Reflexões sobre a conjuntura brasileira

Por Ricardo Maranhão.

Opinião / 19:31 - 11 de nov de 2019

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Vivemos uma crise profunda, com nuances de tragédia. Crise econômica, social, política e ética, interligadas.

Dívida pública da ordem de R$ 4 trilhões. Cada um dos 208,4 milhões de brasileiros deve R$ 20 mil. O meu neto, Rafael, quatro anos, está endividado...

Desequilíbrio fiscal. Vertiginosa desnacionalização da economia brasileira. Capital estrangeiro assumindo o controle de ativos estratégicos, em todos os segmentos de nossa economia.

Taxas de juros exorbitantes, verdadeira agiotagem institucionalizada, estimulando a especulação e inibindo os investimentos produtivos.

Exportações crescentemente concentradas em commodities e produtos de baixo valor agregado. Forte dependência de produtos importados, com elevado conteúdo tecnológico.

Balança de serviços deficitária, com dispêndios em juros, turismo, remessa de lucros, seguros, royalties, fretes, pagamentos pelo uso de tecnologia estrangeira. Sonegação de impostos e bilhões de reais em tributos inscritos na Dívida Ativa.

 

O Brasil superará as suas dificuldades.

Tem forças para fazer isto

 

Destruição, enfraquecimento, da engenharia nacional, sobretudo de grandes empresas, hoje em recuperação judicial ou em processo falimentar. Consequência do combate à corrupção. Combate imperioso, indispensável, mas feito de forma espalhafatosa, com exibicionismo, parcialidade e, às vezes, sem respeitar preceitos legais e constitucionais.

Pediram recuperação judicial ou estão insolventes empresas como Ecovix, Galvão Engenharia, Grupo Schain, Jaraguá, OAS, Odebrecht, OGX, OSX, Sete Brasil, UTC, para citar algumas.

Quase 13 milhões de brasileiros estão desempregados. Cerca de 30 milhões, subocupados. Assim são considerados os desempregados, os que trabalham menos do que podem, procurando emprego sem estar disponível para trabalhar. Trinta e três milhões com carteira assinada, 24,3 milhões por conta própria. Os dados são do IBGE.

Amplos espaços urbanos dominados por milícias, crime organizado, contravenção, que fazem a lei e afrontam o poder do Estado. Cidadãos morrem nos corredores dos hospitais. Violência contra mulheres e crianças. Sistema Penitenciário falido, violência, superlotação, incapaz de ressocializar os detentos.

Precarização do trabalho. Apenas seis brasileiros ostentam patrimônio de R$ 280 bilhões, equivalente ao de 100 milhões de cidadãos. Concentração de renda sem paralelo. O quadro social é injusto, iníquo. Isto não pode dar certo. “A paz é filha da justiça”

Ajuste fiscal, necessário, mas que deve ser feito com justiça. É preciso desonerar investimentos produtivos. Tributar mais a renda e os patrimônios elevados. Simplificação das normas tributárias.

Estagnação e queda do PIB. Instabilidade política, contaminando a conjuntura econômica. A classe política, ressalvadas as exceções, alienada, incompetente, entreguista.

Controle da informação, pela mídia oligopolizada, favorecendo políticos vinculados ao poder econômico. Bancadas da saúde e da educação privadas. Das empreiteiras. Da bala. Da banca. Falta de transparência no processo legislativo.

Cumplicidade da religião com a política. Estado laico? Exploração do sentimento religioso do povo brasileiro. A mistura da religião com a política quer virar moda. Pregação e adoção da violência no combate à criminalidade. “Lei do Abate”. A questão social volta a ser “caso de polícia”

Vinte e nove partidos políticos com representação no Congresso Nacional. Acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de televisão. Barganha. Organizados para atender a conveniências menores. Falta de compromisso com a história e abandono das linhas ideológicas.

Cenário político dominado pela mediocridade. Ceticismo, desprezo, desilusão, repulsa dos cidadãos pela atividade política. Sentimentos compreensíveis e preocupantes. Anulação do voto. Índices elevados de abstenção. Apatia dos eleitores.

A política é importante, fundamental, essencial. Ela desenha a vida nacional. O desencanto dos cidadãos é compreensível. Decorre da corrupção, com o controle e a ocupação de cargos e posições estratégicas da República por políticos envolvidos em práticas ilícitas. Promiscuidade entre o poder do dinheiro e a política.

Pepe Mujica, ex-presidente e senador eleito do Uruguai, registra: “Quer ganhar dinheiro? É legítimo. Opção de cada um, mas, afaste-se da política!”

Miguel Arraes também nos ensinava: “Dinheiro na mão dos políticos é um desastre.”

Falta ética: desviam até mesmo a merenda das crianças. Também a “lavagem” dos presidiários.

Não pretendo, com estas palavras, trazer aos leitores, o desânimo, o cinismo, a indiferença, a letargia, a acomodação.

Ao contrário. Conclamo todos para o exercício da cidadania. É necessário defender a democracia. Preservar a soberania, promover o desenvolvimento com justiça social.

O Brasil superará suas dificuldades. Tem forças para isto. Com o exercício da cidadania. Cidadãos cumprindo deveres e exigindo seus direitos.

Uma das dez maiores economias do mundo. Maior patrimônio genético do planeta (Floresta Amazônica). Pelo menos 15% ou 20% das reservas de água doce do mundo. Matriz energética entre as mais limpas.

Unidade na língua. Ausência de fortes conflitos raciais e religiosos. Grandes reservas de minerais (ferro, nióbio, manganês, etc). Descoberta das maiores jazidas de petróleo do mundo, nos últimos 30 anos.

Mercado interno de grandes dimensões para sustentar o desenvolvimento autônomo. Liderança mundial na produção de alimentos.

O Brasil somos nós.

Ricardo Maranhão

Engenheiro, ex-deputado federal (PSB-RJ), é conselheiro do Clube de Engenharia.

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