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Quadrilhas juninas

No arraiá chamado "marché", as empresas também evoluem conforme o ritmo estipulado pelos sanfoneiros.

Empresa Cidadã / 20:12 - 11 de Jun de 2019

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Neste mês de junho, em que estão sendo revelados detalhes vergonhosos (para quem tem vergonha) da trama criminosa entre membros do MP do Paraná e o então juiz Moro, hoje ministro da Justiça (!), no propósito ilegítimo de eleger o capitão (quem sabe tenente...), nada mais oportuno do que repetir o título “Quadrilhas juninas”. Neste mês, o Brasil vira um só arraiá. É a época de uma das suas festas mais populares, dos santos juninos e das quadrilhas juninas. No arraiá chamado “marché” (mercado), as empresas também evoluem conforme o ritmo estipulado pelos sanfoneiros.

A dança é inspirada na “quadrille”, daí a denominação quadrilha, que pode ser um oligopólio, ou um cartel, dançada na corte francesa no século XIX. Todos os passos têm as suas denominações também derivadas deste idioma.

 

Primeiro passo, ‘anarriê’!

Do francês “en arrière” (para trás). A este comando, o grupo evolui aos pares para o centro de uma roda, onde, ao chegarem, separam-se, caminhando para trás. No arraiá do “marché” (mercado), cada empresa olha para o seu par e concorrente e pensa: “Se ele vai, eu não vou ficar para trás”, mas quando está chegando ao centro da questão, muitas delas desistem, caminham para trás e sorriem para a assistência.

 

Segundo passo, ‘anavan’!

Do francês “en avant” (avancem). Qualquer semelhança fonética,é mera semelhança. Este comando indica que homens e mulheres devem avançar, até reencontrarem os seus pares. No arraiá do “marché” (mercado), a evolução também não é linear, podendo acontecer por determinação ou por arrependimento. O par pode ser concorrente, mas acima disto, pode ser companheiro (um duopólio). Só a cooperação com ele permite seguir dançando a quadrilha, por mais tempo.

 

Terceiro passo, ‘balancê’!

Do francês “balancer” (balançar). Comando para que os dançarinos marquem passo, sem sair do lugar. No arraiá do “marché” (mercado), a disposição de dançar não assegura a evolução dos pares. Acontece de haver esforço, queimar recursos e não sair do lugar. Os norte-americanos conhecem mais como “lock-out”. Continuar marcando passo sem evoluir, indefinidamente, no entanto, só como farsa.

 

Quarto passo, ‘travessê’!

Do francês “traverser” (atravessar). A partir deste comando, os pares, divididos em duas colunas, vão até o centro da roda, formam um trançado e daí, seguem para o lado oposto ao que estavam inicialmente. No arraiá do “marché” (mercado), empresas que se proporcionam as possibilidades do trançado da diversidade chegam mais longe.

 

Quinto passo, ‘tur’!

Do francês “tour” (giro). Com este comando, o homem abraça a cintura da dama que coloca o braço no ombro dele e, juntos, dão uma volta. No arraiá do “marché” (mercado), a realização do giro também depende da aproximação entre as partes interessadas.

 

Sexto passo, ‘changê de dame’!

Do francês “changer de dame” (trocar de dama). Este é o comando para que o círculo se movimente, com a alternância na formação dos casais. No arraiá do “marché” (mercado), só com as trocas de valores entre partes interessadas, a empresa consegue se movimentar.

 

Último passo, ‘à la vonté’!

Do francês “a (la) volontê” (à vontade). Este é comando que realiza a diversão para quem, até aqui, cumpriu a marcação de todos os passos. No arraiá do “marché” (mercado), é a diferença entre brincar à vontade ou dançar. Quem observou os procedimentos de valorização da diversidade e interagiu com as partes interessadas, brinca à vontade. Quem não observou, dança (“foutre”).

 

A quadrilha da renúncia fiscal

Acontece quando o governo abre mão de arrecadar de empresas, a chamada renúncia fiscal, também conhecida pela sigla “Refis”, ou “molezinha para os amigos”. É oferecida na modalidade inadimplência contumaz, que segundo o Tribunal de Contas da União (TCU) alcançou a cifra imodesta de R$1 trilhão (aproximados). Ainda segundo o relatório, 84% da renúncia fiscal não tem prazo para acabar e equivale ao déficit da Previdência, mais o valor das aposentadorias dos servidores federais. No mesmo ano. Como “nada é tão ruim que não possa piorar” (uma das leis de Murphy), o TCU aponta que 44% do montante não são objeto de qualquer fiscalização.

Como a renúncia fiscal é praticada sem o estabelecimento de contrapartidas, seja em número de empregos gerados, em desenvolvimento de tecnologia ou em avanços nas condições de sustentabilidade (como a substituição de fontes de energia), não há como avaliar a sua eficácia, a não ser através de suposições baseadas em padrões superados de empresas que negligenciam aspectos como o da utilização de plantas empresariais cada vez mais robotizadas, atualmente insignificantes na superação do desemprego.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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