PIB: da expectativa à realidade

Sem renda, não há consumo, sem consumo não há investimento.

Conversa de Mercado / 18:44 - 31 de mai de 2019

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A divulgação da queda do PIB no primeiro semestre não surpreende e é um simples reflexo dos primeiros 100 dias do governo. Quando a nova presidência assumiu o poder em janeiro deste ano, as expectativas dos economistas eram de que a economia cresceria 2,5% este ano. Agora, os mesmos economistas acreditam que se vier 1%, estamos no lucro. O que mudou? Exatamente nada! Enquanto num primeiro momento, o otimismo tomava conta, a realidade bateu à porta. O governo ainda não mostrou para que veio, as medidas para a retomada se resumem em reforma da Previdência e... a reforma da Previdência não resolve o problema da fraca demanda.

Com a retração de 0,2% do PIB no primeiro trimestre de 2019, fica claro que, sem medidas de estímulo à economia, como uma política monetária mais expansionista e outras que estimulem os principais componentes da demanda, o Brasil continuará patinando nos próximos meses. A mesma tecla continua sendo tocada. Enquanto a bandeira liberal é levantada, um pouco de Keynes não deve fazer mal, vide a proposta de liberação do FGTS. Mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, vê qualquer coisa como “truques, nem mágicas”, como o que chamou de “liberaçãozinha” de recursos, ou corte artificial dos juros.

Com a inflação controlada e dentro da meta, há espaço para um novo corte na taxa de juros (Selic), que, desde maio de 2018, permanece em 6,5%. Mesmo estando bem abaixo da sua média histórica, a Selic ainda se encontra bem acima das internacionais. Cortar mais os juros ajuda, mas é insuficiente para que a economia retome. Falta renda e investimento. Além disso, quanto mais baixa a taxa de juros, menor a sensibilidade da economia quanto a novos cortes. O efeito é limitado e, portanto, não será a mola propulsora da retomada do crescimento, como defendem alguns economistas.

A reforma da Previdência ajuda na retomada da confiança da economia, o que, em parte, tende a estimular o consumo e a confiança do empresário para o aumento do investimento. Do lado do empresário, a pergunta é para que investir se não há venda? A capacidade ociosa da indústria encontra-se próxima a 25%, ou seja, a economia precisa performar muito para que haja crescimento da formação bruta de capital fixo. Segundo os dados do IBGE, os investimentos tiveram a segunda queda trimestral seguida (-1,7%). A taxa de investimento no primeiro trimestre de 2019 foi de 15,5% do PIB, abaixo do registrado em igual intervalo de 2018 (15,8%) e dos 21% de 2013, registrados antes do início da recessão.

O maior problema é a falta de renda. Entre 2014 e 2017, o PIB per capita brasileiro chegou a despencar 9%. A taxa de desemprego média no país nos três primeiros meses do ano ficou em 12,7% e é a maior desde o trimestre terminado em maio de 2018. São 13,4 milhões de desempregados no Brasil, de acordo com os dados do IBGE. Mesmo assim, o consumo das famílias, que representa, 74% do PIB, cresceu 0,3% de janeiro a março, em comparação com o quarto trimestre de 2018. Apesar de ser positivo, o percentual de incremento ainda é muito reduzido e demonstra uma tendência de desaceleração, já que nos últimos dois trimestres de 2018, as altas foram de 0,6% e 0,5%.

A economia brasileira demonstra desaceleração trimestre a trimestre e a fórmula mágica de Guedes consiste em aprovar as reformas estruturais (Previdência e Tributária) para que o “sonho do crescimento” seja atingido. Não há nada mais a fazer? Sem renda, não há consumo, sem consumo não há investimento. As reformas estruturais não resolvem o cerne da questão.

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