Índia, uma lição estratégica

Opinião / 14:29 - 27 de out de 2000

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A globalização não decretou o fim do Estado nacional, mas veio demonstrar, mais uma vez, as vantagens políticas, econômicas e militares dos Estados mais fortes e capazes. Apesar dos problemas internos, a Índia é a maior democracia do planeta, ocupando uma posição estratégica de destaque, como potência nuclear emergente na Ásia Meridional e no Oceano Índico. A Índia é candidata a um lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e, ao contrário do Brasil, não parece disposta a abrir mão de sua candidatura. Após a independência do domínio colonial britânico, ocorrida em 1947, e elite indiana percebeu que não seria possível esperar até que o país atingisse o pleno desenvolvimento econômico e social, para implementar um projeto autônomo de potência, sob risco de vir a sofrer um desmembramento territorial. No Brasil, ao contrário, o discurso político dominante utiliza as desigualdades sociais e a ausência de ameaça externa ostensivamente percebida, como justificativas para a manutenção do orçamento de defesa em níveis assustadoramente baixos, adiando indefinidamente a modernização das Forças Armadas. A Índia possui Forças Armadas fortemente inspiradas no modelo britânico, com elevado nível de profissionalismo e sem antecedentes de intervenção armada na política interna do país. As três forças singulares (Exército, Marinha e Força Aérea) empregam armamento de diversas procedências, mas existe uma considerável indústria local de defesa, que produz armamentos terrestres, navios de guerra (inclusive submarinos de propulsão convencional) e aeronaves militares de todos os tipos. No Oceano Índico, a Marinha indiana é a potência naval dominante, e planeja construir submarinos de propulsão nuclear no futuro, tendo chegado a operar um submarino nuclear arrendado da antiga União Soviética, o INS "Chakra", pertencente à classe "Charlie II". Há alguns anos, a Índia desativou o navio-aeródromo INS "Vikrant" (ex-HMS "Hercules"), passando desde então a contar com apenas um navio deste tipo, o INS "Viraat" (ex-HMS "Hermes"). Este navio, assim como seu antecessor, é de procedência britânica e opera atualmente com aeronaves STOVL (Short Takeoff/Vertical Landing), de decolagem curta e pouso vertical, do tipo BAE Systems (ex-British Aerospace) Sea Harrier. A Marinha indiana está substituindo seus antigos NAe por duas unidades mais modernas, capazes de operar com aeronaves de combate convencionais de alto desempenho. Recentemente, a Índia adquiriu à Rússia o NAe "Admiral Gorshkov" (cujo nome original era "Baku"), de 44 mil toneladas, que está sendo convertido em Severodvinsk, na própria Rússia, a um custo de aproximadamente US$ 750 milhões, para operar com caças embarcados Mapo MiG-29K Fulcrum, com entrega prevista para 2003. Além disso, um NAe de projeto francês, de 32 mil toneladas, denominado Air Defence Ship (ADS), está em construção em Cochin, na Índia, devendo ser entregue em 2008 ou 2009. A Marinha indiana deverá adquirir de 50 a 60 aeronaves MiG-29K, para guarnecer ambos os navios. No dia 26 de setembro último, o Brasil adquiriu, pelo preço simbólico de US$ 12 milhões, o NAe francês "Foch", de 32 mil toneladas, já rebatizado como "São Paulo", a fim de substituir o NAeL "Minas Gerais". O atual NAe brasileiro, de apenas 19 mil toneladas, é capaz de operar com as aeronaves de ataque McDonnell Douglas A-4 Skyhawk da Marinha, mas sua velocidade máxima de 24 nós (44,5 km/h) impõe algumas restrições às operações de vôo. O "Foch" atinge a velocidade máxima de 32 nós (59,3 km/h). Entretanto, chegou a ser sugerido que sua aquisição seria um inútil desperdício de recursos, entre outras razões, por que o peso estratégico do Brasil no Atlântico Sul não se compara ao da Índia no Oceano Índico! Decididamente há algo errado com as nossas elites. Em 1998, o lançamento de uma nova família de moedas custou ao país cerca de US$ 550 milhões. Com esta importância, teria sido possível construir em estaleiro nacional, gerando milhares de empregos diretos e indiretos, um NAe moderno para a Marinha do Brasil. Como a defesa nacional sempre ocupou o último lugar na lista das prioridades governamentais, o país acabou tendo de optar pela obtenção de um navio de segunda-mão. Seria engraçado, se não fosse tão assustador. Eduardo Italo Pesce Vice-presidente do Instituto de Defesa Nacional (Iden), membro do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos (Cebres), especialista em Relações Internacionais e professor.

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