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Quase 100 dias! Anda, tchutchuca!

Capitão corre o risco de se tornar um presidente fraco, e a economia se enfraquece com ele.

Conversa de Mercado / 18:54 - 05 de Abr de 2019

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Passados quase 100 dias desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, quase tudo o que foi prometido já foi feito, ao menos é o que diz o próprio Bolsonaro. “95% da meta vai ser atingida, com 5% restantes parcialmente atingida, estamos lutando para cumprir 100% da meta”, afirmou, sem detalhar quais seriam essas metas. O presidente só exemplificou que o 13º salário para beneficiários do programa Bolsa Família será anunciado na semana que vem.

Ao final do ano passado, o governo anunciou 35 medidas a serem concretizadas até o final dos 100 primeiros dias de governo, ou 11 de abril. Ora, se todas as metas foram cumpridas ou estão encaminhadas, por que a economia não anda? Nenhuma reaçãozinha? Dentre as medidas econômicas, destacam-se o combate às fraudes do INSS, redução dos gastos com a “máquina administrativa”, privatizações no setor de transportes, independência do Banco Central e por aí vai... Não, a reforma da Previdência, tida como essencial pelo ministro Paulo Guedes para conter o déficit público, não fazia parte da lista.

Mas a batalha pela Reforma deverá ser mais difícil do que o previsto. Durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com pouco apoio do desunido PSL, Guedes enfrentou de tudo em meio a uma oposição articulada e pronta para confrontá-lo. “O senhor é ‘tigrão’ quando é com os aposentados, mas é ‘tchutchuca’ quando mexe com a turma privilegiada”, declarou o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR). A frase acirrou os ânimos e levou ao fim da sessão.

Tchutchuca ou Tigrão, o fato é que a falta de apoio a Guedes é preocupante. Ter um time bom econômico bom é uma condição necessária, mas não suficiente para que um governo dê certo. Basta lembrarmos do ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy no governo Dilma. Quando se tem boas pessoas, porém um governo que não se empenha e que tem outra linha, não se pode ter sucesso.

O próprio presidente já vai levantando bandeira branca antes, ao fazer afirmações como a de que proposta de capitalização da Previdência não é essencial no momento. A reforma vai se esvaziando... “Sei que funciona dessa maneira a oposição. Aquilo não é oposição, aquilo é um pelotão de fuzilamento. Esse pessoal não quer o bem do Brasil, quer o pior. Eles têm tudo para apresentar uma proposta alternativa, se a nossa não for boa”, declarou Bolsonaro sobre o episódio com Guedes. Esquece-se ele que também foi oposição à reforma da Previdência, e, portanto, já desejou o pior para o país.

Em entrevista coletiva após o resultado das eleições, o atual ministro da Fazenda, Paulo Guedes, declarou que era possível zerar o déficit fiscal em 2019. “Nós vamos tentar. É factível, claro que é factível. O foco do programa é o controle de gastos”, explicou. Além da reforma da Previdência, uma das propostas era usar parte das reservas internacionais, hoje ao redor de US$ 380,3 bilhões (20% do PIB), para a redução da dívida pública, o que diminui a despesa do governo com juros, que representam anualmente quase 6% do PIB. Esta medida ainda está no papel, junto com o programa de aceleração das privatizações, que, na verdade se encontra em marcha lenta. “Vamos acelerar as privatizações porque não é razoável o Brasil gastar US$ 100 bilhões por ano em juros da dívida”, afirmou Guedes antes da posse. Bolsonaro também contradisse algumas coisas neste sentido.

O primeiro passo foi ganhar a eleição, mas uma vez ganha é preciso que as coisas ocorram rapidamente e é justamente isso que falta em um governo onde sobra a bateção de cabeça. A base governamental será mantida ou o governo pode cair no risco do presidente argentino Macri? Os primeiros meses de gestão se mostraram frustrantes. A energia inicial de um governo dura seis meses e em grande parte já foi desgastada. O capitão corre o risco de se tornar um presidente fraco, e a economia se enfraquece com ele.

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