Qual Europa nós queremos?

Internacional / 14 Novembro 2017

Com a ótica de uma incoerente ética, se bem que possa existir uma conjunção assim, a Europa já não tem maiores responsabilidades para com a História do que outros espaços geográficos do mundo, os quais reivindicam o poder e a hegemonia. Mas, a ética, quando é exercida, como espera-se em específico nível social talvez seja um sentido menos incoerente do que outro: embora variável no tempo e no espaço, está presente, presente silenciosa e vigorosa, com o olhar reivindicador, exigindo-nos satisfações.

Gostaria de pensar que vivemos em uma época quando a Europa deveria apresentar ao mundo o balanço de sua histórica administração, se não deseja prorrogar seu maior defeito, seu pecado pré-histórico, o qual, ainda hoje se não, somente, no que diz respeito sua posição geográfica e física, é sua dupla existência, a central e a periférica, resultando uma pesada herança histórica de injustiça, discriminação e, amargura. Não falarei aqui, e isto é inédito, sobre as guerras, as ocupações, os pogrom, os genocídios de gerações inteiras, as listas de subasta escolhidas a dedo, das quais não salvou-se nenhum espaço europeu. Pretendo referir-me sobre a inominável ofensa que é a desde deformação física denominada eurocentrismo, o intolerável comportamento que transforma a Europa em eurocentral em relação com seu próprio continente.

Para determinados países europeus, que intitulam-se superiores em termos de desenvolvimento, de acordo com um narcisista ponto de vista que projetam para si, a restante parte da Europa foi sempre algo indefinido, um pouco exótico, um pouco típico que merecia, no máximo, a atenção dos antropólogos, dos antiquários e dos curiosos, os quais, contudo, baseados em certas recentes colaborações locais, poderíamos realizar alguns investimentos bem-sucedidos.

Não creio que uma Europa realmente nova poderá existir se a Europa de hoje não conseguir organizar-se de acordo com os cânones de uma moral de responsabilização. E não existirá, também, embora mais do que os egoísmos nacionalistas que frequentemente emergem como simples reflexos auto-defensivos, não conseguiremos arrancar de nossa consciência as prevenções antigas de superioridade ou da classificação civilizadora.

Não esqueço a importância do fator político, econômico e militar dentro deste distorcido entrelaçamento de relações, mas como homem das letras considero meu dever de lembrar que as hegemonias civilizadoras são essencialmente a conseqüência do duplo e acumulativo processo alegando de pertencer a um e ocultando de pertencer a outro, processo bastante hábil para predominar-se como inevitável, favorecido até pela desistência se não pela co-autoria das próprias vítimas.

Chegou a hora para dizermos que as civilizações não são melhores ou piores, não mais ricas ou mais pobres, são simplesmente civilizações. São equivalentes e até suas próprias diferenças, igualadas e aprofundadas e mutuamente justificadas. Não existe e espero que não exista jamais, uma civilização única e mundial. A terra é única, mas não o ser humano. Cada civilização por si só, é um universo em constante intercomunicação: o espaço físico que separa uma outra civilização é o mesmo espaço físico que, também, as une, como o mar separa e une os continentes.

O mundo inteiro já começou a vestir seu corpo com as mesmas roupas, utilizando simultaneamente as mesmas palavras para expressar os cada vez mais repetidos percursos. Já existem pontos de preocupação manifestados nos círculos extra-oficiais dos países...

Compreenderemos que, não só os fatores civilizadores foram rejeitados, mas, também, que o próprio processo de integração da União Europeia transformou-se em uma espécie de Ougolino ávido, com a diferença que não estraçalha da mesma forma todos os seus filhos (cria) e até talvez providencia algo com uma dedicação especial, mas, aprecia, diríamos, despedaçar sucessivamente os quase mortos corpos da civilização europeia.

Em outras palavras, eu diria que hoje chocam-se na Europa dois lados com forças, visivelmente, desiguais.

