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Sustentabilidade e Prêmio Nobel. De economia?

▲ Sustentabilidade é um conceito recentemente difundido, quando medido na régua histórica. Conceito que compreende p...

Empresa-Cidadã / 16 Outubro 2018

Sustentabilidade é um conceito recentemente difundido, quando medido na régua histórica. Conceito que compreende preservação do ambiente, com inclusão social, e o desenvolvimento econômico, limando as arestas reais ou imaginárias entre estes, com todas as redundâncias possivelmente existentes nas suas definições.

Compreende outros entendimentos convergentes, como de desenvolvimento sustentável, de responsabilidade socioambiental, responsabilidade social, ou desenvolvimento ético. Dada a velocidade da gravidade com que crescem o desmatamento, a extinção de espécies da fauna e da flora, o uso da água, o aquecimento climático e consequentes mudanças, e a onda política que negligencia estas questões em favor de objetivos menores, retirando assinaturas de tratados internacionais, a preocupação dos segmentos mais responsáveis da sociedade vem se manifestando de forma mais incisiva.

No Brasil, neste período pré eleitoral, em que predominam manifestas intenções perversas, há ameaças de retirada do Brasil do Acordo climático de Paris, dos órgãos de preservação ambiental da ONU, de fechamento do Ministério do Meio Ambiente, da desidratação Ibama e do seu poder de polícia, do fim da demarcação das terras indígenas, de mais gado e mais cultura de soja e de cana-de-açúcar na Amazônia, entre outras.

A primeira resistência à expansão do conceito da sustentabilidade é a da descrença de que empresários e seus ordenados nas empresas admitam outra racionalidade que não seja exclusivamente a busca do lucro, como única crença nas políticas empresariais e nas políticas públicas que afetam e são afetadas pelas empresas. Estar neste grupo de pensamento implica em assumir convicções difíceis de aceitar na atualidade, como as de que o mercado é feito de tantas empresas oferecendo mercadorias e tantos consumidores, que nenhum deles poderia influenciar os preços praticados, negligenciando o peso dos oligopólios ou dos cartéis, como atualmente ocorrem. Ou assumir que, para crescer, basta acumular poupança (guardar uma parte da renda para aplicar mais tarde), e que o ambiente é capaz de absorver tudo o que nele é disposto. E outras mais.

Há, no entanto, quem acredite e, até prove, que a realidade é diferente disso nos mercados oligopolizados, cartelizados, e naqueles em que a informação e o conhecimento são fatores de produção negligenciados por alguns, mas tão importantes quanto são o trabalho e o capital. A negligência chega ponto de não reconhecer o que Hazel Henderson (85, autora de diversos livros, incluindo Mercados Éticos: Crescendo a Economia Verde; Além da Globalização; e Cidadania Planetária) denominou de “economia do amor”, a economia dos serviços domésticos, indispensável para a economia dos mercados acontecer.

A corporação é vista a partir daí como participante em uma racionalidade mais complexa do que a da exclusiva busca pelo lucro. Claro que não se trata de “correr atrás do prejuízo”, mas de precisar atender os níveis de aspiração de diferentes públicos nela interessados para continuar exercendo a sua “licença para operar” junto à comunidade. Ou como já disse um antigo líder religioso, “sobre toda propriedade privada paira uma hipoteca social.” Que pode ser executada a qualquer momento, está implícito.

 

O Nobel de economia

O Prêmio Nobel de economia é o que se poderia chamar de “forçação de barra.” Não foi criado pelo inventor da dinamite, como foram os da Paz, de Química, de Física, de Medicina e de Literatura. Talvez, nem Alfred Nobel tenha pensado no potencial de destruição da economia como algo comparável ao poder destruidor da dinamite, que ele buscou compensar através da criação dos autênticos Prêmios Nobel. Na verdade, o de economia é um prêmio paralelo, instituído pelo Banco da Suécia, junto com a Real Academia de Ciências da Suécia, na aba do Nobel original.

Este ano, no dia 8 de outubro, foram anunciados como merecedores da bolsa de 9 milhões de coroas suecas (ou US$ 1 milhão), na 50ª edição do prêmio, William D. Nordhaus e Paul M. Romer, pelo pioneirismo no ajuste entre teoria econômica, progresso tecnológico e ambiente.

Nordhaus (77, Universidade de Yale, USA; autor de livros como Invention, Growth and Welfare - Is Growth Obsolete?; The Efficient Use of Energy Resources; Reforming Federal Regulation; Managing the Global Commons; Warming the World; e, em conjunto com Paul Samuelson, o conhecidíssimo Economics) desenvolveu métodos para ensejar a sustentabilidade, através de política fiscal (instituição de impostos).

Romer (62) estudou aspectos da informação na sustentação do crescimento de longo prazo, através de modelos matemáticos de incentivo à criatividade, permitida por aspectos da sustentabilidade, como o da instituição de impostos sobre emissão de carbono.

A atribuição do prêmio em 2018 situa-se no mesmo campo teórico de 2017. Naquele ano, Richard Thaler mereceu a premiação por contribuições referentes à influência da racionalidade alterada nos comportamentos dos agentes econômicos.

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br