Shiller: "Daqui a 100 anos, lembrarão a crise com gratidão"

/ 18 Agosto 2010
O ilustre economista menciona os "instintos animalescos" e sua importância na economia Atenas - Foi denominado um dos 100 mais influentes economistas do planeta. O norte-americano Robert Shiller é o guru da ciência macroeconômica comportamental, a qual sustenta que "a mão invisível que move os fios da economia mundial é a psicologia humana". Apesar de tudo isso, apresentou-se apenas recentemente à maioria do público grego e, aliás, pela boca do próprio primeiro-ministro da Grécia, Geórgios Papandreu, quando o premiê mencionou os pontos de vista de Shiller sobre economia, a fim de explicar a posição hesitante dos mercados internacionais com relação à Grécia. Shiller, professor de Economia na Universiade de Yale, declara-se envaidecido e analisa o papel fundamental que desempenham os "instintos animalescos" na economia e realiza um gigantesco salto histórico. "Daqui a 100 anos - diz - os gregos do século XXII lembrarão a crise atual com gratidão". "Acredito que o governo grego agiu com sabedoria colaborando com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esta decisão atribui maior peso às severas medidas que era necessário de serem tomadas, mas, também, maior garantia de que o governo estará em condição de adotá-las. A função primordial do FMI é se constituir em uma força positiva na evolução para uma iluminada política financeira e econômica", diz Shiller, apoiando absolutamente a decisão do governo grego de submeter-se ao dueto FMI e Banco Central Europeu (BCE). Suas previsões são inesperadamente favoráveis: "A recente greve dos gregos proprietários da caminhões constitui o último indício de que o equilíbrio político permanece frágil na Grécia, mas sou otimista. Creio que a crise econômica sinalizará uma tão positiva guinada para o país de vocês, a ponto de, daqui a 100 anos, lembrarão a crise com gratidão", profetiza. E prossegue: "Aquilo que impulsiona mais do que qualquer outro a economia a uma ou outra direção é a psicologia. Na atual macroeconomia, a razão pela qual jamais tem sido reconhecido o motivo mais profundo das oscilações da economia é porque os economistas frequentemente procuram, somente, por motivos lógicos e fundamentos objetivos", diz Shiller, revelando a influência que recebeu de Keynes. O economista britânico foi o primeiro a sustentar a teoria segundo a qual os instintos conduzem o comportamento dos homens e da economia. Espírito animal Exatamente este ponto de vista resume-se no profético livro escrito a quatro mãos por Shiller e o nobelista professor de Economia da Universidade de Princeton George Akerlof, com o título Espíritos Animal - Como a psicologia humana move a economia e a sua importância para o capitalismo global (Editora Campus) o qual, após a citação do nome do primeiro-ministro da Grécia, desapareceu das livrarias da Grécia. De acordo com o sexagenário professor, alterações como a confiança nos mercados, o sentido do direito com relação a salários e preços, a corrupção, nossa percepção sobre dinheiro e as histórias humanas projetadas pela imprensa, explicam e complementam o vazio que deixam os modelos matemáticos de avaliação da evolução da economia mundial e da previsão das crises. Para Shiller, "as economias capitalistas apresentam instabilidades fundamentais e isto é algo que não devemos jamais desconhecer. Não devemos nos movimentar com zelo excessivo rumo aos mercados livres". Ainda, ele propõe "um Estado que se assemelhará com pai severo, mas justo. O papel do Estado é encontrar e equilíbrio de ouro entre explorar os produtivos instintos animalescos do capitalismo e contê-los quando se tornam excessivamente selvagens". Corrupção "A conscientização da existência de corrupção, assim como a atração que exerce sobre nós, poderão contribuir para a criação da queda. Nossa fraqueza em monitorar as consequências do binômio aumento-redução da inflação provoca confusão e comportamentos inexplicáveis psicologicamente. Nossa sensação pessoal afeta-se por tudo que ouvimos e, estereótipos como "os preços da terra aumentarão sempre" poderão ter consequências imprevisíveis", aponta. Interrompo Shiller e pergunto: Psicologicamente, qual é o maior risco na evolução para a recuperação? "A reação de todos os cidadãos em uma crise, seja tratando-se de megainvestidores ou pequenos e médios, o medo, a insaciabilidade, a falta de sangue-frio e o pessimismo que poderão nos dominar complicam a situação consideravelmente. Tudo isso dificulta a evolução rumo à recuperação." "Particularmente", continua, "a mentalidade de alcatéia constitui um fundamental motivo para a perda da confiança econômica, componente básico de uma economia robusta. O comportamento de alcatéia poderá ser lógico ou parálogo. Avalio que este paralogismo, que origina-se dos sentimentos, permanece igualmente importante com a lógica para a evolução de uma economia". Desde 1972, quando assumiu como titular a cátedra de Economia e Finanças no famoso Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), o desempenho do sexagenário Robert Shiller no estudo da dinâmica dos mercados e da influência do fator humano sobre a economia foi repleta de previsões econômicas e cooperações com as mais famosas universidades, como Yale, na qual hoje é professor titular da cátedra de Economia. Não é por acaso que por causa de sua inovadora contribuição no setor das "finanças do comportamento" e da visão diferente que esta proporciona na forma com a qual funciona a economia, o Deutsche Bank o premiou ano passado. Mas, como ele mesmo reconheceu, a contribuição de sua, há 30 anos, mulher e psicóloga clínica, Virginia Shiller, foi catalisadora para a conformação da teoria dos "instintos animais". Petros Panayotídis Sucursal dos Bálcãs.