Salvando a humanidade da falência: guerra total e política ambiental

Por Felipe Quintas, Gustavo Galvão e Pedro Augusto Pinho.

Opinião / 19:19 - 11 de fev de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Depois de décadas de tentativas de um acordo global contra mudanças climáticas, ainda não há consenso sobre a existência do aquecimento global ou pelo menos em relação a suas causas, ainda que os chamados “céticos” sejam apontados como lunáticos por muitos.

Por outro lado, há praticamente consenso que, de tempos em tempos, acontece uma crise econômica global. Também há maior concordância de que existe uma disputa geopolítica acirrada entre Estados Unidos da América (EUA), com apoio, nem sempre discreto, da Europa e do Japão, contra China, Rússia e Irã.

Muitos especialistas temem que essa disputa possa levar a uma guerra econômica global, que provavelmente já começou, até a uma nova Guerra Fria e o risco da guerra nuclear. O espectro dessas guerras gera incerteza política e econômica e aumenta as expectativas de nova grande crise econômica global, o que certamente retrai os investimentos favorecendo efetivamente a possibilidade real de uma grande crise.

 

Combate ao aquecimento global pode

estabelecer nova era de cooperação

 

Pedimos ao leitor atenção sobre um ponto: não temos posição plenamente formada sobre as teorias do aquecimento global e não iremos nos posicionar sobre essa questão. O objetivo do artigo não é discutir o aquecimento global, mas como as políticas de combate ao aquecimento global podem ser úteis para estabelecer nova era de cooperação global, evitar uma grande crise econômica e afastar os riscos de nova Grande Guerra Mundial que pode realmente ameaçar o futuro da humanidade.

Essa tese não é nova. O professor José Carlos de Assis publicou um livro sobre o assunto em 2008, antes da crise global. Infelizmente, o mundo ainda não estava preparado para as necessidades que ele apontava naquele momento. Mas essa oportunidade hoje é ainda mais relevante.

Enfim, se o leitor acredita na teoria do aquecimento global, ou se é cético em relação a ela, não faz grande diferença em relação à importância e utilidade das políticas aqui apontadas, porque mesmo se a teoria do aquecimento global não estiver correta, ao menos serão muito úteis para favorecer a cooperação internacional, evitar o acirramento geopolítico, oferecer um caminho para o mundo voltar a crescer, evitar uma grande depressão e ajudar ao desenvolvimento dos países mais pobres.

Claro, se for resultado de uma cooperação interestatal séria, honesta, sincera e atuante. Com busca de um ponto de consenso e não sua imposição.

A imprensa ocidental coloca as teorias do aquecimento global e a necessidade de redução das emissões como verdade inquestionável. Vendem um consenso muito estranho, pois por um lado todos concordariam em salvar a humanidade do seu “fim meteorológico”, por outro os países se juntam frequentemente para definir um acordo para evitar seu “próprio fim”, mas nunca entram em acordo sobre um tema “tão importante e tão inquestionável”. Essa realidade, escondida evidentemente, mostra que as teorias e as posições em relação ao aquecimento global nunca foram consensuais.

A análise séria deve começar por esse ponto: a falta de consenso. Em relação à falta de consenso, o essencial não são as teorias científicas ou supostamente “conspiratórias”, que existem no debate público ou privado sobre o ambiente. O que realmente importa são os interesses. Os interesses reais, de curto e médio prazo, dos países, empresas, povos e outros grupos são mais importantes do que as razões alegadas nos debates.

Esses grupos não estão realmente muito preocupados com as teorias ou as futuras gerações, eles estão preocupados em saber o que ganham ou o que perdem. Portanto, vamos nos ater, neste artigo, apenas em como compatibilizar esses interesses, mas sem confrontar as teorias principais sobre o assunto, porque esse é um problema de geofísica e geobiologia e não de política.

 

Como distribuir melhor os custos e ganhos

 

Se não há grandes divergências sobre os riscos de crise econômica e de conflito global, permanecem os questionamentos sobre a questão climática do Planeta. Como já dissemos, não podemos ter certeza se estas teorias sobre o aquecimento global sejam parcialmente ou inteiramente verdadeiras, mas isso pouco importa frente aos interesses envolvidos.

