Santa Dulce dos Pobres

Por Paulo Alonso.

Opinião / 18:48 - 17 de out de 2019

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Corria os anos 70. Minha avó materna, Maria Felicidade, viúva, mãe de 19 filhos, resolveu voltar a viver em Salvador, capital do estado no qual nascera. E foi morar em um orfanato, na Lapinha, com o seu primo Monsenhor Diderot de Almeida, fundador desse estabelecimento e que recebia crianças recém-nascidas e de até 16 anos de idade.

Maria Felicidade, uma mulher católica fervorosa, que, em sua fazenda, construíra, inclusive, uma capela, passou a dirigir a Vila Vicentina, colaborando nas suas obras sociais e assistenciais e promovendo encontros litúrgicos e cuidando da catequese.

Nos anos em que passou por lá, fomos visitá-la e, em algumas dessas ocasiões, tivemos a honra de encontrar a Irmã Dulce, cândida, generosa, baixinha, magrinha, fala baixa, vestida com seu hábito azul e branco, querendo conhecer as crianças, contribuindo, dando opiniões, acarinhando-as, ensinando-lhes orações, paciente ao extremo e levando sempre suas palavras de fé, amor, otimismo, esperança, caridade e solidariedade.

E foi dessa forma que tive o prazer de, ainda adolescente, conhecer a Irmã Dulce, um exemplo de religiosa verdadeiramente caridosa e atuando em favor dos menos favorecidos, dos pobres, dos necessitados, dos miseráveis.

 

Enfrentou e venceu obstáculos, construiu sua

vida dando possibilidades de vidas para muitos

 

Desde o dia 13 de outubro, essa freira franzina, de olhar meigo, doce, cativante, líder e disposta a enfrentar e a ultrapassar obstáculos, se tornou a Santa Dulce dos Pobres, depois de dois milagres comprovados, por decreto assinado pelo Papa Francisco. Salvador festejou esse momento com grande intensidade, com ruas iluminadas e com a imagem da nova santa, e mais de 10 mil brasileiros foram ao Vaticano saudar, na Praça de São Pedro, a primeira santa brasileira, nascida em Salvador.

Cabe acrescentar que, assistindo a essa solenidade pela televisão, me veio uma emoção muito forte, pois, mesmo que por quatro, cinco vezes apenas, estive com uma irmã que, décadas mais tarde, se tornaria santa, passando a ocupar os altares da igreja católica. Uma benção, certamente. Uma honra ter tido esse raro privilégio de estar com alguém que viria a se tornar santa.

A importância da Irmã Dulce era tanta e tão valorizada que o então presidente da República, José Sarney, disponibilizou o seu telefone secreto para, em caso de necessidade, ela o procurasse a qualquer hora do dia ou da noite. Ele esteve lá, na comitiva brasileira, para assistir à canonização da Irmã Dulce, juntamente com o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, dos presidentes do STF, do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, e do prefeito de Salvador, Antonio Carlos Magalhães Neto.

Filha do professor e dentista Augusto Lopes Pontes e de Dulce Maria, Maria Rita nasceu, no bairro do Barbalho, em 26 de maio de 1914. A menina foi uma criança cheia de alegria, adorava brincar de boneca, empinava arraia e tinha predileção pelo futebol. Torcia pelo Esporte Clube Ypiranga, um time formado por trabalhadores e excluídos sociais. Sete anos mais tarde, Maria Rita fica órfã de mãe, que faleceu aos 26 anos.

A vocação de Maria Rita para trabalhar pela população carente teve a influência direta da família. Aos 13 anos, graças à sua coragem e senso de justiça, traços marcantes revelados quando ainda era muito novinha, Maria Rita passou a acolher mendigos e doentes em sua casa, transformando a residência da família, no bairro de Nazaré, num centro de atendimento.

A casa ficou conhecida como A Portaria de São Francisco. Pessoas se aglomeravam em sua porta. Também é nessa época que ela manifesta pela primeira vez, após visitar com uma tia áreas onde habitavam pessoas pobres, o desejo de se dedicar à vida religiosa.

Em 8 de fevereiro de 1933, logo após se formar como professora, Maria Rita entra para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em São Cristóvão, Sergipe. Em 13 de agosto de 1933, recebe o hábito de freira das Irmãs Missionárias e adota, em homenagem a sua mãe, o nome de Irmã Dulce. Uma bela homenagem.

A primeira missão de Irmã Dulce foi ensinar em um colégio mantido pela sua congregação, na Cidade Baixa, em Salvador. Mas o seu pensamento estava voltado para o trabalho com os pobres. Já em 1935, dava assistência à comunidade paupérrima de Alagados, formada por um conjunto de palafitas, do bairro de Itapagipe.

