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Vale a pena, José

Vale relembrar a situação em Mariana: até hoje as famílias choram seus mortos.

Seu Direito / 28 Janeiro 2019 - 16:51

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E agora, José?/A festa acabou,/a luz apagou,/o povo sumiu,/a noite esfriou,/e agora, José?/e agora, você?/você que é sem nome,/que zomba dos outros,/você que faz versos,/que ama, protesta?/e agora, José?

Está sem mulher,/está sem discurso,/está sem carinho,/já não pode beber,/já não pode fumar,/cuspir já não pode,/a noite esfriou,/o dia não veio,/o bonde não veio,/o riso não veio,/não veio a utopia/e tudo acabou/e tudo fugiu/e tudo mofou,/e agora, José?

E agora, José?/Sua doce palavra,/seu instante de febre,/sua gula e jejum,/sua biblioteca,/sua lavra de ouro,/seu terno de vidro,/sua incoerência,/seu ódio – e agora?

Com a chave na mão/quer abrir a porta,/não existe porta;/quer morrer no mar,/mas o mar secou;/quer ir para Minas,/Minas não há mais./José, e agora?

Se você gritasse,/se você gemesse,/se você tocasse/a valsa vienense,/se você dormisse,/se você cansasse,/se você morresse…/Mas você não morre,/você é duro, José!

Sozinho no escuro/qual bicho-do-mato,/sem teogonia,/sem parede nua/para se encostar,/sem cavalo preto/que fuja a galope,/você marcha, José!/José, para onde?

(E agora, José?, Carlos Drummond de Andrade)

 

Até sexta-feira, muitos não tinham ideia onde fica Brumadinho. Brumadinho é um município brasileiro no Estado de Minas Gerais, Região Sudeste do país. Está localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte e sua população estimada em 2018 era de 39.520 habitantes. O nome “Brumadinho” deve-se ao fato do local estar próximo à antiga vila de Brumado Velho, que por sua vez teria sido assim denominada pelos bandeirantes por causa das brumas comuns em toda a região montanhosa em que se situa o município, especialmente no período da manhã.

Embora o município de Brumadinho seja atravessado pelas rodovias BR-381 (São Paulo–Belo Horizonte) e BR-040 (Rio de Janeiro–Belo Horizonte), e seja possível chegar à sede municipal a partir de ambas as rodovias, o acesso mais curto da capital à cidade de Brumadinho é pela rodovia MG-040, a chamada Via do Minério, uma estrada mais direta que sai da região do Barreiro, na parte sudoeste da capital, e atravessa os municípios de Ibirité e Mário Campos antes de chegar a Brumadinho. Há uma curta divisa direta de Brumadinho com o município da capital, mas localizada numa remota área montanhosa, sem estradas e de difícil acesso (fonte: Wikipédia).

Três anos após o maior desastre mundial da mineração, em Mariana, Belo Horizonte e o Brasil choram de novo seus mortos e desabrigados. Três barragens de rejeitos de minério de ferro da cia Vale romperam-se, atingindo mais de 500 pessoas que estavam na área administrativa e no refeitório. Fico boquiaberta com as palavras do presidente da Vale, Sr. Fabio Schvartsman, que deu a seguinte declaração: “O dano ambiental será muito menor do que houve Mariana, o dano maior será a tragédia humana”.

Confesso que demorei um pouco para entender o que foi dito, de forma fria, desumana e cruel. Era como se um robô desse a notícia que centenas de seres humanos foram engolidos por uma lama suja, sem possibilidades de resgate e que as famílias se contentassem com a informação dada, pois já estava de bom tamanho. Enterro? Para quê? Os restos dos corpos já foram estavam devidamente enterrados. (ou soterrados). A situação em si me causou um misto de enjoo, dor, raiva...

Após, veio a mídia com seu furor, com o objetivo maior de entrar na briga de audiência. Os mesmos fatos foram divulgados o dia inteiro, não havendo a mínima preocupação pela procura da notícia solidária. Obviamente chegou o momento do “eu não tenho nada a ver com isso”. A Prefeitura joga a culpa para o Governo, que diz que a culpa é da União, que diz que só a Vale tem responsabilidade. Como pensar em eximir a Prefeitura de responsabilidade de cobrar toda a documentação de laudos da Vale? O que a Prefeitura fez? Aplicação de multa de mais de R$ 100 milhões à Vale, reconhecendo que não tem como arcar com essa responsabilidade, e indenização, inclusive, de quem não estava trabalhando.

A esperança da família está na ajuda que vem de fora de Israel, aceita pelo presidente da República. A principal tarefa dos militares é a busca e resgate de sobreviventes depois do desastre que atingiu a cidade mineira na tarde de sexta-feira. Os israelenses pretendem usar veículos aéreos não tripulados, radares subaquáticos e equipamentos para detecção de pessoas através do sinal de celular.

É claro que as famílias têm direito à indenização. Há ilícito penal, civil e trabalhista. Já houve bloqueio judicial de mais de R$ 11 bilhões da Vale. Vale relembrar a situação em Mariana: até hoje as famílias foram indenizadas? Não! Choram seus mortos! É exatamente o que vai acontecer com os “desaparecidos” de Brumadinho. Aos poucos, estão tirando, de forma sorrateira, o direito de enterrarmos com dignidade nossos mortos, ou, como divulgado pela mídia, o que sobrou deles.

Por fim:

Com a chave na mão/quer abrir a porta,/não existe porta;/quer morrer no mar,/mas o mar secou;/quer ir para Minas,/Minas não há mais./José, e agora?

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