Sai, Capeta!

Seu Direito / 13 Junho 2017

Se um Tribunal diz que o diabo existe, então existe. Se ninguém recorrer contra essa decisão o acórdão fará coisa julgada e o capeta passará a existir juridicamente no mundo do processo. Pois foi o que fez a IX Seção Civil do Tribunal Civil de Milão ao julgar um caso de separação. Os juízes julgaram procedente o pedido de separação feito pelo marido, mas concluíram que embora o matrimônio devesse ser desfeito pelo inexplicável comportamento da mulher, nem ela nem ele tinham culpa na falência do casamento porque a mulher estava possuída pelo demônio, sofrendo de males “inexplicáveis tanto para médicos como para exorcistas”.

Embora os médicos tivessem atestado que a mulher era incapaz de agir responsavelmente, não encontraram nela nenhuma anomalia psíquica que justificasse o comportamento obsessivo-compulsivo que teria se manifestado em 2007. As testemunhas ― paroquianos, padres, médicos, paranormais ― comprovaram a existência do fenômeno ainda inexplicável. Um padre capuchinho disse que a senhora repentinamente caíra no chão da igreja completamente enrijecida e sob intensa crise convulsiva que exigira a intervenção de terceiros para contê-la porque se agitava e rolava pela sacristia. Embora fosse franzina, magrelinha, levantava com uma só mão os bancos pesados da igreja e os arremessava contra o altar. Parecia que flutuava e depois caía em piruetas a grande distância.

Aos juízes, a mulher disse não gostar de falar sobre esse assunto nem mesmo com um monsenhor exorcista da diocese de Milão. Outro experiente padre exorcista se disse impressionado com o fenômeno poltergeist que jamais vira em anos de sacerdócio e de exorcismo.

Os juízes concluíram que todas as alegações do marido tinham sido comprovadas. Psicólogos submeteram a mulher a diversos testes clínicos e concluíram que ela não sofria de nenhuma patologia psiquiátrica conhecida, mas lhes faltava conhecimento para explicar o fenômeno.

Por fim, os juízes decidiram que os tormentos indescritíveis e inexplicáveis da mulher eram a causa e não a consequência de sua desesperada espiritualização. A separação foi deferida sem custos para qualquer das partes. O marido foi autorizado a voltar para casa e a mulher deverá se submeterá a tratamento médico. Se pensam que estou pilheriando e que isso nunca aconteceu, cliquem neste link: http://milano.corriere.it/notizie/cronaca/17_aprile_07/matrimonio-finito-6f1dae1e-1af8-11e7-953e-ab8f663f73c7.shtml

Há algum tempo a Justiça do Trabalho do Rio julgou um caso interessante envolvendo essas coisas do além. Um sujeito bateu por lá pedindo o reconhecimento de vínculo de emprego como “cainte”. Sua função, segundo está nos autos, era simular uma possessão demoníaca e rolar pelo chão para que o pastor exorcizasse o demônio do seu corpo e com isso enchesse mais rapidamente a sacolinha do dízimo. O juiz, claro, indeferiu o pedido do tal “trabalhador” e o pobre foi “cair” noutra freguesia. Há outras situações inusitadas no mundo do direito. O anedotário do foro registra o caso de um sujeito que pediu adicional de insalubridade porque se disse infectado “por um vírus de computador”. Noutro caso, ocorrido em Avaré (SP), um trabalhador rural arava o campo do patrão com uma égua puxando o arado. Lá um dia a égua emprenhou e quando a gravidez do animal tornou impossível a continuidade do trabalho o patrão dispensou o empregado. O puxador da égua veio a juízo reclamar estabilidade no emprego pela gravidez da égua porque, ao que disse, a Constituição protegesse o trabalhador desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto.

Os tempos andam bicudos, amigos meus. Não está fácil pra ninguém!

 

Mônica Gusmão