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Rumores de guerra

Por Eduardo Marinho.

Opinião / 22 Março 2019 - 19:51

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Falam em “ajuda humanitária”. Eu vi o que essa “ajuda” fez na Líbia, até hoje em caos, destruída em todos os setores. Na Síria, a mesma coisa, com a diferença que ali os “humanitários” se deram mal, mesmo matando tantos milhares de pessoas, mesmo destruindo o país, obrigando milhões e milhões a migrarem, por falta de condições pra sobreviver. Mas perderam e tiveram que se retirar.

O plano era ir por Pacaraima, no Brasil, ao mesmo tempo que pela Colômbia. O presidente do Brasil e o antecessor, fruto do golpe institucional, exibem a sua vassalagem ao império corporativo dos Estados Unidos da América, o atual mais ostensivo e fanfarrão que o golpista.

Frente a câmeras e microfones, o cara declara disposição de invadir a Venezuela, de abrir uma base dos Estados Unidos em território nacional – e os próprios militares deram um freio nele. Mourão, o general vice-presidente, foi contra ceder território e soldados nacionais pra fazerem o serviço de levar a tal “ajuda” à fronteira com a Venezuela.

 

Militares venezuelanos nasceram

da revolta militar após massacre de 3 mil

 

Tiveram que tentar pela Colômbia, um vassalo já antigo e muito mais infiltrado. Só de bases militares, até onde eu sei, tem 13 – faz tempo, é possível que tenham mais e de todo o tipo, não só militares. Mas se deram mal na tentativa de romper a fronteira com a tal “ajuda humanitária”.

Ouvi dizer que Mourão, o general, foi adido militar na embaixada brasileira da Venezuela. Deve conhecer os venezuelanos muito mais que a miopia bajulatória do mandatário brasileiro. Há contatos militares entre as Forças Armadas de países vizinhos, há entre venezuelanos e brasileiros.

Além do mais, eles não estão de bobeira. Sabem de sobra e na própria carne do que são capazes os interesses desumanos no petróleo abundante deles, convivem com sabotagens, armações, atentados, difamação em massa na mídia mundial privada e dominante, criando condições pra guerra de destruição e saque, como temos visto em outras partes do mundo. Sabem dos vizinhos que têm, Colômbia e Brasil.

Têm visto e ouvido o presidente brasileiro declarar total apoio a Trump – que prega abertamente a invasão militar na Venezuela – praticamente se colocando às ordens. O plano é mais antigo, já houve treinamentos na tríplice fronteira onde o único estrangeiro era o exército estadunidense, perto do sul do país “alvo”. E, como eu disse, Venezuela não está de bobeira.

As fronteiras foram fechadas pelo governo venezuelano, a energia enviada pra Roraima foi cortada, tropas e tanques foram posicionados na região fronteiriça. Mísseis russos que já derrubaram um monte de aviões da marinha estadunidense na Síria, foram colocados a 11km de Pacaraima.

Nas palavras de Paulo José Jarava, “os radares do sistema são poderosíssimos e criam, na prática, uma área de exclusão aérea com raio de 300km, atingindo os aeroportos de Boa Vista e Manaus (Manaus sedia a Ala 8 da base aérea da FAB em Manaus, onde estão os doze MI-35, também russos, os únicos helicópteros de ataque das Forças Armadas, além de super-tucanos de ataque). Significa que já paralisaram as forças da FAB e do Exército Brasileiro, incluindo o famoso batalhão de selva de Manaus, que poderia ser transportado por helicópteros da Helibrás recém incorporados). Na prática, também quase todo o tráfego aéreo que sobrevoa Manaus e Boa Vista passa a ser controlado...” (contextolivre.com.br/2019/02/a-supremacia-venezuelana.html)

A tentativa da “ajuda humanitária” não deu certo. Apesar dos soldados feridos por molotovs, do caminhão incendiado sobre a ponte da fronteira Colômbia-Venezuela, uma vitória, embora por enquanto. Os interesses nas riquezas petrolíferas não sossegam enquanto não se saciam, custe o que custar.

Rumores de guerra continuam, procurando uma brecha, um pretexto, manobrando nos bastidores dos “poderes”, insuflando ódio e desinformação pela mídia mega-empresarial, distorcendo a realidade e criando mentalidades e conduzindo a “opinião pública”. Mas encontram, na Venezuela, um povo muito mais instruído e informado do que há 20 anos atrás, época em que um levante popular foi dizimado pelos militares de então, a serviço dos colonizadores euro-estadunidenses.

Os militares venezuelanos de hoje nasceram da dissidência, da revolta militar acontecida logo depois do assassinato em massa do povo venezuelano – contaram 3 mil mortos, em Caracas, fora os “desaparecidos”, revolta essa liderada por um jovem oficial chamado Hugo Chávez.

O massacre ficou conhecido como “Caracazo” (“não foi pra isso que nos tornamos militares, mas pra defender a pátria e o povo venezuelano”, diria Chávez aos companheiros revoltosos), em favor dos interesses econômicos estrangeiros que tomaram os “poderes públicos” (como é de rotina na América Latina) e tornaram miserável a nação.

A revolta perdeu, mas a semente brotou tempos depois. As Forças Armadas da Venezuela não têm a formação antissocial – de fundo empresarista – da Escola das Américas, no Panamá apesar de estadunidense, que impregna a mentalidade militar latino-americana de acordo com os interesse do Império Corporativo dos Estados Unidos da América, na mentalidade e na prática do saque permanente das riquezas, nas políticas públicas de sabotagem da educação e controle das comunicações.

É por isso que o presidente de lá se refere à união cívico-militar como pilar da resistência ao assédio das forças imperialistas, da mídia mundial, dos boicotes econômicos, da pressão desmedida para desestabilizar a economia, causar sofrimentos e carências à população e levar à queda esse governo que não entrega de bandeja suas riquezas em troca de miséria, ignorância, dignidade e soberania.

Não falo em Nicolás Maduro porque esse é o jogo da mídia, a estratégia de personalizar numa figura o país. Assim fica mais fácil criar ódio. Cá pra nós, nunca achei que Maduro tivesse vocação pra ocupar a presidência, ainda mais com a Venezuela sendo foco das atenções parasitas dos gigantes do petróleo. Suas colocações, suas posições, sua fala, careciam do carisma, da alma de um Hugo Chávez. Achei mesmo que ele seria deposto, questão de tempo.

Mas a Venezuela não é Nicolás Maduro. Por trás dele existe todo o aparato público tornado pela primeira vez em nacionalista e interessado no desenvolvimento do povo e da nação. Desde os comandos militares até as chamadas milícias populares (mais de dois milhões de pessoas treinadas e armadas, que têm outras ocupações na vida, mas que estão prontas a se levantar em defesa da sua nação). Os brasileiros seriam buchas pra derramarem seu sangue em nome de interesses corporativos, através da subalternidade às políticas imperiais do governo estadunidense.

Com um detalhe... os venezuelanos estão defendendo o seu país, seu território, de invasores estrangeiros, de forças que pretendem desfazer todo o serviço público que foi criado nestes anos bolivarianos – o fim do analfabetismo, o atendimento médico sem restrições, a inclusão das periferias no mapa da cidadania, a conscientização da massa da população, coisas que devem interessar a qualquer nação que se pretenda independente, desenvolvida e soberana sobre si mesma.

É exatamente isso que enfurece os exploradores, a ignorância, o analfabetismo, a carência, a desinformação, a condução mental, a miséria e o abandono são fundamentais ao alicerce da exploração, do saque e da dominação das corporações (banqueiras e mega empresariais, no caso, das grandes petroleiras mundiais), com todo o apoio da mídia, da indústria de armamentos, das construtoras que ganham muito “reconstruindo” os países destruídos e outros interesses igualmente desumanos.

No Brasil, por muito menos, derrubaram os governos ditos “populares”, embora nem chegassem a tanto. As forças são estrangeiras e contam com parte da elite brasileira, entreguista e antinacional, traidora da nação e das populações no território.

Aqui não precisou mais do que campanhas publicitárias, difamações e distorções. Foi até fácil. Em 1964, pelos mesmos motivos se mobilizou a Quarta Frota pra atacar nosso país, quem quiser ver, veja em O dia que durou 21 anos, baseado nos documentos secretos que, nos USA, são publicados depois de 40 anos, por lei.

Em 2004 saíram os documentos de 64, revelando toda a articulação, preparação, execução e aprofundamento do golpe dito “militar”, pra manter a dominação plena dos interesses corporativos multinacionais. Destruíram a educação pública, destroçaram as associações populares, sindicatos, tudo o que resistia ao domínio estrangeiro, esclareciam, conscientizavam, denunciavam e reivindicavam.

Os motivos de 64 foram os mesmos de 2016. O que mudou foram as instituições envolvidas no golpe, antes os militares, depois as instituições ditas “públicas”. As mentiras midiáticas golpeiam permanentemente o consciente e o inconsciente coletivo, distorcendo, deturpando, mentindo, difamando por interesses antissociais, desumanos, que já se exerceram de sobra em todo o mundo e ainda se exercem. Perceba-se.

 

 

Eduardo Marinho

Artista de rua e escritor, mantém o site observareabsorver.info

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