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Vai todo mundo perder

“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”. A frase dita...

Conversa de Mercado / 26 Outubro 2018

Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”. A frase dita pela ex-presidente Dilma Rousseff num passado remoto passou a fazer todo o sentido. Basta olhar para a reta final das eleições presidenciais. Entre ataques pessoais, fake news, ameaças à imprensa e as bandeiras alienadas que são levantadas com veemência nas mídias sociais, o projeto Brasil foi perdido. Não há clareza de nenhuma das partes sobre o que se deve fazer nos próximos quatro anos tanto do lado econômico como do social.

O que surpreende é a postura do eleitorado e até de políticos já eleitos. A disputa abriu espaço para a permissividade. Pensamentos que eram deixados apenas no campo do pensamento por serem constrangedores agora são esboçados publicamente e, pior, apoiados por muitos. Lê-se que o Brasil deve sair da ONU, pois a organização é comunista, que basta um soldado e um cabo para fechar o Supremo e por aí vai... “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”, já previa o falecido escritor Umberto Eco.

No campo da economia, os planos dos candidatos só não são denunciados como fake news porque as sugestões para resolver o déficit fiscal, elevar o PIB ao crescimento desejado, aumentar os investimentos e reduzir o desemprego etc. são vagas demais. Com cada um tentando cavar votos de qualquer lado, fica difícil acreditar em declarações ou propostas sérias. Até porque, nos planos constam uma coisa, nas entrevistas e posts em redes sociais outra. E a realidade é bem diferente. Sem recursos e com um Congresso dividido, o novo governante precisará de fôlego para aprovar rapidamente as medidas necessárias para conter a sangria fiscal. Caso contrário, Macri está aí para servir de exemplo.

Durante sua campanha, o atual presidente argentino defendeu uma política econômica voltada para o mercado com a abertura de investimentos estrangeiros, a diminuição da inflação para um dígito em dois anos e o levantamento dos limites das exportações do setor agropecuário. A promessa de Macri era de que daria estabilidade ao país e o levaria à retomada. Deu certo. Os argentinos queriam a mudança. Ele recebeu nas mãos uma economia com sinais de crescimento frágil, de 2,2% no primeiro semestre de 2015, inflação superior a 20% e reservas reduzidas no Banco Central.

A herança maldita ou as decisões equivocadas levaram a Argentina ao caos. A inflação está acima de 40%, o peso se desvalorizou mais 50% em relação ao dólar, e a taxa de desemprego é a mais alta dos últimos 12 anos. A taxa básica de juros encontra-se em 60%, e foi preciso pedir ajuda ao FMI, que exigiu medidas rígidas de controle fiscal. Em 2017, o déficit ficou em 3,9% do PIB e, para este ano, a estimativa é de que o indicador caia para 2,6%. Com o corte de gastos governamentais, o PIB argentino deve se contrair ainda mais.

Com uma economia mais pujante e algumas reformas já realizadas, mas também com baixo crescimento e fragilidade fiscal, o Brasil quer e precisa de mudança. Há, porém, um abismo enorme entre o que se fala para ganhar as eleições e o que realmente é possível entregar. Sem detalhamento das propostas, a nuvem paira sobre o que será de nossa economia no médio prazo. Socialmente, ganhe quem ganhar, todos perderam. O radicalismo já contaminou a razão. A divisão prejudica a retomada da confiança de que o próximo governo conseguirá resolver todos os problemas e, uma das bases para minimizar o impacto de ajustes econômicos, é justamente a confiança.