PIB empatado: Mantega (0,1) x Meirelles (0,1)

Conversa de Mercado / 01 Dezembro 2017

Há exatamente três anos, data do início desta coluna, comemorava-se uma leve alta no PIB de 0,1% no PIB brasileiro no terceiro trimestre de 2014 em relação ao trimestre anterior. Na época, esperava-se ansiosamente pelas medidas que seriam anunciadas pelo ministro da Fazenda recém-indicado por Dilma, Joaquim Levy. Seu antecessor, Guido Mantega, deixara a economia praticamente estagnada, inflação próxima ao teto da meta, e a ânsia era por medidas que pudessem reverter os problemas fiscais brasileiros. Levy assumia um cenário problemático: em dez meses, o Governo Central havia registrado déficit primário de R$ 14,567 bilhões. E, sem maiores detalhamentos, ele declarou que para os anos de 2016 e 2017, a meta de superávit não ficaria abaixo de 2%. O resto já se sabe... Levy caiu antes de Dilma, e hoje a economia está nas mãos de Temer e Meirelles.

Mas, com exceção do controle da inflação, que possibilitou o corte da taxa de juros, a batata ainda está quente. Novamente comemora-se outro desempenho medíocre da economia e a saída da recessão, “que levará o país a um crescimento pujante”... blá, blá, blá. Culpa-se o agronegócio pelo pífio crescimento de 0,1% no terceiro trimestre deste ano contra o trimestre anterior. Ironicamente, esta é a mesma variação que se aplaudia há três anos. No acumulado em quatro trimestres terminados em setembro de 2017, o PIB registrou queda de 0,2%, frente aos quatro trimestres imediatamente anteriores. Já no acumulado do ano até o mês de setembro, o PIB cresceu 0,6%, em relação a igual período de 2016.

Segundo Meirelles, o PIB deste último trimestre teria registrado um crescimento maior não fosse o agronegócio, que registrou queda de 3% no trimestre em relação ao anterior. O ministro declarou, via Twitter, que “o crescimento do PIB entre julho e setembro, de 0,1% contra o trimestre anterior, pode parecer baixo, mas é forte se analisado por setores. Sem a agricultura, que caiu por razões sazonais, o crescimento foi de 1,1%”. A indústria teve crescimento de 0,8%, e os serviços aumentaram em 0,6%. Mas deve-se ressaltar que foi o agronegócio que salvou a lavoura nos trimestres anteriores e já era de se esperar que ocorresse um arrefecimento do agronegócio, pois a alta não era sustentável, e o período é de entressafra. Com safras atípicas nas lavouras de milho e soja, o setor cresceu 14,5% no acumulado do ano e foi o responsável pelo 0,6% de aumento da economia no acumulado de 2017. Já na mesma base de comparação, os outros segmentos estão em queda.

Na análise da demanda interna, considerando o resultado acumulado do ano até setembro de 2017, houve queda de 3,6% dos investimentos. O consumo das famílias, maior responsável pelo desempenho da economia, subiu 0,4%, e os gastos do governo recuaram 0,6%. Analisando-se o setor externo, as importações de bens e serviços apresentaram expansão de 3,9%, enquanto que as exportações cresceram 4%. A expectativa é de que haja uma melhora marginal com relação aos investimentos e ao consumo, como fica evidente nos dados do último trimestre do ano. Entretanto, o cenário ainda é de muita insegurança, o que compromete as decisões tanto dos empresários como dos cidadãos. Além disso, os dados de desemprego demonstram que ainda não há uma recuperação significativa na renda do brasileiro.

A possibilidade de a economia continuar em recuperação ainda é duvidosa. Se Levy tinha um problema grande nas mãos chamado déficit fiscal, a situação de Meirelles é ainda pior. O governo está longe de conseguir aprovar a reforma da Previdência, sua principal aposta para conter o crescimento do déficit primário. A dívida pública, que corresponde hoje a 74% do PIB, está em franca expansão e, a continuar assim, o cenário de juros baixos e inflação controlada pode ser revertido. As contas do setor público acumularam um déficit primário de R$ 77,352 bilhões nos primeiros dez meses do ano, o equivalente a 1,43% do PIB. No mesmo período de 2016, o déficit somou R$ 45,912 bilhões (0,89% do PIB). Somente o Governo Central foi responsável por um rombo de R$ 95,908 bilhões (1,78% do PIB).