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Precisa-se de oposição – 3: Nação sob o poder de um sistema

Por Pedro Augusto Pinho.

Opinião / 19 Fevereiro 2019 - 20:02

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Se estivesse escrevendo sobre o comunismo, uma proposta de mundo como o neoliberalismo, mesmo sem que me entendessem, encontraria provavelmente maior compreensão. Pois, por todo período de dominação estadunidense no Brasil, o exemplo do mal, do inimigo a combater, foi sempre o comunismo.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi a mais forte oposição aos Estados Unidos da América (EUA) e era mais fácil combater seu regime, ideias que nem sempre correspondiam à realidade, do que o povo ou a Nação. Observe hoje a dificuldade de se combater um Estado racista, belicista, discriminador e religioso, como Israel, sem que se veja acusado de antissemita ou de inimigo do povo judeu.

O sistema financeiro internacional, a banca, é uma ressurreição, tecnologicamente adaptada e com novos objetivos, do financismo inglês do século XIX. Aquele buscava o empoderamento e o domínio político, a banca quer se apossar de todas as rendas, de qualquer origem, inclusive as ilícitas, e promover a permanente concentração de renda para uma classe sem pátria. Suas duas maiores armas, não excludentes, são a dívida e a corrupção.

 

Poder, governo e oposição nem

sempre se apresentam com nitidez

 

Apossar-se dos Estados Nacionais é meta para objetivos estratégicos e operacionais. Os Estados Nacionais, na defesa dos seus habitantes, irão, inapelavelmente, reduzir os lucros da banca. Isto os neoliberais não permitem. Também desenvolverão burocracias próprias, resultantes de suas culturas. Será enorme o trabalho da banca, com atuação planetária, se adequar aos diversos controles, tributos, processos etc. Um único, simples, pouco eficiente e universal sistema é o desejado pela banca.

Também, e esta é uma característica importantíssima, a banca, o neoliberalismo, vive da fraude. Observe, caro leitor, quem, em sã consciência, sem estar corrompido ou envolvido pelo sistema financeiro, irá preferir o maior lucro para poucas pessoas, os acionistas ou rentistas, do que o progresso, o desenvolvimento tecnológico, científico ou industrial do país ou de estratégicos segmentos nacionais?

O engenheiro químico Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), em artigo muito bem fundamentado, de junho de 2016, “O fracasso da gestão das multinacionais do petróleo e as lições para a Petrobras”, demonstra que as “sete irmãs”, atualmente denominadas majors, big five ou International Oil Companies (IOCs) – ExxonMobil, Shell, Chevron, BP e Total – vêm reduzindo suas produções, não conseguem repor as reservas de petróleo e perderam a capacitação tecnológica para as estatais e para outras empresas ligadas ao petróleo. Por quê?

Porque passaram, em primeiro lugar, a destinar a maior parcela do lucro para remunerar os acionistas. Os acionistas destas companhias, como de quase todas as grandes empresas de todos os seguimentos industriais e comerciais do mundo, são fundos de investimentos: BlackRock, Vanguard, Charles Schwab, JP Morgan, State Street, Fidelity e Allianz (todos estes com mais de US$ 2 trilhões aplicados, agosto/2018) entre diversos outros. Para estes acionistas, o que importa é a máxima remuneração.

Os antigos dividendos anuais, hoje com percentagens muito maiores sobre os lucros, são distribuídos em quadrimestres, trimestres ou menores tempos, com evidentes repercussões no caixa das IOCs.

A Petrobras, sob gestão neoliberal, distribuiu em 2018 os seguintes dividendos/juros sobre o capital próprio: em 25/maio e 23/agosto, R$ 0,05 por ação (on e pn) a cada data, totalizando R$ 1,304 bilhão; em novembro/2018, R$ 0,10 por ação (on e pn), representando R$ 1,304 bilhão; e, em dezembro/2018, R$ 0,05 por ação ordinária e R$ 0,70 por preferencial, agora no total de R$ 4,29 bilhões.