As dúvidas científicas e a falta de consenso não podem deixar as nações paralisadas, porque, ainda que não existam garantias de que as teorias estejam certas, há riscos associados às mudanças climáticas tão graves que valeria a pena pagar os custos já calculados para evitar tais riscos.

Se as decisões políticas fossem tomadas apenas em caso de consenso ou certeza, elas não existiriam. A incerteza sempre permeia as decisões políticas. Depender da certeza para tomar decisões, implicaria uma paralisia política total.

Todavia, a menos que fosse imposto, o consenso será sempre impossível enquanto os custos e ganhos das políticas sugeridas para combate ao aquecimento global continuem desigualmente distribuídos. E isso é o principal empecilho para um acordo climático internacional, e não a falta de consenso em relação à teoria do aquecimento global.

 

Cabe, então, a pergunta: alguém

realmente quer fazer um acordo climático?

 

Certamente não há consenso em relação à desigualdade da distribuição de custos nos acordos de mudança climática. Os países ricos afirmam que eles pagarão pelos maiores custos porque têm as metas mais ambiciosas de redução.

Os países pobres, mesmo aqueles que não possuem metas, alegam que eles não podem ser impedidos de aumentar o consumo de energia e, portanto, de combustíveis fósseis, porque as emissões per capita e, principalmente, o estoque de emissões per capita desses países acumulados nas últimas décadas é uma pequena fração desse mesmo indicador para os mais ricos.

 

Humanos e subumanos no racismo climático

 

Evidentemente, o mais justo seria que as metas de emissões acumuladas per capita dos países ricos sejam igual à dos países pobres. Se essa meta igualitária não for aceita pelos países ricos, ainda que a longo prazo, estaríamos aceitando que existiriam humanos e países de primeira classe, que têm direitos a privilégios energéticos em relação a outros, que deveriam ser obrigados e terem menor qualidade de vida.

Isso seria a oficialização, a legalização de uma espécie de racismo climático. Nada muito diferente do velho colonialismo.

É certo de que não haverá consenso internacional se houver dúvidas de que esteja sendo implantado um racismo climático oficial. Uma das saídas para gerar consenso internacional, mesmo mantendo algum tipo de racismo climático, seria “comprar” a concordância das representações políticas dos países mais pobres com algum tipo de compensação financeira. Mas parece que nem isso interessa aos países ricos.

Cabe, então, a pergunta: alguém realmente quer fazer um acordo climático? As reais possibilidades de racismo climático, medido pela meta de emissões per capita, não são as únicas divergências em relação ao acordo climático global.

Há divergências muito conhecidas em relação aos impactos diferenciados das possíveis mudanças climáticas. Países muito frios tendem a ganhar mais com essas mudanças, países com baixa altitude média, como pequenas ilhas, tendem a perder mais. Em tese, países que hoje já são muito quentes ou secos tenderiam a perder mais.

Menos divulgados pela mídia, porém muito mais graves, são os impactos causados pelas diferentes estruturas econômicas e energéticas dos países. Países exportadores de petróleo e países que usam grande proporção de carvão para produção de energia elétrica tendem a ser mais prejudicados.

Empresas de petróleo, carvão e de automóveis tendem a ser mais prejudicadas. Outras empresas, especialmente de engenharia, tecnologia e energia renovável, tendem a ganhar muito com as políticas de combate às mudanças climáticas e pelas próprias mudanças climáticas.

É evidente que com tanta gente importante perdendo com as atuais sugestões de políticas de mudanças climáticas dificilmente haverá um consenso sobre elas, além de nunca ocorrerem, realmente, a menos que sejam impostas. Mas o Ocidente ainda pode impor suas vontades ao resto do mundo na marra? Parece que não mais.

Então porque mídia e diplomacia ocidental continuam tentando insistir histericamente em uma saída impossível? Não dá para saber. Mas essa postura autoritária só ajuda as chamadas “teorias conspiratórias” sobre o assunto.

