Prá ontem!

Empresa-Cidadã / 05 Dezembro 2017

Estudo realizado sobre o número de vítimas e sobre as perdas decorrentes de acidentes de trânsito, realizado pelo Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (www.cpes.org), da Escola Nacional de Seguros, com base nos dados do DPVAT, o seguro obrigatório, revela que, em 2016, houve 33.347 mortes e 28.032 casos de invalidez permanente no Brasil. As perdas com os acidentes de trânsito foram de R$ 146,8 bilhões, equivalentes a cerca de 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB).

 

Apesar de catastróficos os números revelam uma redução de 32,35% em relação ao ano anterior, quando foram registradas 42.501 mortes e 57.798 casos de invalidez permanente. As perdas, em 2015, foram estimadas em R$ 217,11 bilhões, equivalentes a 3,7% do PIB.

 

A estimativa de perdas do CPES não inclui gastos com atendimento hospitalar, nem com a reabilitação. Sabe-se que um paciente com trauma na coluna necessita de um programa multidisciplinar de atendimento, que envolve profissionais como psicólogo, assistente social, médico, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e musicoterapeuta, representando um custo de R$ 3.658 para dois atendimentos por semana, multiplicado pelo número de meses que perdurar o tratamento.

 

Se a frequência for de três vezes na semana, o dispêndio é de R$ 5.500 por mês e assim segue aumentando com a frequência do atendimento. O tratamento de um paciente com lesão medular pode chegar a até dois anos. Mas o ônus maior não é o financeiro.

 

Delivery da morte

Desde 2008, os acidentes envolvendo o uso de motocicletas respondem por 73,5% dos casos de invalidez e 36,3% do número de mortes, de acordo com números do DPVAT. A promoção da pizza de graça, se não chegar rápido, pode se tornar um delivery da morte. Ou os documentos que têm que ser entregues nas empresas e assinados “prá ontem”.

 

No mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima o número de vítimas fatais por acidentes no trânsito em 1,3 milhão de pessoas, anualmente, em todo o mundo. Estes números levaram a ONU a lançar, em 2011, a Década de Ação para Segurança no Trânsito, associada à meta de redução pela metade no número de mortes, até 2020. Medidas inadiáveis de segurança viária precisam ser cotejadas e implementadas, com base na efetividade, apurada a partir da relação entre benefícios e custo de recursos escassos. Estudo realizado pela empresa internacional de consultoria McKinsey (http://mckinseyonsociety.com/downloads/reports/Social-Innovation/Road%20Safety_090313.pdf), com a participação e divulgação do Observatório Nacional de Segurança Viária (www.onsv.org.br) e da Universidade Federal do Paraná (www.ufpr.br), coteja diferentes alternativas de intervenção, visando à segurança viária. Assim, foram comparadas soluções de legislação, educação, engenharia de tráfego, infraestrutura e segurança veicular.

 

Legislação

Neste grupo, as cinco medidas de maior efetividade (apurada pela relação entre fatalidades evitadas e efetividade monetária da aplicação) são (pela ordem): aumento no valor das multas; severidade nas leis; multa por estacionamento proibido; multa por excesso de velocidade; e obrigatoriedade de exame de sangue para acidentados.

 

Educação

A representatividade das medidas do grupo educação decorre também do baixo custo de implementação. As cinco medidas de maior efetividade são: educação nas escolas; patrulhas de pais nas escolas; educação para segurança viária, educação para adultos; e informação e campanhas de controle (ICC) para pedestres.

 

Engenharia de tráfego

Este grupo inclui ações de baixo custo de implementação e alta efetividade, assim como medidas de alto custo e baixa efetividade. As cinco medidas mais efetivas são: alinhamento de sinais verdes; restrições ao tráfego de veículos pesados; renovação das sinalizações; moderação do tráfego; e áreas de 30km/h.

 

Engenharia de infraestrutura

Este grupo de medidas figura de forma desprivilegiada quanto à representatividade, em consequência dos elevados custos de implementação, apesar de apresentar efetividade na redução de vítimas do trânsito. As cinco medidas de maior efetividade são: iluminação de calçadas; guarda-corpo para pedestres; travessias elevadas; implantação de semáforos; e iluminação de vias.

 

Segurança veicular

Este grupo é o que conta com o menor número de medidas de elevada efetividade e de redução de acidentes anuais. As cinco medidas de maior efetividade são: álcool-lock; vestuário protetor para motociclistas; padrões de segurança veicular; alerta de velocidade; e airbag para motocicletas.

Embaralhando as medidas dos cinco grupos, a de maior efetividade monetária é a de aumento no valor de multas, e a de menor efetividade é a de construção de viadutos. A medida de maior efetividade na redução do número de fatalidades é a de restrições ao tráfego de veículos pesados, e a de menor efetividade na redução de fatalidades é a de instalação de alerta de pedestres, seguida de perto pela medida de construção de viadutos.

 

Paulo Márcio de Mello

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

http://pauloarteeconomia.blogspot.com