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Políticos em greve

Economistas conservadores esperam que Governo Bolsonaro faça todas as maldades imediatamente

Conversa de Mercado / 30 Novembro 2018

O PIB cresce, apesar da paralisia política. Mesmo com a falta de boa vontade para votar qualquer coisa relevante no país e resolver os conflitos distributivos, a economia deu um suspiro maior neste terceiro trimestre, indicando que os próximos meses devem ser de retomada. No período, o produto brasileiro subiu 0,8%, o melhor desempenho trimestral desde os três primeiros meses de 2017. Em relação ao 3º trimestre do ano passado, a alta foi de 1,3%.

Com a melhora, a economia volta para o patamar que se encontrava no primeiro semestre de 2012. Destacam-se o crescimento do consumo das famílias (0,6%), o aumento dos investimentos (6,6%) e das exportações (6,7%). “É preciso mudar o padrão de crescimento. Não estamos mais em 2015 ou 2016, em que o PIB estava caindo mais de 3%, mas em 2017 e 2018, e a economia está crescendo acima de 1%, o que é uma boa estimativa agora do PIB potencial. Queremos que pule para algo mais próximo de 3%”, afirma o professor e coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-Eesp, Marcelo Kfoury.

Garantir a continuidade deste movimento requer sanear as contas públicas, ou seja, solucionar os conflitos distributivos. Nos próximos anos, será preciso encontrar 4% do PIB brasileiro, cerca de R$ 300 bilhões, para sair do déficit para o superávit primário. O passo inicial foi dado no segundo mandato de Dilma e Temer, mas o movimento só não conseguiu avançar mais por conta da “greve dos políticos” que se recusaram a ver a realidade.

Na avaliação do economista da FGV Ibre Samuel Pessoa, a crise política dramática vivida pelo país desde meados de 2014/2015, gerou este movimento. “Desde 2015, não enfrentamos o problema do conflito distributivo. Portanto a dívida pública cresce como uma bola de neve. Se esse problema não for enfrentado em dois ou três anos, a inflação vai voltar e bem-vindos aos anos 80. É um atraso institucional de quase três décadas. Me dá medo imaginar que vou acordar em um país que nem a Argentina, com 45% de inflação anual. Este risco é real”, alerta.

A teoria econômica é silenciosa quanto ao que é melhor para resolver o conflito distributivo: aumentar carga tributária ou reduzir gastos. “Não há uma função de bem-estar social que avalie qual pacote de política pública é melhor. Só quem pode fazer isso é a Politica, com P maiúsculo”, diz. O movimento de retorno da inflação tem sido minimizado pelo tamanho das reservas internacionais, que faz com que o processo de desvalorização do câmbio melhore a situação patrimonial do setor público e, portanto, produza um amortecimento nos desarranjos da rejeição de ajustar apolítica fiscal.

Estamos numa sociedade que desenhou um setor público e que estabeleceu bases tributárias para financia-lo, mas uma coisa não conversa com a outra. Tem que mudar um lado ou outro ou um pouquinho de cada. Senão fizermos isso, vamos para a inflação. O motivo que eu tenho para ser mais otimista é que há estímulos para que o Governo Bolsonaro faça todas as maldades imediatamente. Se ele fizer, coloca a economia para crescer”, explica Pessoa.

Caso isso ocorra, há a possibilidade de reeditar com o Bolsonaro o cenário que aconteceu no Brasil no ano de 2003. “Você arruma a casa e colhe um monte de coisas boas que foram feitas pelo governo anterior. Tem muita reforma e muita coisa boa para ser colhida que ainda não colhemos porque não resolvemos nosso impacto político mais intenso. Se Bolsonaro fizer o que vai doer no bolso de todos vai colocar a economia para crescer e iniciar um ciclo mais longo de uma certa hegemonia de direita no país, o que eu acho interessante”, conclui.

A ameaça para que nada seja feito está na renovação do Congresso. “Quando olhei o resultado eleitoral e vi a composição do novo Congresso fiquei preocupado. Eu não gostei e não queria nem que houvesse renovação. Desejava que os deputados fossem reeleitos, porque eles sabem do problema e já estão catequizados. Na renovação entrou uma bancada que eu chamo bancada da Lava-jato, composta de gente que acha que o problema fiscal é corrupção”, diz Pessoa.

Não é o combate a corrupção que fará com que apareça R$ 200 bilhões a R$ 300 bilhões nos cofres públicos. São as maldades que mexerão com os bolsos de todos. Mas o pior é que, caso não saiam do papel, a dominância fiscal imperará, o que levará ao retorno da inflação, um extremo retrocesso para a economia brasileira que passou anos lutando pela estabilidade da moeda.