De um lado, a maioria daqueles que movem-se com base a um plano de comercialização, os quais, se tiverem herdado, espiritualmente Homero, Cervantes e Camões, têm a única ambição encontrarem a forma mais rápida para transformá-los em euros e, outro lado daqueles, da minoria, que não esqueceram e não querem esquecer o destino criador da Europa, com uma riqueza de milhares de anos em descobertas e experimentações e, os quais, acreditam que uma civilização subalterna às leis do mercado será, fatalmente, dispersada. E isto já está acontecendo.

Expressando estas preocupações, mencionou-se, há alguns anos, a necessidade de uma reconstituída Europa, capaz de certificar seu empenho para as diferenças cidadãs, uma Europa com inúmeras cidadãs e não, necessariamente, Estados Unidos, uma Europa com pólos de tensão cidadã mais do que uma Europa dos capitais, uma Europa não com formação de centro, mas, descentralizada. Se não existisse nestas ideias simplesmente e unicamente a tática de atribuir aos insatisfeitos algo para enganá-los, enquanto e simultaneamente, a implacável lógica do mercado seguiria seu caminho, embora, essas ideias gerariam reais movimentos para a compreensão de uma brilhante e multifacetária Europa e de suas multifacetárias e brilhantes relações cidadãs com o restante do mundo, então somente poderíamos deter no fundo do coração a esperança para a viabilidade de uma Europa generosa e, realmente viva.

A responsabilidade dos líderes políticos da União Europeia não poderão e não deverão restringirem-se a mais ou menos bem-sucedida solução dos problemas econômicos quando, simultaneamente, os problemas sociais estão examinados muitíssimo, ou para sermos mais verdadeiros, com indiferença. Há pouco tempo um líder da indústria francesa me dizia: “para os temas sociais, meu prezado senhor, sou indiferente totalmente...”

Não é o lugar e o momento para falarmos sobre alguns destes problemas, como o desemprego, a insegurança, a marginalização, as aposentadorias, os incontáveis problemas sem solução da assistência hospitalar e e o pleno fracasso da educação em massa. Restringido dentro dos limites do tema, prefiro constatar-me impressionado com o fato da inexistência de qualquer alusão nos problemas de civilização a cada vez que é discutido o labirinto total dos problemas sociais.

Todos sabemos que as fronteiras entre a política e a economia têm sido abolidos. O lucro, o qual, no planeta inteiro, plana sobre nossas cabeças como certa feita acreditávamos que o Espírito Santo planava sobre a água, não surpreende mais. Porém, penso que devemos reconhecer que, sob sentido mais amplo, uma revisão realmente, integral daquele que é caracterizado “social” não será possível se a separação cidadã da própria existência social não tem sido totalmente, aceita. Não como um espaço físico distante, com fronteiras, alfândegas e preços protetores, mas, como uma amadurecida teia de identidade de qualquer indivíduo pertencente a um grupo, um país, uma civilização.

Uma Europa das muitas civilizações, uma Europa descentralizada, uma Europa das diferenças seria obrigada pela sua natureza de manter uma relação de divisão drástica entre as diferentes civilizações que a compõem, todas as civilizações, sem exceção deveria respeitar o espaço físico de cada um como acompanhante de marcha com plenos direitos, sem submissão a outros, os quais, igualmente por motivos políticos e estratégicos, comportam-se de forma imperialista, impulsionados por um “graças a deus direito”, desfrutando de todos os privilégios, sem esquecermos os privilégios, abusivamente, materiais, os quais, qualquer tipo de hegemonia, habitualmente, favorece.

Uma Europa assim, afinal novamente rejuvenescida, alvo de um complexo diônimo do qual, outra caracterização seria o mundial, finalmente, não seria jamais colônia cidadã de outros e sequer dominada por um ou dois países europeus. Esta Europa por fim novamente rejuvenescida seria a Europa do poliformismo das civilizações, uma Europa viável, sem centro, uma Europa dos cidadãos e não dos clientes, ou, mais simplesmente, uma Europa de cada um. Sem discriminações que matam, sem hegemonias que assassinam, algo que pressupõe, obviamente, a necessidade de uma nova idéia de democracia, se bem que ainda existe uma no mundo que enfrentará com coragem uma tão gigantesca missão. Proponho uma discussão geral sobre a democracia, se não preferimos a ruína da Europa.

José Saramago

Famoso escritor português Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Faleceu em 18 de unho de 1910.