Retorno da China e consequências para o redesenho geopolítico mundial

Por Alessandra Scangarelli Brites.

Opinião / 14:58 - 13 de fev de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Engana-se quem acredita que a importância política da China, um dos países de grande influência internacional, capaz de promover mudanças profundas na balança de poder global, seja um fato histórico atual. O Império do Meio, como também se costumava denominá-la, foi centro do comércio mundial, através da construção da chamada Rota da Seda, promovendo de forma direta e indireta um exercício de poder estratégico, além de ter sob seu comando um terço da população mundial e a maior economia daqueles tempos.

Com a decadência da última dinastia a comandar o país, a chamada Grande Qing, e o avanço dos impérios europeus, em especial francês e inglês, sobre a Ásia, o país foi forçado a um longo período considerado pelos chineses humilhante, em que imperavam a guerra civil e literal divisão do território chinês pelas coroas europeias e o Japão. Aos poucos, a China busca uma retomada da sua antiga condição de centro da estrutura política, econômica e social que obteve por séculos.

Esta construção dá-se em especial com um projeto a longo prazo e de dimensões globais: a reconstrução da rota comercial que unia a Ásia a Europa, chegando às Américas – A Nova Rota da Seda. O desenvolvimento de tal iniciativa certamente vai promover um reordenamento na estrutura sistêmica mundial, criando um novo centro de poder econômico e político, localizado na Ásia e que objetiva trazer um equilíbrio com a rota do Atlântico Norte, a aliança onde se encontra o centro de poder ocidental, conectando Estados Unidos e Europa ocidental.

 

América do Sul, região deslocada dos planos

centrais, tem relevante importância estratégica

 

Para tanto, os chineses vêm aos poucos consolidando alianças importantes com países-chaves, no intuito de impulsionar esta medida, são alguns deles: Rússia, Irã, Turquia, Quênia, Itália, Malásia e, obviamente, todos os países que poderiam fortalecer esta rota.

Contudo, o ator internacional mais importante e estratégico é Moscou, pois os russos também almejam a criação de um bloco econômico, o intitulado União Euroasiática, que tem como meta a integração paulatina do antigo território soviético, em especial as economias da Ásia Central e Europa do Leste, em conexão com Pequim e Berlim. Atualmente, a organização tem como membros: Bielorrússia, Cazaquistão, Rússia, Armênia, Quirguistão; e futuros candidatos: Tajiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão.

Entre as implicações que a união destas estratégias traz para a conjuntura atual estão: a derrocada do dólar como principal moeda de reserva internacional e a acumulação de barras de ouro, principal fator que incide sobre o poder de uma moeda no sistema econômico internacional.

Também está incluída a criação de novas rotas comerciais e uma nova logística no que diz respeito a combustíveis, com a construção de novas redes de transmissão, produção e abastecimento de fontes energéticas, que passam por territórios não controlados pelos Estados Unidos e Europa.

A Nova Rota da Seda e a União Euroasiática planejam chegar à América do Sul através do oceano Pacífico, vinculando a região que provavelmente seria a mais deslocada dos planos centrais destes empreendimentos. Contudo, ela se torna relevante em razão de sua importância estratégica, não apenas pelos recursos naturais, mas pela posição geopolítica, abrindo novas rotas comerciais e sendo vizinha do centro econômico capitalista da economia mundial: os Estados Unidos.

Existem os que temem o ressurgimento de uma China robusta; no entanto, os chineses apenas impõem séria ameaça à supremacia mundial norte-americana. Não quer dizer que os Estados Unidos deixem de ser uma potência entre o seleto grupo de países com poder de influência no mundo. O que acontece é que a união russo-chinesa limita o status de superpotência dos estadunidenses que terão de repartir o poder com outros polos, liderados por nações com real força econômica e militar para promover um equilíbrio de poder, há muito perdido com o desmantelamento da União Soviética.

Entre muitos fatores, este é um dos essenciais onde se pode compreender o porquê da grande instabilidade mundial atual e da preponderância de políticas neoliberais que apenas têm infligido grandes danos ao bem-estar social e à economia mundial. A China, com a sua proposição de uma nova estrutura econômica, também sugere um novo modelo: o socialismo de mercado, conceito a ser melhor detalhado e explanado em uma outra oportunidade.

 

 

Alessandra Scangarelli Brites

Jornalista, editora da Revista Intertelas e especialista em relações internacionais e audiovisual russo e asiático.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor