Tentativa de censura alavanca venda de livros na bienal: 4 milhões

Evento se tornou um símbolo da resistência e da livre expressão artística.

Rio de Janeiro / 22:15 - 9 de set de 2019

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A tentativa de censura alavancou a venda de livros na 19ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Nos dez dias, cerca de 600 mil pessoas estiveram presentes no evento e foram vendidos mais de 4 milhões de livros, dos 5,5 milhões disponíveis. Na edição anterior do evento, em 2017, foram 3,6 milhões de livros vendidos e público de 680 mil pessoas.

De acordo com os organizadores, o evento é reconhecido como o maior evento literário do país e contou com mais de 300 autores do Brasil e de outros países, além de dezenas de artistas, acadêmicos, filósofos, cientistas, lideranças religiosas, movimentos sociais, ativistas e youtubers, que participaram de palestras, debates e bate-papo com o público.

Segundo a diretora-geral da bienal, Tatiana Zaccaro, a média de vendas superou a edição de 2017, passando de 100% de aumento em algumas editoras. “As curadorias dos espaços foram incessantes propondo os melhores temas, buscando os melhores autores e personagens. O espaço infantil foi um sucesso, o Café Literário teve todas as sessões praticamente lotadas e a Arena #SEMFILTRO causou um alvoroço, consolidando a Bienal como o maior programa cultural e o mais diverso do país”.

A bienal foi marcada pela tentativa de censura de livros de temática LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) por parte da Prefeitura do Rio de Janeiro. Na quinta-feira, o prefeito Marcelo Crivella determinou o recolhimento da obra Os Vingadores – A Cruzada das Crianças, um quadrinho de super-heróis da editora Marvel, em que uma cena mostra um beijo entre dois homens.

A Prefeitura negou a tentativa de censura ou homofobia e que, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), determinou que a revista fosse lacrada em material opaco e colocada uma advertência sobre conteúdo impróprio para menores de idade. O Artigo 78 do ECA diz que “as revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas em embalagem lacrada, com a advertência de seu conteúdo”. Fiscais chegaram a comparecer ao evento na sexta-feira e no sábado, mas não apreenderam nenhum material.

Repercussão

No último dia do evento, houve protesto contra a tentativa de censura. Manifestantes marcharam pelos corredores do Rio Centro com livros de temática LGBT nas mãos falando “não vai ter censura”.

O youtuber Felipe Neto comprou 14 mil livros com essa temática e distribuiu para o público do evento no sábado, embalados em um plástico preto e com o dizeres “este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas”. A empresa de comércio eletrônico e-books Amazon disponibilizou mais de 20 obras com temática LGTB para download gratuito.

O presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), Marcos da Veiga Pereira, afirmou que a Bienal se tornou um símbolo da resistência e da livre expressão artística. “Fico feliz em terminar esse festival consagrando o valor que a Bienal tem e com a certeza de que o livro vai prosperar. Acreditamos muito no poder de transformação do livro e, por isso, tivemos convicção do que fazer e de que atitude tomar nesses últimos dias”.

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