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Pesticida da Monsanto atinge a Bayer

Mercado Financeiro / 15 Agosto 2018

A Bayer começa a ter problemas com a aquisição da Monsanto. A empresa americana, condenada com a indenização por pesticida potencialmente cancerígeno, está exposta a milhares de ações, que já estão respingando na gigante alemã.

De acordo com o presidente da Bayer, Werner Baumann, em assembleia geral de acionista em maio, a aquisição da Monsanto foi um passo muito importante na evolução da Bayer. Entretanto, ao adquirir a empresa americana, a Bayer passa a ser dona de um dos mais problemáticos e controversos pesticidas do planeta: o Roundup, que contém glifosato, substância sob suspeita de ser cancerígena.

Ninguém menos do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que o glifosato “provavelmente” causa câncer. Juízes americanos estão se orientando por esse ponto de vista: um tribunal de San Francisco condenou a Monsanto a pagar ao ex-jardineiro Dewayne Johnson uma indenização de US$ 289 milhões por não ter advertido devidamente sobre os riscos do emprego do Roundup.

A Monsanto já recorreu da sentença. Ainda assim, na bolsa de valores os investidores fogem em massa da Bayer, livrando-se o mais rápido possível de suas ações. Nesta segunda-feira, a cotação dos títulos dela caiu 11,2% em Frankfurt – uma perda fora do comum num só dia para uma empresa do índice DAX. “É um crash, porque não se esperava uma pena dessa ordem de grandeza”, comenta o corretor Oliver Roth, do grupo financeiro Oddo Seydler. “Agora estamos vendo que os riscos são maiores do que se escutava antes, pelo menos da parte da diretoria da Bayer.”

Do ponto de vista econômico, é possível também estimar o risco de outra maneira: no último ano fiscal, a Monsanto teve um quarto de seu faturamento no setor de Agricultural Productivity: US$ 3,7 bilhões basicamente graças às vendas de pesticidas contendo glifosato.

Esse é o primeiro processo nos Estados Unidos sobre o potencial cancerígeno do glifosato. Mas não será, nem de longe, o último: a Monsanto se encontra diante de mais de 5 mil ações semelhantes. “A coisa tem sempre um certo 'efeito arrastão'. Possivelmente muitos ainda vão se associar a eventuais queixas coletivas”, prevê Uwe Treckmann, analista de setores do Commerzbank.

Do ponto de vista da Bayer e Monsanto, ainda é cedo demais para pessimismo. Pois a Monsanto partirá para a próxima instância. Nos EUA não é inusual quantias punitivas serem significativamente reduzidas em processos subsequentes. Por vezes os juízes da instância superior até anulam as sentenças.

Segundo analistas da Barclays consultados pela agência de notícias Reuters, uma “dor de cabeça litigiosa” aguarda a Bayer. “Embora o recurso seja certo e possa até mesmo provavelmente resultar em a pena ser reduzida a um mínimo – se não anulada totalmente –, é bem provável que um grande número de casos pendentes agora vá se multiplicar.”

O analista Michael Leacock, da investidora Mainfirst, acredita que o veredicto ainda deverá pesar um bom tempo sobre as ações, devido à insegurança. O fato não é de espantar, pois, caso Monsanto e Bayer realmente recebam penas nessas dimensões, logo se chegará à casa das centenas de bilhões de dólares, coisa que nenhuma empresa é capaz de sobreviver por meios próprios.

No entanto, a maioria dos observadores não acredita que a situação chegue a tal extremo, já que são muitos os postos de trabalho em jogo, também do lado americano. Só a Monsanto emprega mais de 23 mil funcionários.

Supostamente, a fusão entre as duas multinacionais deveria unir os pontos fortes de ambas, e naturalmente também criar sinergias. A Bayer calcula em quase US$ 1,4 bilhão por ano os cortes de gastos decorrentes.

Fato é que, com a aquisição, a firma de Leverkusen se transformou na líder agroquímica mundial, sobretudo no setor de sementes. A transação já tem lugar assegurado nos livros de história: com um volume de US$ 63 bilhões, ela é a maior incorporação de uma firma estrangeira por uma alemã já ocorrida.

Entretanto, a compra poderá acarretar profundos arranhões na reputação da Bayer. Embora no decorrer da fusão o nome Monsanto vá desaparecer, permanece aquilo que ele significa para muitos na Alemanha. Além do glifosato possivelmente cancerígeno, a multinacional também fatura alto com plantas transgênicas, veementemente rejeitadas por boa parte dos consumidores alemães.

Assim o risco para a reputação cresceu fortemente em seguida à incorporação, como se pode ver pela repercussão da sentença de São Francisco. “O nome que agora está associado a tudo isso é o da Bayer” diz Treckmann, do Commerzbank. “É o 'show de horror da Monsanto' que desaba como uma onda sobre o pessoal de Leverkusen. Eles agora vão ter que lidar com isso.”

O ministro francês do Meio Ambiente, Nicolas Hulot, encontrou palavras bem mais drásticas. “É o começo do fim da arrogância dessa maldita dupla Monsanto-Bayer”, disse em entrevista ao jornal Libération. A decisão jurídica, afirma, tornou visível o objetivo dissimulado do conglomerado americano: “Sangrar os recursos alimentares do planeta”.