Ponto crítico

Opinião / 14:29 - 22 de jan de 2001

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Quando apresentamos uma proposta de política de transporte de passageiros para o Grande Rio, em julho passado, a reação foi de entusiasmo geral, por parte dos públicos interno e externo. Afinal, o setor esteve relegado a segundo plano nas preocupações de todos os governos do Estado, nos últimos 25 anos. E, mesmo no programa do governo Garotinho, o transporte público não teve a prioridade e o volume de recursos que mereceu a segurança pública, ou a educação, que dispõe de recursos vinculados. Ainda assim, há muito dinheiro destinado ao transporte: um empréstimo do Banco Mundial e outro do BNDES, com os recursos de contrapartida do Estado, significam a disponibilidade de mais de R$ 1 bilhão para aplicação nos trens suburbanos e no metrô. O problema são os atrasos na execução dos projetos para o sistema ferroviário, que, após dois anos, ainda não permitiu atender a 500.000 passageiros/dia, como estava previsto. A burocracia exigida pelo Banco Mundial e pelos controles do governo estadual é terrível e precisa ser simplificada, sob pena de não se conseguir recuperar o atraso de quase dois anos. Já no que diz respeito ao metrô, o meio de transporte mais valorizado pelos cariocas, por seu conforto, segurança e pontualidade, a dificuldade é fazer com que o operador privado saia da posição cômoda de "esperar sentado" novos investimentos públicos. A expansão da rede atual aumentaria o volume de passageiros e suas receitas, permitindo que o operador evolua para a condição de investidor e participe do esforço de levar o metrô até Ipanema e de duplicar o trecho Estácio-Carioca. O projeto do metrô de Niterói a São Gonçalo, cujo edital de concessão já está na rua, pode mudar o quadro atual de lenta expansão da rede, que cresce ao ritmo de apenas cerca de um metro por dia. Se as expectativas do governo forem correspondidas pelos investidores, em apenas dois anos a rede de metrô crescerá quase 63%, exatamente numa região que até aqui não recebeu as atenções que merece. Outro projeto do maior interesse é o metrô ligando a Barra até a Ilha do Governador - passando por Jacarepaguá e Madureira, e interligando as linhas ferroviárias e a linha 2 do metrô - ou seja, mais 22 km de rede, que revolucionarão a dinâmica dos deslocamentos da Cidade. Para isso é preciso iniciar imediatamente os estudos necessários ao chamado Projeto Básico, e a partir daí lançar a licitação no segundo semestre deste ano. Com isso seria possível começar a construção no fim de 2.001, ou início de 2.002. Este projeto, por sua magnitude e importância deveria ser conduzido em parceria pelos governos do Estado e da Cidade do Rio (Prefeitura). Ficam faltando os ônibus intermunicipais e municipais, que se quer enquadrar numa nova sistemática, racionalizando-se sua operação, de modo a prestar melhores serviços, integrando-os com os demais modais e barateando as tarifas para os passageiros que fazem muitos deslocamentos. Tudo seria uma maravilha, não fossem as reações negativas de certos empresários de ônibus que se consideram donos do mercado de passageiros e não admitem perder posição. Lamentavelmente, tais interesses dispõem de fortes apoios nos três Poderes, com representantes que estão dispostos a defender a posição dos empresários sobrepondo-a às necessidades da população. Evidentemente, isso não é de graça... Agora estamos num ponto crítico do processo, no qual as forças da inércia se organizam para tentar impedir as transformações que se impõem para garantir ao Grande Rio condições de transporte à altura de sua importância sócio-econômica. Luiz Alfredo Salomão Secretário Estadual de Transportes

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