Qual é a causa?

Espancamento por seguranças do Metrô de São Paulo, turismo na seca e receita forçada de opioides.

Empresa Cidadã / 19:38 - 3 de set de 2019

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– “A partir do engajamento com os públicos de interesse, definimos diretrizes estratégicas e um plano de ações para garantir que a operação e a expansão da rede signifiquem respeito à qualidade de vida, ao meio ambiente e aos aspectos sociais.” Assim, entre aspas, está na página 4 do relatório de sustentabilidade do Metrô SP (transparencia.metrosp.com.br).

A “população em situação de rua” de São Paulo deve estar pedindo à diretoria do Metrô SP e aos seus jagunços da segurança para, da próxima vez que quiserem fazer o engajamento com os públicos de interesse, como ela também é, que podem deixar os cassetetes e os tacos de basebol em casa.

Triste espetáculo proporcionou a “segurança” do Metrô SP, na segunda-feira, 2 de setembro de 2019, em um covarde espancamento de meia dúzia de gatos pingados por uma tropa de agentes bem fardados e mal instruídos (ou mal acostumados). João Agripino da Costa Doria Junior, o governador de São Paulo, em cuja alçada do poder público está primeiro depositado o dever de prevenir a incidência reiterada das inúteis agressões, passadas 24 horas do ato covarde, ainda não disse nada aproveitável.

Em julho de 1987, quando foi presidente da Embratur, levou 48 horas para desmentir que falou o que falou: a seca do Nordeste poderia ser transformada em ponto de visitação turística. Acrescentou que recursos previstos para a irrigação poderiam ser desviados para financiar a construção da infraestrutura para a visitação. Onde estará agora João Agripino da Costa Doria Junior? Estaria voando. Nada mais presumível para quem encabeça a lista dos jatinhos mais caros financiados com o dinheiro público do BNDES (R$ 44 milhões em 2010), seguido por JBS, Neo Táxi Aéreo, Construtora Estrutural, lojas Riachuelo e Eurofarma Laboratórios, entre outras.

 

A dúvida...

Fatos como os descritos, entre tantos outros, têm levado algumas pessoas a se perguntar qual a causa da paciência incomum do brasileiro ante a subtração de direitos trabalhistas e direitos previdenciários duramente conquistados no passado, ante a resposta de autoridades aos incêndios florestais e à impunidade de milicianos, ante o nepotismo, ante a subordinação internacional indigna, ante as incursões contra o ensino e a pesquisa, etc., etc., etc. Até cogitar da disposição de opioides na água de uso coletivo, já se cogitou.

 

Johnson & Johnson

Em mais uma dessas decisões judiciais que surpreendem pelo tamanho da corporação condenada e também pela boa imagem que cultiva, na segunda-feira, 26 de agosto de 2019, a Justiça do estado de Oklahoma (EUA) condenou a Johnson & Johnson a pagar multa de US$ 572 milhões por promover de forma enganosa o uso de analgésicos que, apesar de legais, viciam e causam dependência. Fabricantes de opioides dos EUA respondem a quase 2 mil processos do mesmo tipo, causando por isso, apreensão entre eles. A importância da punição é mais de efeito moral, já que o valor fixado ficou aquém do cogitado, de até US$ 2 bilhões.

O juiz Thad Balkman considerou em sua sentença fatores como difusão da dependência desse tipo de analgésico, cerca de 6 mil vítimas fatais de “overdose”, desde 2000, e casos de síndrome de abstinência neonatal. A arrecadação com a multa será destinada a programas de combate à prevenção e tratamentos de vítimas da epidemia no estado, pelos próximos 30 anos. A Janssen, divisão médica da J&J, produziu o adesivo Duragesic (Fentanil) e comprimidos de Nucynta (à base de Tapentadol), os opioides de maior circulação nos EUA. Outro laboratório, o Purdue, antecipou-se através de um acordo de US$ 270 milhões, com o estado de Oklahoma, já que é produtor de outro opioide muito vendido, o Io Oxycontin (à base de Oxicodona).

Em todo o país, foram registradas 70.237 óbitos por overdose, em 2017, das quais 47.600, pelo abuso de opioides, 13% superior ao número verificado em 2016.

 

No Brasil...

Tratamos na edição de 3 de abril de 2019 da coluna Empresa-Cidadã (“Você confia no Osmar? ou, um raio não cai duas vezes...”) do “3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira”, pesquisa realizada pela Fiocruz durante três anos, com a realização de 16 mil entrevistas e empenho de 500 pesquisadores, ao custo de R$ 7 milhões. Só que, dizendo que “não confia no estudo”, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, mandou engavetá-lo. Hoje, com o desdobramento da epidemia de opioides nos EUA, com as punições às corporações de lá, fica mais claro identificar em quem o ministro confia e o que tentou ocultar com o engavetamento do relatório.

No Brasil, também se observa o crescimento exponencial do número de pessoas que usam analgésicos A pesquisa da Fiocruz, censurada pelo governo revelou este fenômeno. O relatório do “3º Levantamento...” indica que 4,4 milhões de brasileiros já fizeram o uso indevido (sem prescrição médica) de algum opiáceo. Esse número, correspondente a 2,9% da população, é três vezes superior ao de usuários de crack, utilizado por 0,9% da população em algum momento de sua existência. Visto por uma ótica mercadológica, o cenário que se descortina é assustador. No Brasil, 40% da população sofre com dores crônicas (resistentes por mais de 3 meses), logo, há 84 milhões de pessoas nesta condição. Um enorme mercado para os analgésicos à base de ópio.

Outra pesquisa, publicada no American Journal of Public Health, utilizando dados da Anvisa, mostra que a venda com receita médica desses opiáceos cresceu 465%, em seis anos. Os derivados da codeína representam 98% das receitas. Ela é considerada um opioide leve, indicado para dores moderadas. Seu derivado mais vendido é o Tylex, havendo quem considere a possibilidade dele servir como um degrau para opioides mais fortes. Não é de espantar, portanto, que o maior crescimento relativo tenha sido de um comprimido mais forte (e perigoso) da família dos opiáceos, a oxicodona. E a indústria farmacêutica continuou forçando a porta. Prêmios para os médicos que receitam mais, nas formas de viagens e verbas para pesquisa, descontos para usuários constantes etc. Sob esses incentivos, passaram a dar oxicodona a pacientes muitos jovens e com problemas simples.

A Purdue Pharma investiu, em escala planetária, para quebrar a resistência dos médicos aos derivados do ópio. A MundiPharma, o seu braço internacional, chegou ao Brasil em 2013. Lançou um programa de descontos para o OxyContin e outros medicamentos. A empresa também patrocina a Sociedade Brasileira Para Estudo da Dor, entidade que recebe aporte de outras fabricantes de analgésicos opioides: a Zodiac (fabricante do Paratram), a Grunenthal (fabricante do Tramal) e a Libbs (fabricante do Sensitram).

A venda no Brasil é controlada, mas prá tudo há um jeito. Diferente dos psicotrópicos, como o Rivotril, a oxicodona tem tarja vermelha, a mesma que serve para antibióticos e remédios para hipertensão. E pode ser receitada por médicos de qualquer especialidade.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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