Com menor investimento, quer nas operações quer em tecnologia (pesquisa & desenvolvimento), as majors vão perdendo espaço e competitividade na área do petróleo. Passam então a corromper governos para se apropriarem de empresas ou segmentos de empresas eficientes e rentáveis. A entrega do pré-sal e a campanha para venda de refinarias da Petrobras são resultados do poder da banca sobre o governo brasileiro.

Como se observa no exemplo, não é o interesse econômico ou geopolítico de um Estado Nacional que prevalece. É o interesse de dominação mundial – a banca se apresenta como global – e da concentração de renda em um sistema (financeiro), como se vê na propriedade de diversas empresas (Ford, General Motors, Amazon, AT&T, Glencore, Apple, Exor, United Health, Novartis, Sanofi etc.) que também distribuem gordos dividendos e bônus a seus dirigentes.

Hoje, na polaridade Poder vs Oposição, ressalta o fortalecimento dos Estados Nacionais contra a banca e seu neoliberalismo. Os EUA, com a presidência de Donald Trump, vive conflito interno de poder. De um lado, o presidente querendo ressuscitar o velho Imperialismo Estadunidense; de outro, a banca, que vem aparelhando o Estado desde Ronald Reagan com objetivos nem sempre convergentes com os nacionais dos EUA.

Vejamos um exemplo de nossa História recente, quando tivemos oposição ao poder e ao governo. Em 1963, João Goulart (Jango) assume, com poderes presidenciais reconquistados, o governo. Mas seu programa de reformas de base contrariava os interesses do poder de então, a indústria e a geopolítica estadunidense – Poder de Estado Nacional.

Jango era portanto a oposição ocupando o governo. Dá-se o golpe de 1964 para repor no governo um representante do poder. No entanto, parcela expressiva das Forças Armadas (FFAA), desejosa de um Brasil Potência, se alia aos industriais e outros capitais nacionais, levando o general Costa e Silva ao governo. Há um acerto com o poder, que já está enfraquecido (recordem as ações da banca).

O governo seguinte, do general Médici, descontente com a atuação dos capitais privados, mais voltados para seus enriquecimentos do que para o desenvolvimento da Nação, inicia um modelo de maior participação estatal. De certo modo é um getulismo que será ampliado com o general Geisel. Agora, já em oposição ao poder estadunidense. Mas, no mundo, o sistema financeiro se empoderava na luta contra o poder industrial, então o mais forte nos EUA. E quem vai aplicar o golpe no presidente Geisel é a banca e não, como em Jango, os EUA.

Como se observa, poder, governo e oposição nem sempre se apresentam com a nitidez que a percepção popular alcança. Depende de cada instante e dos atendimentos à enumeração hierarquizada que apresentei no artigo anterior (Precisa-se de oposição – Nação sob poderes nacionais estrangeiros) e agora repito:

a) constituir um Estado Nacional Soberano;

b) libertar todo povo das diversas formas de escravidão;

c) construir a cidadania brasileira;

d) garantir segurança e justiça para toda população; e

e) buscar os ideais de paz, de desenvolvimento e de justiça como valores para sociedade.

Dar prioridade para questões identitárias, sem que haja um Estado Soberano, sem escravos, é, de algum modo, fazer o jogo do poder de nação estrangeira ou de sistema. Ou seja, não se qualifica como oposição.

Em relação à banca, há uma dificuldade adicional. Como mencionei, a fraude é o discurso da banca; a corrupção e as dívidas, suas armas. Os prezados leitores encontrarão a banca, o sistema financeiro, participando de governos socialistas, como de François Hollande, e conservadores, como Nicolas Sarkozy, de seus representantes, como Collor e Fernando Henrique Cardoso, e de coniventes com ela, como de Lula e Dilma.