As tentativas fracassadas e histéricas de se realizarem acordos climáticos no grito acabam levando muitos a entender que elas sejam apenas um pretexto para (1) inventar um novo protecionismo contra os países em desenvolvimento, (2) criar novos mercados de exportação para suas empresas de tecnologia, engenharia e finanças ou, até mesmo, (3) uma forma de vetar a expansão do consumo acelerado de energia por parte dos países emergentes.

É preferível manter a crença na boa fé dos cientistas envolvidos e na Organização das Nações Unidas (ONU), que patrocina, oficialmente, as políticas de combate às mudanças climáticas. Mas realmente não há como não desconfiar de intenções escusas enquanto não sejam oferecidas soluções com custos e ganhos que sejam considerados justos pela maioria ou pelos principais países participantes.

 

Justiça e equilíbrio X depressão e guerra

 

Mesmo os itens já consensuais e já comprometidos pelos países nos acordos globais assinados não levaram a uma solução de impacto contra o crescimento das emissões. As soluções que poderiam ter maior impacto não eram soluções realmente de consenso.

Para que soluções de maior impacto nas emissões possam atingir maior consenso, além de melhor distribuir ganhos e perdas econômicas, seria muito útil ampliar os objetivos para além do combate às mudanças climáticas.

Se forem ampliados os objetivos dos acordos climáticos, haveria maior interesse e menos oposições a um grande acordo global que realmente tenha impacto efetivo no controle das emissões.

Uma radical mudança na forma como produzimos e consumimos energia implicaria grande aumento dos investimentos em todo mundo, o que poderia ser um afastamento do risco de crise econômica global, causado pelo excesso de capacidade industrial, e a pouca disposição dos governos investirem em infraestrutura pública e gastos sociais. Aliás, as mesmas razões que levaram o mundo à grande depressão de 1930 e à II Guerra Mundial.

Mesmo se fosse possível encontrar uma saída para as mudanças climáticas que não exigisse grandes investimentos, ela poderia não produzir um consenso no mundo se não contribuir para evitar a grande depressão e a guerra mundial, especialmente porque as soluções que estão à mesa hoje não contribuem em nada na diminuição da grave tensão que já existe entre Oriente e Ocidente, exportadores e importadores de petróleo, consumidores e não consumidores de carvão mineral.

 

Guerra fria x Acordo climático

 

Ainda que, no futuro, se descubra que não era necessário combater o aquecimento global, a solução que apresentaremos para viabilizar o acordo climático global também ajuda a resolver dois problemas mais imediatos e, provavelmente, mais graves: o crescente risco de escalada nuclear da guerra fria intercontinental e o colapso da economia mundial, que pode ser causa e consequência dessa guerra fria.

Essa guerra fria contemporânea tem acontecido de forma até mais intensa do que a primeira, que aconteceu entre 1946 e 1991. Dessa vez, ela está sendo travada no âmbito econômico, tecnológico, militar, espacial, científico, energético, alimentar, comunicacional, ideológico e financeiro e já está em escalada com consequências imprevisíveis.

No aspecto militar, a violência está acontecendo em países do chamado Terceiro Mundo, na forma de guerras por procuração e guerras híbridas, inclusive aqui na América do Sul.

Essa situação de guerra de amplo espectro, com importantes implicações econômicas, combinada com o esgotamento do fraco ciclo de recuperação da crise de 2008 e crescente deterioração financeira global poderá levar a outra consequência potencialmente catastrófica: uma crise financeira global sem saída.

A última vez que isso aconteceu foi nos anos ‘30, e as tentativas unilaterais para saída da crise levaram à Segunda Guerra Mundial. Todas as crises posteriores, particularmente a de 2008, só se solucionaram porque o mundo pode contar com uma liderança que conduziria ao consenso diplomático, suficiente para a solução da crise, os EUA apoiados diretamente pela Europa. Isso seria possível hoje como foi em 2008?

Vamos, na sequência, para possível solução. Lembrando que o foco explícito de atuação é o combate ao aquecimento global. Mas se ele não existir, ao menos contribuirá muito no combate aos outros dois problemas.

Felipe Maruf Quintas

Doutorando na Universidade Federal Fluminense.

Gustavo Galvão

Doutor em Economia.

Pedro Augusto Pinho

Administrador aposentado.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor