Rosselkhoznadzor não quer boi bombado

Empresa-Cidadã / 21 Março 2017

Sobre o “caso da carne”, muito já se disse. Independentemente do interesse de outros países em uma retração no mercado de carne ocupado por empresas brasileiras, no “exagero” da retumbância das denúncias, nada apagará a questão essencial, que é o descaso com a saúde do cidadão. E a questão não é nova.

Na última semana de setembro de 2013, o Ministério da Agricultura confirmou que o Serviço Federal de Fiscalização Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor) suspendeu, por tempo indeterminado, a partir de 2 de outubro daquele ano, a venda de carnes suína e bovina do Brasil para a união aduaneira, formada pela Rússia, Cazaquistão e Belarus.

As restrições foram impostas a dez frigoríficos, sendo um de carne suína e nove de carne bovina. A relação é constituída pelas empresas Pamplona (Riosulense), Marfrig, dois frigoríficos da Minerva e seis frigoríficos do Grupo JBS-Friboi.

Este último é um gigante do setor, que se apresenta como “a maior empresa em processamento de proteína animal do mundo, atuando nas áreas de alimentos, couro, biodiesel, colágeno e latas (...) presente em todos os continentes, com plataformas de produção e escritórios no Brasil, Argentina, Itália, Austrália, EUA, Uruguai, Paraguai, México, China, Rússia, entre outros países (...) com acesso a 100% dos mercados consumidores. (...) Possui 140 unidades de produção no mundo e mais de 120 mil colaboradores focados no sucesso da companhia, sustentado pelo espírito empreendedor e pelo pioneirismo” (como consta na sua página).

Além da Friboi, o Grupo JBS é detentor de outras marcas conhecidas, como Swift, Anglo, Apeti, Bertin, Tama, Bordon, Target, Hereford, Vigor, Leco, Faixa Azul, Serrabella, Amélia e Carmelita.

O Ministério da Agricultura informou que o Rosselkhoznadzor enviou um relatório de inspeção feito por uma comissão de veterinários russos que esteve no Brasil, entre 30 de junho e 14 de julho de 2013, junto a 18 empresas brasileiras. A fiscalização constatou a presença de substância proibida, usada para estimular o crescimento muscular dos animais. Lá, boi bombado não pode.

Embora o Ministério não tenha divulgado, de imediato, detalhes do relatório, alegando a necessidade de tradução, a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) já admitiu a possibilidade de frigoríficos brasileiros fazerem uso da substância ractopamina na alimentação de rebanhos, apesar de proibida. Com isto, os animais ganhariam massa muscular e cresceriam com menor quantidade de gordura. A ractopamina pode afetar os sistemas cardiovascular, reprodutivo e endócrino.

Em sua página na Internet (www.jbs.com.br), a JBS divulga o manual “Boas Práticas Agropecuárias Bovinos de Corte” editado pela Embrapa Gado de Corte e pela Câmara Setorial da Bovinocultura e Bubalinocultura de Mato Grosso do Sul, onde se lê, no capítulo denominado “Diretrizes relacionadas com a suplementação alimentar”, na página 39, que é “proibido o uso de hormônios ou promotores de crescimento de efeito anabólico”.

No Brasil, o Grupo JBS tornou-se muito conhecido pela campanha publicitária, insistentemente veiculada no horário nobre da TV, em que o ator Toni Ramos faz uma pergunta, sobre a carne que o consumidor adquire: “É Friboi ?”. Complementa com a frase “a carne em que sua família pode confiar”.

O raio caiu duas vezes no mesmo lugar...

Paulo Márcio de Mello é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br