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Um mundo de cabeça para baixo: da Líbia ao Oriente Médio

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 18:00 - 09 de Jan de 2019

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O filósofo italiano Costanzo Preve, refinado intelectual de inspiração marxista e neo-hegeliana, argumentou, certa vez, que “a nossa é uma época em que os intelectuais são mais burros que as pessoas comuns”. Teoria aventureira, talvez, ao nível do indivíduo, mas certamente verdadeira ao nível de eleitores. A política não é uma ciência, não é a física, não existem os “competentes”, todo homem tem suas sensibilidades políticas e sabe como transformá-las em um voto que o represente.

Por exemplo, consideramos Emmanuel Macron: após um ano de falas, à moda de um pequeno Napoleão, ultimamente não está acertando nada. Os jornalistas andam descobrindo seus ambíguos negócios privados. Hoje, seus ministros estão fugindo, e as maiores críticas contra ele não provêm, somente, do jornal satírico Le Canard Enchaîné, mas, igualmente, do jornal da elite, Le Monde.

Outro jornal, Le Figaro, atinge o macronismo dizendo que não se pode misturar tudo e seu oposto, transformando a França em um simples milk-shake: “Ontem, o macronismo parecia uma ideia brilhante, hoje, tornou-se perigoso.” Tantos raios, algum trovão, mas, com ele, a realização das promessas fica foragida! “Macron é, sim, um mago da chuva, mas se torna um eunuco quando aparece o sol (politicamente falando, é claro)”.

 

Quadro contraditório e obscuro é o

resultado da política externa dos EUA

 

Depois dos protestos dos coletes amarelos, que paralisaram a França e incendiaram Paris, Emmanuel Macron começa a entender que algo deve mudar. E ele faz isso, fazendo autocrítica pela primeira vez. Conforme revelado pelo jornal Le Parisien, na sexta-feira passada, o presidente francês encontrou alguns membros da Génération Terrain, no Elysée, uma associação que reúne alguns prefeitos. Para eles, o presidente parece ter afirmado de ter feito “conneries” (“besteira”, em francês). Entre estes, a limitação de velocidade de 80 quilômetros por hora e redução de ajuda para aluguéis.

De acordo com o Le Parisien, Macron, durante a reunião, ficou perplexo confessando seus erros e os de seu governo: “Há muitos impostos, muitos impostos neste país! E eu não ajudei.” E a resposta dos convidados foi um verdadeiro alerta para Macron e seu governo: “Você não é amado, é rejeitado”, disseram seus interlocutores.

E agora, todo mundo está esperando pela próxima semana, quando o presidente francês deve fazer um discurso para a nação e lançar um plano para sair da crise. Os coletes amarelos ainda estão no pé da guerra. E o chefe do Elysée, cada vez mais isolado e sitiado, está tentando encontrar uma maneira de sobreviver a esse impasse, que, também, poderia levar ao fim antecipado de sua presidência.

Mas o caos na situação internacional não se limita à França. A política norte-americana no Médio Oriente é, utilizando um eufemismo, pelos menos confusa! Aubrey Bailey, leitora do jornal Daily Mail, escreveu uma carta a este jornal, na qual destaca a confusão que reina na política norte-americana nessa importante área geográfica. Ela escreveu, para o Daily Mail, em 5 de setembro, para lançar alguma luz sobre o complexo sistema de alianças e conflitos que existem entre o Ocidente, estados do Oriente Médio e grupos jihadistas, como o Estado Islâmico.

De fato, os norte-americanos são aliados do governo iraquiano na luta contra o Estado Islâmico. Porém, não gostam do Estado Islâmico, que é apoiado pela Arábia Saudita, que é aliado dos ianques; estes não gostam do presidente Assad na Síria – são aliados na guerra contra ele – mas não do Estado Islâmico que, como os norte-americanos, luta contra o chefe sírio.

Os norte-americanos não gostam do Hezbollah, que está lutando contra Assad, junto com o Irã. Também, não gostam do Irã, mas o Irã apoia o Iraque, na guerra contra o Estado Islâmico. Como os norte-americanos. É assim que alguns dos amigos dos norte-americanos são aliados dos inimigos deles, e alguns dos inimigos são aliados dos amigos. Alguns dos inimigos lutam contra outros inimigos, que os norte-americanos querem que sejam derrotados.

Se os que os ianques querem derrotar forem derrotados, poderão ser substituídos por alguém, de quem gostam ainda menos. E tudo isso começou quando invadiram um país para expulsar os terroristas, que não estavam lá, até quando os norte-americanos chegaram para expulsá-los!

Está tudo claro agora?

Na verdade, tudo isso permite aos norte-americanos fabricar armas que vendem aos amigos, que estes vendem, por sua vez, para seus aliados, que são inimigos dos ianques. Também, por objetividade, os ianques não matam, apenas, os filhos dos inimigos, mas, também, deixam matar os próprios filhos. É claro que a maioria dos meninos norte-americanos, que morrem, são proletários negros ou brancos.

Este quadro contraditório e obscuro é o resultado da estratégia do dia a dia da política externa dos EUA, nos últimos 30 anos (esquecendo-se o que fizeram no dia anterior e sem pensar o que vai ser no dia seguinte). Estratégia de débil mental, que a Europa e a ONU sempre aceitam, em preocupante silêncio.

 

 

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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