontram também mais de 70% dos vinhedos de Cabernet Sauvignon plantados, tal a sua excelente apropriação ao território. Há três zonas distintas: Alto Maipo, Médio Maipo e Maipo Costa. O primeiro está situado no sopé dos Andes, desde a Quebrada de Macul, em Santiago, às margens do Rio Maipo, regiões de Pirque, Puente Alto. Ali as temperaturas são mais amenas na época de maturação, o que requer atenção para que cepas de ciclo tardio cheguem ao seu ponto ótimo, podendo, por outro lado, favorecer a boa acidez dos vinhos. No Médio Maipo, próximo às comunas de Isla de Maipo e Talagante, é onde a maturação é generosa, apoiada por solos pedregosos: paraíso para Cabernet e Carménère. Maipo Costa é a área menos clássica, atualmente mais explorada.

O Valle do Rapel é outra região de grande nobreza, tanto que tem sido mais denominado por suas duas sub-regiões, tais as expressividades de suas produções – são elas: Valle del Cachapoal e Valle de Colchagua. O primeiro fica ao norte e é morada de vinhos tintos, da Carménère, Cabernet Sauvignon e Merlot – somadas, representam 80% de sua produção. O que o torna mais especial é a sua variedade de microclimas e topografias, fazendo com que distintos vinhos surjam dessa mesma gama de varietais. A Cabernet Sauvignon brilha em frescor e elegância no Alto Cachapoal, ao pés dos Andes e em solos aluviais pedregosos. Já nos arredores de Peumo, direção oeste, as temperaturas aumentam, favorecendo a Carménère, que, em áreas expostas à brisa do Pacífico combinadas a solos argilosos, pode conferir notas crocantes aos frutos maduros dos vinhos.

Nos vinhedos do Valle de Colchagua, a sul do Rapel, também predominam as mesmas três castas, mas ali é mais recente a exploração das extremidades orientais e ocidentais. Boa parte dos vinhedos está próxima da cidade de Santa Cruz, bem ao centro, em áreas que sofrem em parte bloqueio da influência oceânica pacífica da Cordilheira Costeira, favorecendo a expressão do clima quente e seco mediterrâneo e longa maturação da Carménère. Os vinhos que predominam são, portanto, potentes, alcoólicos, com sabores maduros, que agradam a muitos, mas nem sempre expressam muita elegância. Isso vem levando a uma revisão enológica, em busca de vinhos tintos brancos mais frescos – como eu já apontei no artigo anterior, reavaliações e diversificações têm sido feitas à medida que se promove um amadurecimento da enologia de alguns países do Novo Mundo.

No próximo artigo, falaremos da parte mais setentrional do Valle Central: Valle del Curicó e Valle del Maule, além de destacar nomes das vinícolas de todo o Vale Central e de alguns vinhos que as têm consagrado nos últimos anos.

 

Notícias do mundo do vinho

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