Advertisement

Reflexões para Construção do Projeto Nacional – Parte 2

Por Pedro Augusto Pinho.

Opinião / 16:59 - 21 de Mai de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Possuir uma contradição real é o que faz um problema ser problema. Um povo é um estilo de vida e, enquanto tal, consiste em certa modulação simples e diferencial que vai organizando a matéria em torno. Causas exteriores desviam, no ápice de sua trajetória ideal, esse movimento de organização criadora em que vai se desenvolvendo o estilo de um povo e o resultado é o mais monstruoso e lamentável que se possa imaginar. Cada passo de avanço nesse processo de desvio soterra e mais oprime a intenção original, envolvendo-a em uma crosta morta de produtos fracassados, torpes, insuficientes. A cada dia esse povo torna-se menos o que deveria ter sido.” Ortega y Gasset, Meditações do Quixote.

No meu entendimento não houve o interesse em construir, após Geisel, um Projeto Brasil, o que reconheço ser uma afirmação polêmica. Permitam-me algumas considerações introdutórias. Usarei a expressão “Período Revolucionário”, consciente de sua impropriedade – apenas para exemplo do que é a semântica da banca (sistema financeiro internacional) – para aquele que vai da campanha de Jânio Quadros à Constituição de 1988.

Neste período passamos de um imperialismo industrial, conduzido pelos Estados Unidos da América (EUA), para dominação financeira de origem anglo-judaica, mas efetivamente apátrida, vestida com a ideologia neoliberal.

 

É parte da conquista colonial a desconstrução

da alma nacional, da autoestima dos povos

 

Em abril de 1959, Jânio é lançado pelo Movimento Popular Jânio Quadros (MPJQ) à Presidência da República, logo apoiado pelo pequeno Partido Trabalhista Nacional (PTN). No mesmo ano, o Partido Libertador (PL), o Partido Democrata Cristão (PDC) e o Partido Republicano (PR) apoiaram a sua candidatura. A expressividade político partidária era praticamente nula. Mas, na minha avaliação, começa aí um novo ciclo de interferência estadunidense na administração federal brasileira.

Breve recapitulação de uma década. Economistas franceses denominam “Trinta Gloriosos” o “período de prosperidade”, vivido pela França, que vai de 1945 aos choques do petróleo (1973). Mas teriam efetivamente ocorrido?

Em 1955, surgiu o Pacto de Varsóvia como resposta dos países comunistas à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

As décadas de 1950 e 1960 foram das derrotas do colonialismo (francês, inglês, estadunidense) pela África e Ásia. Derrotas bélicas – Indochina, Coreia, Argélia – e políticas, como a Conferência de Bandung (Indonésia, 1955). Em 1959 triunfa a Revolução Cubana, apenas dez anos após a imensa China ter se tornado um país comunista. Tropas e a Agência Central de Inteligência (CIA) estadunidenses interferiam nos governos das Américas e no Oriente Médio.

Os dados estatísticos, que utilizo a seguir sobre os EUA, foram obtidos no artigo “A century of change: the U.S. labor force, 1950–2050”, publicado na Monthly Labor Review (MLR), em maio de 2002, e nos divulgados pelo US Bureau of Labor Statistics.

Nas duas décadas após a Segunda Guerra Mundial, a economia dos EUA teve uma grande expansão. O crescimento econômico rápido aumentou muito a demanda por mão de obra. O movimento civil, a legislação que promove a igualdade de oportunidades no emprego e o movimento pelos direitos das mulheres criaram uma atmosfera que foi hospitaleira para mais mulheres trabalhando fora de casa” (MLR citada). Verdade ou desejo?

Em 1958, o médico Antônio da Silva Mello, da Academia Brasileira de Letras, pensador humanista, publica Estados Unidos prós e contras (Editora Civilização Brasileira, RJ), de onde retiro dados e observações que se seguem.

Silva Mello trata da dependência industrial estadunidense das matérias primas estratégicas: “Todo antimônio que os Estados Unidos consomem provem do Peru e da Bolívia; 60% do cobre, do Chile; 50% do bismuto, do Peru; do México e do Peru, 50% do chumbo; ainda do México, 66% do mercúrio, do cádmio e da grafita”. E nós, brasileiros colonizados, sempre aprendemos que os EUA eram autossuficientes, se isolados, apenas lhes faltaria o cafezinho (sic).

Naquele final de década de 1950, nos EUA, cada trabalhador sustentava, além de si próprio, pouco menos de duas pessoas, conforme dados do US Bureau of Labor Statistics. As mulheres representavam 34% da força de trabalho. E 7 milhões, dos cerca de 110 milhões de habitantes acima de 16 anos, ocupavam cargos em órgãos dos governos.

A presidência de Dwight Eisenhower (1953-1961) era pressionada pelo complexo industrial-militar e o anticomunismo, que, a um só tempo, era doutrinação, arma psicossocial, e uma invasão empresarial estadunidense.

Silva Mello, analisando as condições psicossociais dos EUA naqueles anos 1950, ressalta o uso da religião protestante para a discriminação racial e social. “Neste particular, seria de grande conveniência considerar os tremendos prejuízos e sofrimentos que as religiões têm acarretado ao ser humano”. É a religião usada para a censura, para a limitação da tão decantada liberdade. Hoje a indústria cultural, as comunicações de massa e as redes virtuais têm este papel censor e dirigente.