Também a banca usará estruturas de Estados Nacionais que ela, ainda que parcialmente, domine – como os órgãos de inteligência ingleses e estadunidenses – para golpes e insurreições em outros países. As primaveras árabes e “revoluções” na Europa Central são exemplos.

Para a fraude, a banca também usa a distinção suporte/semântica ou significante/significado, da comunicação, para confundir conceitos e percepções. Chama de ditadura o Governo da Venezuela, mas não chama de ditador o rei da Arábia Saudita, onde não há eleições nem parlamento, e tem o modelo absolutista, como os anteriores à Revolução Francesa.

A banca é também um retrocesso social; a uberização, a pejotização do trabalho. Sob a semântica da liberdade, se esconde a escravidão. A competitividade é o combate sem trégua entre os semelhantes, pois apenas um ficará com o ganho. Os demais são figurantes, perecíveis. É o caminho da morte do emprego, do negócio, da própria vida. E como descreveu com maestria o sociólogo Pierre Bourdieu, a igualdade competitiva é uma impossibilidade em sociedades de classes.

A demografia é inimiga da banca. Esta não resistirá à pressão populacional. Disto decorre os incentivos a guerras e a provocações bélicas. A banca lucra com a venda de armas, com financiamentos aos industriais da morte, e, acima de tudo, com a eliminação física dos que a pressionam por vida e comida.

Grande número de nações, como o Brasil, a Argentina, o Chile se curvaram ao domínio da banca. Os resultados, por mais que se procure esconder, são o desemprego e a miséria. Na França, sob a banca desde François Mitterand (1981–1995), surge um movimento de classe média, os coletes amarelos (gilets jaunes) que vem, há três meses, tomando as ruas, estradas e estabelecimentos por todo país, em oposição à banca.

Estados Nacionais como a Rússia, o Irã, a Bolívia se organizaram para enfrentar a banca. Opor-se à banca, é hoje, ser oposição.

Conclusão

Julian Huxley (1887–1975), primeiro diretor-geral da Unesco, em artigo de 1968, “Crise no destino do homem”, afirma: “A mais surpreendente característica do presente momento da História é a de que as coisas estão acontecendo cada vez mais depressa”.

Neste sumário sobre as oposições, vimos como elas vão se definindo diferentemente, analisamos uma sociedade ainda impregnada por conceitos medievais e como, em apenas um século, o poder mudou três vezes no Brasil, passando de Estados Nacionais – Inglaterra e EUA – a um sistema – a banca.

Huxley continua, inquirindo: “Onde nos estão levando essas transformações ofegantes? Serão elas sinônimo de progresso, como muitos tecnologistas e desenvolvimentistas nos querem fazer crer?” A resposta daquele biólogo é não. “A transformação de hoje é demolidora (...) muitas são autolimitadoras ou mesmo autodestruidoras”.

O ideário humanista, como de resto qualquer proposição em benefício da sociedade humana, não se restringe nem é mais relevante no espiritual, e isso se acreditarmos na transcendência. Ele se concretiza no espaço físico da existência. Por isso a constituição de Estados Nacionais Soberanos é o primeiro passo para qualquer vida boa que se pretenda. E a banca, como vimos, é demolidora destes Estados.

Soberania e Cidadania nos parecem o lema da oposição, hoje. Muito mais do que democracia ou formas de governos. Para que um Judiciário que apenas convalidará as iniquidades perpetradas pela banca? Como eleger num sistema de fraudes na comunicação de massa e suspeitas na apuração dos votos?

Mas, efetivamente, falta oposição no Brasil atual. Não de oposição de esquerda ou de direita ou camuflada de democrata, mas para lutar pelo Estado Nacional Brasileiro Soberano.

 

 

Pedro Augusto Pinho

Administrador aposentado.

 

 

 

Última parte da trilogia iniciada com “Precisa-se de oposição – 1” e “Precisa-se de oposição – 2: Nação sob poderes nacionais estrangeiros

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