Quem é deficitário?

Floresta Amazônica e o presidente de extrema-direita: deu no 'New York Times'

Empresa Cidadã / 19:26 - 30 de jul de 2019

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A edição de domingo (28) do jornal The New York Times traz na primeira página (três colunas) e na página 13 matéria sobre a rápida destruição da Floresta Amazônica, em decorrência do retrocesso das medidas de controle do corte de árvores, da pecuária e da mineração, após a posse do novo presidente de extrema-direita (literalmente, “far-right president”).

Cita que a proteção da Amazônia esteve no coração da política ambiental brasileira pelas últimas duas décadas e que o sucesso do Brasil em retardar o desflorestamento tornou-se um exemplo internacional de preservação e de combate às mudanças climáticas.

Acrescenta que, ano passado, durante a campanha eleitoral, um populista, pessoalmente multado por violar a legislação ambiental, Mr. Bolsonaro declarou que a extensão de terras protegidas era um obstáculo para o crescimento econômico e prometeu liberá-las para a exploração comercial.

Diz ainda que, desde que ele assumiu presidência, a Amazônia brasileira já perdeu mais de 1.330 milhas quadradas (equivalem a cerca de 3.444.684km², ou 82 vezes a área do Estado do Rio de Janeiro), ou seja, um incremento de 39%, em relação ao ano anterior. E está aumentando. Tomando somente o mês de junho (de estiagem) como referência, o acréscimo no desmatamento é de 80%.

 

O dia em que nos tornamos devedores

Voltamos ao tema abordado na Coluna Empresa-Cidadã de 22 de maio de deste ano (“Bota mais feijão no acarajé”), a pegada ecológica. Trata-se de um conceito relativamente recente, que coteja o uso e a disponibilidade de recursos naturais oferecidos pela Terra. De um lado, o uso que um país, uma cidade, uma empresa, ou uma pessoa faz dos recursos é contabilizado, como a composição dos ativos ecológicos que são efetivamente empregados na produção dos bens que a sociedade demanda, e mais o que é disposto no ambiente, como as emissões de carbono. São consideradas seis categorias de recursos: terras agricultáveis, áreas de pastos, pesqueiros, áreas construídas, áreas de florestas e demanda derivada de carbono.

 

Biocapacidade

Do outro lado, está a oferta de recursos naturais que o mesmo país, ou cidade, ou empresa, chamada biocapacidade, que é expressa através da produtividade dos ativos ecológicos (incluindo-se a produtividade das terras agricultáveis, das áreas de pasto, das florestas, dos pesqueiros e das terras edificadas). O conceito implícito é o de avaliar se a natureza é capaz de restabelecer o resultado do balanço entre a biocapacidade e os recursos empregados (mais o que é disposto no ambiente).

Onde a pegada ecológica exceder a biocapacidade, há um déficit ecológico. Ao contrário, se a biocapacidade não é exaurida na demanda local por bens, ocorre uma reserva ecológica ou ambiental. O conceito de pegada ecológica foi apresentado em 1990, por Mathis Wackernagel e por William Rees, na Universidade de British Columbia. A ferramenta possibilita estimar o dia em que o planeta ultrapassou o seu ponto de equilíbrio (EOD, sigla do inglês Earth Overshoot Day), tornando-se deficitário.

 

Os maiores déficits

Em 2018, os cinco países que mais rapidamente exauriram as suas biocapacidades foram Luxemburgo, Qatar, Austrália, Canadá e EUA. No mesmo ano, tornaram-se deficitários respectivamente em 17 de fevereiro, 19 de fevereiro, 12 de março, 13 de março e 14 de março. A partir das datas assinaladas, passaram a utilizar recursos das biocapacidades contidas em outros territórios e a emitir carbono acima da capacidade de regeneração ambiental nos limites das suas fronteiras. O Brasil mudou de status em 26 de julho, quando passou a ter exaurida a sua biocapacidade, acima das possibilidades do ambiente regenerá-la.

 

Fair footprint’

Generalizando-se, hipoteticamente, para toda a população terrestre o padrão de produção e consumo dos diferentes países, bem como a biocapacidade deles, é possível estimar quantas vezes o planeta Terra teria que ser disponibilizado para atender a todos os seus habitantes. Assim, por exemplo, se todos os países tivessem a mesma pegada ecológica dos EUA, seriam necessários cinco planetas em biodiversidade para sustentar o mesmo padrão de produção, consumo e resíduos resultantes deste padrão, incluídas as emissões de carbono.

 

De quantos planetas o Brasil precisa?

No exemplo brasileiro, a mesma extrapolação resultaria na necessidade de 1,8 planeta, pouco acima da pegada ecológica da própria Terra hoje, de 1,7, ante o padrão global de produção, consumo e emissão de carbono. Em 1969, esta relação era de 1. Desde então, a ultrapassagem do ponto de equilíbrio global, EOD (do inglês Earth Overshoot Day), também chamado de EDD (Earth Debit Day), se faz cada vez mais cedo, resultado de uma aceleração nos níveis globais de atividade econômica e emissão de carbono.

Trata-se do dia do ano até quando a biocapacidade do planeta consegue atender à sua pegada ecológica. Em 1978, o ponto de equilíbrio foi ultrapassado em 7 de novembro. Em 1988, deu-se em 15 de outubro. Em 1998, ocorreu em 29 de setembro. Em 2008, foi verificado em 14 de agosto. E em 2018, a data foi 29 de julho.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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