Considerando este cenário, para os EUA, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (JK), 1956-1961, tendo o varguista João Goulart como vice, não oferecia garantia, mas preocupações a seu poder imperial.

A televisão surgira em 1950, em São Paulo, pelas mãos de Assis Chateaubriand, de notória adesão aos interesses estrangeiros e às elites exportadoras brasileiras de produtos primários. De 1951 a 1960, o Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo) passa a dispor de seis canais aos quais se agregam dois em Recife. Os EUA já tinham, então, quase 40 anos de experiência neste veículo de comunicação de massa.

Fecho a recapitulação deste decênio.

A campanha exitosa do midiático Jânio, como também midiatizadas serão as campanhas de Collor e Bolsonaro, tendo o mesmo suporte estrangeiro, oferece a oportunidade para os EUA recolocarem o Brasil na dependência, idêntica à da I República, trocando o dominador inglês pelo estadunidense.

As análises que Peter Cain e Antony Hopkins (British Imperialism 1688-2015, Routledge, Londres, NY, 2016) fazem da história britânica, em especial na Oitava Parte do trabalho: “Losing an empire and finding a role”, esclarecem muitos eventos que venho tratando. As citações estão de tradução livre.

É bastante real a compreensão de que o setor industrial na Grã-Bretanha foi incorporado, depois de 1945, pela estrutura dominada por instituições financeiras tradicionais e forçado a se adequar às suas práticas”.

Esta estrutura financeira, que denomino banca, começou a agir na Europa Ocidental e nos EUA. Somente após as “crises do petróleo” universalizaram sua atuação. Esta compreensão explica, por exemplo, que o golpe de 1964 foi desencadeado pelos interesses industriais estadunidenses e finalizado pelos interesses internacionais das finanças. Embora em ambos momentos, e como em todo e qualquer evento, haja uma conjugação de interesses.

Deste modo, o Período Revolucionário tem início com o poder industrial estadunidense e sua projeção no Brasil e conclui quando se obtém um marco legal para a atuação do poder, agora internacional, que se instala em nosso país.

Não seriam possíveis as ações de Médici e sobretudo de Geisel se vivêssemos já sob domínio da banca. O grande avanço nacionalista de Geisel encontrou o poder industrial dos EUA enfraquecido e a banca já suficientemente forte para lhe impor o General Figueiredo, um Bolsonaro melhor preparado e de origem social na classe média alta.

Novamente Cain&Hopkins: “É crucial a conexão entre o poder econômico e a autoridade política, que oferece os meios para superar as dificuldades da expansão imperialista”. Nada poderia ser mais explícito para a conquista brasileira pela banca.

A situação brasileira não se diferencia das outras nações latino-americanas, como se constata, entre outras, nas análises de Vania Bambirra (O capitalismo dependente latino-americano), de Agustín Cueva (O processo de dominação política do Equador e O desenvolvimento do capitalismo na América Latina), de José Carlos Mariátegui (Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana) e nas reflexões de Theotonio dos Santos, recolhidas em Socialismo ou Fascismo, como em tantas obras que mostram ser a União dos Povos Latino-Americanos uma condição para a soberania de cada um.

Não é outra a razão pela qual os governantes, títeres em todos estes países, sob os mais toscos pretextos, buscam eliminar a integração e solidariedade latino-americana.

É parte da conquista colonial a desconstrução da alma nacional, da autoestima dos povos. Concluo esta II Parte das minhas reflexões transcrevendo um caso verdadeiramente dramático, retirado de uma obra de etnobotânica: Plantas e Civilização, de Luiz Mors Cabral (Edições de Janeiro, RJ, 2016).

Carvalho

Não confunda alhos com bugalhos: gente não é bicho, azinheira não é figueira

Sou de família alemã. Meus bisavós vieram da Alemanha para o Brasil no final da Primeira Guerra Mundial. Fugiram de um país arrasado e, sem saber, fugiam também de outra guerra que estava por vir. Em 1928 (meu avô tinha 8 anos), a família fez uma viagem à Alemanha. Era hora de apresentar meu avô aos que tinham ficado na Europa. É dessa viagem a lembrança mais marcante da infância de meu avô.

Minha bisavó resolveu levá-lo ao zoológico, mas o passeio acabou abruptamente, porque uma das atrações era uma tribo de índios da América do Sul. Expostos como animais, na reconstituição mequetrefe de uma aldeia, cercados por grades. Minha bisavó percebeu o absurdo daquilo e caiu fora do zoológico o mais rápido possível. Meu avô lembrava vivamente do desconforto da situação, das desculpas para o fim inesperado do passeio, dos silêncios na volta para casa.

Os chamados zoológicos humanos não eram novidade na década de 1920. Já existiam e excursionavam pela Europa desde os anos 1880. Africanos, pigmeus, aborígenes australianos e índios sul-americanos eram frequentemente expostos ao público. É difícil saber qual etnia estava exposta quando meu avô visitou o zoológico. Pode-se arriscar que era um grupo fueguino (proveniente da Terra do Fogo), porque pelo menos quatro diferentes etnias fueguinas (mapuche, tehuelche, kawésqar e selk'nam) foram frequentemente capturadas para virarem atração para famílias europeias”.

 

 

Pedro Augusto Pinho

Administrador aposentado, é diretor na Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet).

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor