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Romana Blasotti Pavesi, non puó finire

Pesquisa não volta de onde parou; tem que botar a bola no meio campo e começar tudo de novo.

Empresa-Cidadã / 14 Maio 2019 - 20:17

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Sem conhecimento evidente sobre o que representa a atividade de pesquisa, o ministro A. Weintraub tenta argumentar jogando com as palavras: não é corte. É contingenciamento. A interrupção do processo de pesquisa que, em suas etapas, inclui, entre outras, a formação de quadros, a observação cuidadosa e registro sistemático de um objeto investigado, o teste de hipóteses, para se chegar à tese, entre outras, se for interrompido, não recomeça de onde parou, mas tem que botar a bola no meio de campo e começar tudo de novo.

Na palavra do Senhor A. Weintraub, “se conseguir passar a Previdência e voltar a arrecadação, volta o orçamento.” Isso não é corte, nem contingenciamento. É chantagem.

 

Ameaçada a busca da cura da Doença de Parkinson

A participação das instituições federais de ensino pesquisa e extensão não se restringe às capitais dos estados. No Rio de Janeiro, por exemplo, o corte de verbas de pesquisa pelo Senhor A. Weintraub ameaça inviabilizar a calibração de equipamentos indispensáveis, como é o caso de um microscópio especial, empregado em pesquisas que buscam a cura da Doença de Parkinson, localizado no Município de Macaé.

O Programa Multicêntrico de Pós-graduação em Ciências Fisiológicas do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade da UFRJ ressalta que, no caso da Doença de Parkinson, toda a medicação adotada até hoje, age sobre sintomas e não sobre causas, objetivo maior do trabalho que este Programa desenvolve. Já no Instituto Federal Fluminense (IFF-Macaé), estão ameaçadas as pesquisas de geração de energia fotovoltaica, energia renovável e ambientalmente limpa.

 

Nova Friburgo, 201 anos

Em Nova Friburgo, Região Serrana do estado do RJ, a UFF, universidade federal com o maior contingente de alunos, presta à população atendimento odontológico, fonoaudiológico e biomedicinal, gratuito e de alta qualidade, tendo beneficiado mais de mil cidadãos e cidadãs. Por isto, estudantes da UFF, do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) e do Centro de Educação Superior à Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cederj), protestaram nas ruas da cidade contra os cortes.

 

Em Campos dos Goytacazes

Em Campos dos Goytacazes, Norte do estado, a UFF, além de manter um curso pré-vestibular comunitário, realiza pesquisas junto aos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil, em áreas sujeitas a inundações, prevenindo catástrofes. Além das universidades públicas estaduais do RJ (Uerj, Uenf e Uezo), as universidades públicas federais do estado ocupam papel qualificado e generoso, que o mercado negligencia, em muitos outros municípios do interior, com diversos projetos.

 

Movimento de pinça

A tentativa de asfixia das universidades públicas federais é feita através de um movimento de pinça. Por um lado, o Sr. A. Weintraub corta o orçamento de custeio (ou como ele prefere, contingencia). Por outro lado, cortam as bolsas, forma de financiar o trabalho dos pesquisadores.

 

Os cortes de verbas de custeio

Foram cortados (“contingenciados”) no MEC 23% de todas as verbas discricionárias (são excluídos os salários) de custeio das universidades federais, totalizando R$ 7,3 bilhões. Dos R$ 122,97 bilhões do orçamento do MEC para 2019, foram cortados (“contingenciados”) mais R$ 680 milhões da educação básica (do infantil ao ensino médio); mais R$ 125 milhões da construção e manutenção de creches e pré-escolas; mais R$ 144 milhões para a aquisição de livros didáticos; mais R$ 23 milhões para o transporte escolar; mais R$ 14milhões para a alfabetização de jovens e adultos; e mais R$ 99,9 milhões para o ensino profissionalizante.

 

O golpe final, as bolsas dos pesquisadores

O movimento de asfixia completa-se com o corte (“contingenciamento”) de bolsas, administradas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Foram cortados (“contingenciados”) R$ 819 milhões, sendo R$ 588 milhões em bolsas de pesquisa (3.474 benefícios). Outros 1.315 benefícios precipitadamente cortados serão reativados.

 

Romana Blasotti Pavesi, ‘La lotta all’Eternit non puó finire...’

Deu no Monitor Mercantil que Davi Alcolumbre (DEM-AP), Vanderlan Cardoso (PP-GO), Luiz do Carmo (MDB-GO) e Chico Rodrigues (DEM-RR) gravaram um vídeo em Minaçu (GO), acompanhados do governador do estado, Ronaldo Caiado (DEM), em defesa da mineração do amianto na cidade.

O amianto foi banido do Brasil, pelo STF, em 2017, e banido da UE em 2005, totalizando cerca de 70 países de diferentes continentes, em que não pode ser extraído, industrializado, nem comercializado. Só mesmo a medievalização por que passa o Brasil pode explicar que senadores da República e governadores se atrevam a pedir a volta de uma substância para a qual não há níveis seguros de manuseio ou proximidade física.

Prossegue a notícia veiculada no MM com a afirmação de que a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) se posicionou contra a intenção de senadores brasileiros de liberarem a produção de amianto (ou asbesto) no país. Asbesto denomina um grupo de fibras de ocorrência natural, associadas a inúmeras doenças graves, limitantes ou letais.

Lembra que recentemente, foi criada uma Comissão Externa Temporária sobre o assunto, requerida pelo senador Vanderlan Cardoso, “o que é de extrema preocupação, uma vez que o amianto, em todas as suas formas (crisotila, crocidolita, amosita, antofilita, tremolita e actinolita), dentre as patologias que causa, encontra-se asbestose e neoplasias malignas, como o mesotelioma maligno, que é o câncer de pleura. Há a ocorrência dos cânceres em outros locais: peritônio (superfície que recobre órgãos internos abdominais), de pericárdio (recobre o coração), pulmão e laringe. Essas doenças causam dor, falta de ar, limitação às atividades laborais e cotidianas, e até o óbito. É importante ressaltar que estudos epidemiológicos apontam que o risco de desenvolvimento de câncer por conta do amianto independe da quantidade de exposição e pode ocorrer em qualquer fase industrial, desde a mineração à manufatura.”

Romana Blasotti Pavesi teve cinco membros da sua família vitimados pelo asbesto, criou a ONG Afeva, Associazione Familiari e Vittime dell'amianto, e se tornou o símbolo maior da luta histórica contra a Eternit, empresa criada pelo bilionário suíço Stephan Schmidheiny que espalhou o amianto por diversos países, entre os quais o Brasil.

Senadores, melhor fariam se dirigissem os seus esforços para retirar a condecoração a ele atribuída (ordem do Cruzeiro do Sul), pelo presidente FHC.

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