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Suspensão saudita da importação de frango do Brasil acende alerta

Perspectivas do comércio exterior: participação dos fornecedores mundiais na importação da Arábia Saudita de proteína animal.

Opinião do Analista / 29 Janeiro 2019 - 16:25

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Na última semana de janeiro serão divulgados dados com potencial de impacto na definição dos preços dos ativos. O Banco Central apresentará a Nota de Setor Externo, de Crédito e de Política Fiscal nos dias 28, 29 e 31, respectivamente. A Pesquisa Industrial Mensal (PIM) e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) serão conhecidas na quinta (31) e na sexta (1º). Nos EUA, serão divulgados dia 30 o PIB de 2018 e a criação de empregos de janeiro, a reunião do Comitê de Política Monetária do país (Fomc) será no mesmo dia.

Além dessas divulgações, cabe atentar para as perspectivas das exportações brasileiras. Fomos surpreendidos na semana passada pela suspensão saudita de importação de carne de frango brasileira. A medida foi atribuída a fatores técnicos no relatório oficial, mas o sentimento é de que houve retaliação em função da possível mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Já o vice-presidente da República atribuiu a decisão ao aumento na produção local. Entre tantas interpretações e meias palavras, cabe uma análise sóbria sobre as condições reais do mercado.

É verdade que os sauditas têm aumentado a produção doméstica, conforme afirmou Mourão, mas o país ainda consome duas vezes mais do que produz, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA. Caso o problema seja técnico, a resolução deve ser rápida e pouco problemática. Por outro lado, se o mercado estiver correto, os desdobramentos serão negativos e poderão abarcar outros produtos no futuro.

Quanto à carne de frango, alvo do embargo momentâneo, hoje a situação é confortável. Em 2017, mais de 80% da carne importada pela Arábia Saudita era brasileira. Não existe um exportador que possa substituir o Brasil de imediato neste mercado. O segundo maior player são os EUA, mas suas exportações são absorvidas por outros mercados, e o movimento diplomático que deve ser feito pelo Brasil já foi efetivado pelos americanos em meados de 2018, o que o inabilita como substituto.

Quanto aos bovinos, outro segmento importante que pode ser alvo de embargo, a situação é mais preocupante. Há players internacionais com capacidade para suprir a demanda em caso de retaliação. Uma vez cedido o espaço em mercados competitivos, a retomada torna-se difícil. Ainda é cedo para afirmar que os parceiros comerciais estão reagindo à nova política externa brasileira, mas em um contexto de crescimento de barreiras comerciais no mundo, pagar para ver não é uma postura inteligente.

 

Renda variável: setor de locação de automóveis engata a quinta marcha

A Localiza Rent a Car informou ao mercado nesta semana que o seu conselho de administração aprovou um aumento de capital com a emissão de 46 milhões de novas ações. A empresa, assim como outras do setor, vem apresentando resultados positivos nos últimos anos a despeito da recente recessão brasileira. A lógica do segmento é captar recursos, comprar carros com desconto, aluga-los com rentabilidade e depois vende-los bem. Para fazer frente à compra de mais veículos para a frota, que possibilita o crescimento dos negócios, as companhias contam com três principais fontes de recursos: venda dos carros usados, novos empréstimos (além da rolagem das dívidas vigentes) e recursos dos acionistas, seja pela não distribuição de dividendos ou por novos aportes dos sócios.

De dezembro de 2014 até setembro de 2018, a Localiza aumentou seu endividamento de 1,4x para 3,1x pelo critério dívida líquida/Ebitda. É necessário olhar o filme ao invés da foto de antes e depois. O aumento da alavancagem fez parte da estratégia da empresa, que soube utilizar com habilidade a liquidez no mercado de crédito local, tomando dívidas com prazos longos e juros relativamente baixos. Uma prova de que a estratégia estava correta foi a manutenção dos elevados níveis de rentabilidade, acima do custo da dívida. Os investidores foram entusiastas das atitudes da companhia e da entrega de resultados e elevaram o preço da ação de R$ 11 para R$ 33 nesse período, mais uma prova de que o mercado entendia o motivo do aumento da alavancagem.

Como as operações estavam crescendo a taxas elevadas, além das dívidas, também fez sentido a retenção de dividendos para reinvestimento no próprio negócio. Mesmo com o dinheiro da venda dos usados, a retenção de dividendos e da rolagem de dívida, a empresa optou pela emissão de novas ações para reforço de caixa. A empresa se aproveita do momento de mercado favorável, com o Ibovespa beirando os 100 mil pontos, para emitir novas ações. Atualmente as ações da Localiza negociam a um múltiplo de 35x preço/lucro.

O aumento de capital injeta recursos na empresa e a alavancagem deve cair para algo próximo a 2,4x dívida líquida/Ebitda. A emissão conta com um lote suplementar de 20% em caso de demanda superior, e isso diminuiria a dívida para 2,2x. Os recursos a serem captados, estimados em, pelo menos, R$ 1,4 bi, darão fôlego operacional à empresa para a compra de novos veículos e conforto aos credores. A empresa tem que manter o indicador dívida líquida/Ebitda abaixo de 4x pelos critérios acordados com os credores (chamados covenants). Com essa captação, fica mais longe de quebrar o acordo. Além disso, com o aporte societário e a redução da alavancagem, a utilização dos recursos nas operações vai fazer o Ebitda aumentar quase que naturalmente.

 

Gestão: fumaça é sinal de fogo - Os ativos brasileiros seguiram se valorizando pela quarta semana consecutiva, no embalo das indicações dadas pelo ministro Paulo Guedes em Davos, que espera economias de até R$ 1,3 tri decorrentes da aprovação da reforma da Previdência - mãe de todas as reformas -, o que soou como música para os investidores presentes.

Ato contínuo, o dólar, que ao início da fala do ministro operava em alta de quase 0,5% e acima de R$ 3,80, inverteu a tendência e, em menos de uma hora operava em queda, abaixo de R$ 3,77. Ondas de choque também foram sentidas no mercado DI, que seguiram devolvendo prêmios ao longo de toda a curva com a providencial contribuição do IPCA-15 de janeiro de 0,30%, abaixo do esperado. Exceção ao último dia da semana mais curta, quando apresentaram ligeira recuperação nas taxas.

No cenário externo, apenas o shutdown do governo americano supera em duração a sequência semanal de valorização do Ibovespa (+1,3% na semana), trazendo apreensões aos investidores que se somam a números cada vez mais fracos de confiança de consumidor, indicador antecedente de atividade econômica. Por sinal, o FMI revisou para baixo nesta semana suas projeções de crescimento do PIB em 2019 para os EUA (-0,2%, para 2,5) e a Europa (-0,3%, para 1,6%), com honrosa exceção ao Japão (+0,2%, para 1,1%) entre as economias avançadas. Já nas economias emergentes, as projeções para a China seguiram estáveis em 6,2%; e, para Rússia, recuaram 0,2% para 1,6%, enquanto para a Índia avançaram 0,1% para 7,5% e para o Brasil também avançaram 0,1%, para 2,5%.

Para a próxima semana, vários indicadores de peso nos EUA como PIB, PCE (inflação) e vagas criadas no mercado de trabalho estão previstos, mas correm o risco de não sair devido ao shutdown trumpiano. No Brasil, destaque para a nota de política fiscal referente a dezembro e o IGP-M referente a janeiro. Espera-se também para a próxima semana o início da legislatura, com eleições previstas para o Senado e a Câmara.

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