Resgatar ídolos pode nos fazer mais felizes

Por Josué Setta.

Opinião / 18:40 - 12 de jun de 2019

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O Brasil parece ser assim... desconcertante. Um tipo de inovador que cria coisas inusitadas em um repetente ou espasmos criativos. Talvez Garrincha tenha sido a síntese da nossa essência, com seus dribles, seu gingado que encontrava soluções quando nada indicava que fosse possível. Não precisava do técnico nem de combinar jogadas com ninguém. O milagre acontecia pelas pernas tortas que, por si só, já eram um desafio para a prática a que se propunha.

Vejamos o momento atual do país. Nosso presidente tem sido alvo de críticas generalizadas, pelo menos pelo que se lê na imprensa em geral, por suas colocações. Quando todos se concentram na reforma da Previdência, a tábua da salvação, ele solenemente vai ao Congresso discutir a cadeirinha das crianças!

Não desejo compará-lo ao nosso ídolo de futebol, pelo menos na arte de cada um, mas sou tentado a me mostrar surpreso com alguns efeitos que aparecem na conjuntura atual ou no jogo que está sendo jogado, se preferirem o sentido figurado.

 

A verdade é que estávamos mal acostumados

com um parlamento, digamos, dócil

 

Fato é que temos sido surpreendidos por uma atuação muito ativa do Congresso, que enquanto reclama da falta de articulação política do Executivo e da ausência de uma pauta consistente, assume um protagonismo muito interessante vis a vis seu passado recente.

Tentando livrar-me do pessimismo que assola a nação de uns tempos para cá, vejo positivamente esse tipo de parlamentarismo à brasileira que estamos praticando. Parece que Deus escreve certo por linhas tortas, como afirma o dito popular.

A verdade é que estávamos mal acostumados com um parlamento, digamos, dócil. Como se a democracia fosse a morada da convergência de opiniões. Talvez tenhamos que olhar com mais alegria, e uma boa dose de adrenalina no sangue, os embates frequentes entre Executivo e Legislativo. Afinal, deputados e senadores também mereceram os votos do povo para representá-lo e, com alguma boa vontade, ali estão as falas dos diversos segmentos da população.

O enfrentamento é democrático e, quando não muito exagerado, pode nos levar ao meio termo. Que assim seja. O medo de um golpe parece ser mais decorrente do nosso mau hábito com a camaradagem aderente entre os poderes do que, propriamente, de uma ideia macabra de alguns.

Evidentemente que não se deve abrir mão de uma articulação política bem conduzida. Como disse o presidente do Senado em entrevista recente, fora da política não há solução aceitável e, só por este caminho, o Executivo deverá fazer valer suas propostas para o país.

Enquanto a preponderância do Congresso estiver na imposição de limites, ajustes e proposituras, sem que o enfrentamento nos leve a paralisia, tudo bem. Mas o presidente aparenta não estar se rebelando quanto aos freios impostos e, dessa forma, pode-se caminhar com a preservação da essencial liberdade.

Também vejo com saudável otimismo que nos acostumemos a deputados e senadores, de nomes e caras estranhas, atuando não mais como coadjuvantes da vida política. Assim, a sociedade vai se conscientizando que as eleições não se resumem a um Fla-Flu presidencial, mas a uma disputa muito mais ampla onde todos os votos são igualmente relevantes.

Só com isso, a cada temporada do campeonato político, saberemos escolher quem deve estar na primeira ou segunda divisão. Resgatar a lembrança de Garrincha me fez ficar mais feliz!

 

 

Josué Setta

Engenheiro e consultor.

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