Tormento em Guarulhos

Opinião / 13:11 - 20 de dez de 2000

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Há muitas formas de tortura: psicológica, moral física. Dizem que os chineses são peritos na modalidade psicológica, devido a sua milenar experiência. Desta forma, concluímos que muitos funcionários da Transbrasil foram treinados por instrutores chineses. O fato que passamos a narrar ilustra bem a falta de respeito para com o consumidor, causada pela impunidade das empresas infratoras, devido a ausência de poder fiscalizador hábil, em todos os setores da atividade econômica. O exemplo citado a seguir é na área de navegação aérea, mas poderia ser de qualquer outro segmento. Tudo começou na sexta-feira, dia 15 de dezembro, quando viajamos para Brasília (DF). De manhã, fomos pela TAM, via Aeroporto Santos Dumont, pagando R$ 217,00 mais taxa de embarque. Na volta, aconteceu o drama. Compramos passagem na Transbrasil, vôo 1399, por R$ 286,00 mais taxa de embarque, para sair de Brasília às 22h30, com escala em Guarulhos, com horário previsto de chegada no Rio de Janeiro (RJ), nosso destino, às 2h, no Galeão. A aeronave, um Boeing 767, vinha de Manaus, para depois da escala no RJ, ir para Salvador e Fortaleza. Até São Paulo, tudo correu dentro dos parâmetros normais de atraso. Porém, quando o avião aterrissou em Guarulhos, a tortura começou. Após o desembarque dos passageiros com destino a São Paulo, a chefe das comissárias informou que, devido a avaria técnica, todos deveriam abandonar a aeronave para, com o devido cartão de trânsito, ser acolhido em outro avião. Para resumir, demoraram uns 15 minutos para providenciar o referido cartão. Enquanto isto, adentraram a cabine do piloto dois técnicos, um deles com feições asiáticas, para mexer no painel. Ao sairmos do avião, prefixo PT TAC, passamos por outra revista desnecessária, com direito a Raio X, detetor de metais etc. A ordem era ir para o Portão 3. Ao procurar saber qual a previsão de embarque, uma despachante da Transbrasil informou ser em torno de 2h, pois outra aeronave estava saindo de Manaus, para refazer o trajeto. É oportuno salientar que havia muitos passageiros idosos e um número enorme de crianças, principalmente de colo. Um passageiro solicitou à despachante da Transbrasil que a empresa providenciasse, por favor, água e café para atender às necessidades do grupo. A resposta foi curta e grossa: pela legislação em vigor, somente após quatro horas de atraso a empresa tem obrigação de providenciar alimentação para os passageiros. Havia casos delicados a resolver. Uma senhora precisava chegar ao Rio logo para o enterro de seu pai. Um empresário, que se revelou mais tarde assessor parlamentar do governo, precisava estar na hora certa em Fortaleza, pois tinha compromissos comerciais assumidos, sob pena de prejuízo. O tempo foi passando, nenhuma explicação adicional dada e os passageiros, já bastante estressados, começaram a pressionar a despachante. Os ânimos foram esquentando e, de repente, um funcionário da Transbrasil, deficiente físico, que estava do outro lado da porta de vidro, após acirrada discussão, xingou um dos passageiros, o qual reagiu em altos brados, também proferindo palavras de baixo calão. A partir daí foi uma série de agressões de baixo nível. De repente, aparece a Polícia Federal, por intermédio de um delegado e dois agentes, de cara feia, acompanhados do deficiente físico, funcionário da Transbrasil. Parece que iam prender um dos passageiros que se exaltara. Fomos explicar à autoridade o que estava acontecendo e o assessor parlamentar começou a gravar tudo com uma câmara de vídeo. O delegado mandou que ele parasse de filmar, pois tudo já estava sendo gravado pela câmara do saguão. O mesmo parou e então identificou-se como autoridade, na qualidade de assessor parlamentar do governo. Os policiais passaram então a pressionar os representantes da Transbrasil, pedindo a presença do gerente. Este não apareceu, mas surgiu um outro funcionário que parecia ser supervisor, passando a informar que o avião não tinha qualquer avaria, mas não operaria mais naquela madrugada, pois uma outra aeronave tinha saído do RJ para apanhar-nos, com previsão de chegada às 3h. Ninguém entendeu mais nada. Se não havia avaria, por que o vôo não continuou? Ao ver nossa reação, reafirmando o que a comissária de bordo tinha afirmado, voltou atrás, dizendo que tinha havido um pequeno defeito no avião. A revolta cresceu e a polícia voltou a agir. Ficou a primeira dúvida. A Federal estava lá para defender os consumidores lesados ou para proteger os funcionários da empresa? A ordem agora era ir para o Portão 5, a fim de aguardar a chegada do avião. Resumindo, o avião chegou, não se sabe ao certo de onde (um passageiro que desembarcou disse que era de Manaus), despejando passageiros. Primeiro, uma leva. Depois, outra. Afinal, decolamos às 3h, por mera coincidência 10 minutos antes de vencer o prazo de quatro horas regulamentares, a partir do qual a empresa tem a obrigação de pagar refeições, providenciar hotel, transporte etc. Chegamos no Galeão às 4h30 e fomos, de imediato ao Serac (DAC) para preencher a queixa (n° 425/SBGL/2000). Só nós. O assessor parlamentar afirmou que processaria a empresa por perdas e danos morais e materiais. E a maioria foi embora para casa. Por que não foram reclamar também? Descrença? Hábito em ser ludibriada? Medo? O sargento do Serac, muito gentil, disse que a queixa deveria ter sido feita em São Paulo, porém como ficamos confinados em um determinado setor de Guarulhos, iria protocolar pelo RJ e encaminhar para São Paulo. Ao final da tortura, do "stress", dos aborrecimentos, das agressões, da ameaça de prisão, fica a certeza: ser passageiro da Transbrasil não faz bem à saúde! A impressão que tivemos é a de que tudo foi planejado para poupar uma viagem à empresa, causando-nos o transtorno planejado, dentro do limite, para minimizar custos e maximizar lucros, não fosse a empresa uma das mantenedoras do Diálogo Interamericano. Marcos Coimbra Professor titular de Economia na Universidade Candido Mendes, professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e conselheiro da Escola Superior de Guerra (ESG). Correio eletrônico: mcoimbra@antares.com.br Site: www.brasilsoberano.com.br

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