Nessa mesma época, começa a atender também os operários, criando um posto médico e fundando, em 1936, a União Operária São Francisco, a primeira organização operária católica do estado, que depois deu origem ao Círculo Operário da Bahia.

Em 1937, funda, juntamente com Frei Hildebrando Kruthaup, o Círculo Operário da Bahia, mantido com a arrecadação de três cinemas que ambos haviam construído através de doações: o Cine Roma – hoje transformado no Santuário Santa Dulce dos Pobres – o Cine Plataforma e o Cine São Caetano. Em maio de 1939, Irmã Dulce inaugura o Colégio Santo Antônio, uma escola pública voltada para operários e filhos de operários, em Massaranduba, bairro periférico de Salvador.

Em 1939, Irmã Dulce invade cinco casas na Ilha dos Ratos para abrigar doentes que recolhia nas ruas de Salvador. Expulsa do lugar, peregrina durante dez anos, levando os seus doentes por vários locais da cidade. Em 1949, Irmã Dulce ocupa um galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio, com os primeiros 70 doentes. A iniciativa deu origem à tradição propagada há décadas pelo povo baiano de que a freira construiu o maior hospital da Bahia a partir de um simples galinheiro. Já em 1959, é instalada a Associação Obras Sociais Irmã Dulce e, no ano seguinte, inaugura o Albergue Santo Antônio.

O incentivo para construir a sua obra, Irmã Dulce teve do povo baiano, de brasileiros de diversos estados e de personalidades internacionais. Em 1988, ela foi indicada pelo então presidente da República, José Sarney, com o apoio da Rainha Sílvia, da Suécia, para o Prêmio Nobel da Paz. Oito anos antes, no dia 7 de julho de 1980, Irmã Dulce ouvia do Papa João Paulo II, em sua primeira visita ao Brasil, o incentivo para prosseguir com a sua obra.

Irmã Dulce e o Papa João Paulo II voltariam a se encontrar em 20 de outubro de 1991, na segunda visita do Sumo Pontífice ao país. João Paulo II foi ao Convento Santo Antônio visitar a religiosa, cuja saúde se encontrava bastante debilitada em função de problemas respiratórios. Cinco meses depois da visita do Papa, os baianos e os brasileiros chorariam a morte daquela que ficou conhecida como o Anjo Bom do Brasil.

Irmã Dulce morreu em 13 de março de 1992, pouco tempo antes de completar 78 anos. No velório, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, em Salvador, políticos, empresários, artistas se misturavam à dor de milhares de pessoas simples e anônimas. Eu estava lá também, naquela magnífica igreja à beira da Baía de Todos os Santos, chorando por sua morte.

A fragilidade com que viveu os últimos 30 anos da sua vida – tinha 70% da capacidade respiratória comprometida – não impediu que Irmã Dulce construísse e mantivesse uma das mais respeitadas instituições filantrópicas do país, traduzindo, assim, uma verdadeira obra de amor aos pobres, aos desvalidos e aos doentes.

Incansável, a Irmã Dulce perambulou pelas ruas, becos, largos, vilas e avenidas, pediu doações, esmolas; pediu dinheiro aos empresários; auxílio aos políticos, para dar continuidade à sua obra. O Santo Antônio evoluiu e é hoje um patrimônio do povo, com mil leitos, 100% do SUS. O hospital que antes atendia indigentes hoje atende cidadãos.

Essa foi a Irmã Dulce. Uma guerreira, vibrante, entusiasmada e destemida. Ousada. Corajosa, que enfrentou e venceu obstáculos e que construiu sua vida dando possibilidades de vidas para muitos. E, por todos os seus méritos e pelos milagres comprovados, tornou-se a primeira santa do Brasil: a Santa Dulce dos Pobres.

Amém. E que Deus seja louvado.

Paulo Alonso

Jornalista e chanceler da Universidade Santa Úrsula.

 

Oração à Santa Dulce dos Pobres

Senhor nosso Deus,

lembrados de vossa filha,

a Santa Dulce dos Pobres,

cujo coração ardia de amor por vós e pelos irmãos,

particularmente os pobres e excluídos,

nós vos pedimos:

dai-nos idêntico amor pelos necessitados;

renovai nossa fé e nossa esperança

e concedei-nos, a exemplo dessa vossa filha,

viver como irmãos,

buscando diariamente a santidade,

para sermos autênticos discípulos missionários

de vosso filho Jesus.

Amém.

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