Terra arrasada

Opinião / 19 maio 2017

Malas de dinheiro, gravações legais e ilegais, joias, apartamentos, mansões, quedas de aviões, helicóptero com meia tonelada de cocaína, mortes obscuras, ameaças, corrupção, covardia, acordos espúrios, leis elitistas...

Esse cenário poderia ser de um filme de gangsteres, como a saga de O Poderoso Chefão, mas infelizmente não é. É a marca da política brasileira desde a vitória de Fernando Collor para a Presidência da República. É a marca da implantação do neoliberalismo, de uma política econômica excludente, associada ao capital financeiro internacional e dependente de todos esses ingredientes.

Ou muda o sistema,

ou não muda nada no Brasil

Hoje, a crise política, econômica, social, moral e ética em que o país se encontra é fruto desses 27 anos de bombardeamento das conquistas da Constituição Cidadã de 1988 e da continuidade de favorecimento ao grande capital, em detrimento da imensa maioria da população.

Os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário não têm credibilidade. O Judiciário não é eleito, o atual Executivo também não o foi, o Legislativo é um emaranhado de lobbies, no qual predominam empresários do campo e da cidade. Não é uma representação popular.

O vazamento do áudio do ilegítimo presidente Michel Temer resume esse contexto: de uma tacada só reúne o presidente, empresários, parlamentares, juízes, a chamada nata da sociedade. É uma demonstração cabal que o atual sistema político faliu ao voltar-se contra o povo na defesa de interesses próprios, mesquinhos, escusos.

Era de se esperar que o usurpador ocupante do Planalto não renunciasse. Lá chegou por intermédio de um golpe midiático, parlamentar, jurídico e patronal, sem compromisso com o país, muito menos com o povo brasileiro. Lá pretende ficar para implantar contrarreformas prejudicais aos trabalhadores, afora a lei da terceirização, e entregar de vez as riquezas naturais, vastas extensões de terra e os serviços públicos para o grande capital. Pretende, em dimensão muito maior, repetir o que fizeram os governos da Grécia, Espanha, Portugal, Itália, Chile, Argentina etc., com resultados desastrosos para os seus povos.

Até mesmo alguma recuperação econômica preconizada pelo presidente ilegítimo é falsa: a situação do PIB é calamitosa, mesmo com a mudança de critérios introduzida recentemente para mascarar a realidade; o desemprego e a desocupação já atingem mais de 26 milhões de trabalhadores, proporção extremamente alta da População Economicamente Ativa (PEA); a inflação caiu porque não há dinheiro para o consumo e ainda menos para investimentos, já que as atrativas taxas de juros praticadas pelo Banco Central drenam os recursos que poderiam estimular a economia.

Um livro publicado no século XVIII, em Portugal, intitulado a Arte de Furtar, publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira, mostra como a elite dominante daquele país furtava o povo e os recursos “públicos” já naquela época. Não só entra em detalhes minuciosos de como se furtava em todas as esferas do governo, então exercido pela nobreza, como vai à Antiguidade, origem dos “professores desta arte”. Em suma, mostra como as elites furtam sistematicamente o povo. Não a troco de nada o autor do livro é anônimo.

O curto prazo é incerto. Temer não teve a dignidade de renunciar, perdeu apoio de boa parte de sua base parlamentar e está com dificuldades para levar adiante as contrarreformas trabalhista e previdenciária, as meninas dos olhos do capital. Até a mídia empresarial, que tanto fez por sua ascensão, parece tê-lo abandonado. Falta o empurrão das ruas para derrubá-lo, mas com a incerteza de uma eleição indireta que pode levar um Frankenstein ao poder, ou de uma eleição direta que não mudará nada, já que o sistema continuará o mesmo.

Ou muda o sistema, ou não muda nada.

 

Afonso Costa

Jornalista.