Pesquisa do IBGE mostra trabalho "invisível" feito em 2016 no país

Conjuntura / 07 Dezembro 2017

No ano passado, 6,3% dos 166,7 milhões de brasileiros de 14 anos de idade ou mais - o equivalente a 10,5 milhões de pessoas - trabalhavam na produção para o próprio consumo, voltada para uso exclusivo dos moradores do domicílio ou de parentes que viviam em outra moradia. É o que mostra a pesquisa Outras Formas de Trabalho 2016, divulgada hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A sondagem faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) e abrange atividades que as pessoas fazem para benefício próprio ou de terceiros, mas sem remuneração. A pesquisadora da Coordenação de Trabalho e Rendimentos do IBGE, economista Alessandra Brito, informou que o levantamento segue recomendação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que procura abordar formas mais amplas de trabalho do que aquelas voltadas exclusivamente para o mercado.

- Esse é um trabalho meio "invisível". As atividades não entram na conta das pessoas ocupadas que a gente divulga - observou Alessandra.

São consideradas outras formas de trabalho a atividade na produção de bens; os cuidados de pessoas, afazeres domésticos e o trabalho voluntário.

Na produção de bens, os pesquisadores do IBGE constataram que essa atividade é maior entre os homens (6,9%) do que entre as mulheres (5,8%). Por região, a pesquisa revela que o percentual de pessoas que realizaram atividades de produção para o próprio consumo foi maior no Norte (10,1%), Nordeste (9,4%) e no Sul (8,1%).

- A gente vê que isso cresce com a idade.

A faixa etária em que a taxa de realização para o próprio consumo é mais intensa é a de 50 anos ou mais (46,1%). Apenas 11,2% tinham de 14 a 24 anos.

A atividade que mais se destaca entre os quatro conjuntos analisados na produção para consumo próprio é a que engloba cultivo, pesca, caça e criação de animais, com 77,6%. Nesse conjunto, observa-se que há grande ocorrência tanto de pessoas do sexo masculino (79,2%), quanto do feminino (76%). A participação dos homens é maior na produção de carvão, corte ou coleta de lenha, palha ou outro material (23,5%) e na construção de prédio, cômodo, poço ou outras obras de construção (12%); entre as mulheres, os percentuais são, respectivamente,10,6% e 1,5%. As mulheres se sobressaem na fabricação de calçados, roupas, móveis, cerâmicas, alimentos ou outros produtos (23,2%), contra 0,8% de homens.

Ainda de acordo com o IBGE, 48,8% das pessoas que fizeram essa forma de trabalho estavam ocupadas no mercado, sendo 61,7% homens e 35%, mulheres.

 

Cuidar de pessoas e afazeres domésticos - Do total de 166,7 milhões de pessoas em idade de trabalhar em 2016, 26,9% cuidaram de moradores do domicílio ou de parentes não moradores, correspondendo a 44,9 milhões de pessoas. Alessandra Brito informou que as mulheres têm uma taxa de participação maior que a dos homens (32,4% contra 21,0%), com concentração na faixa de 25 anos a 49 anos, tanto para homens (64,7%) quanto para mulheres (60,7%).

A pesquisadora indicou que pela condição do domicílio, a cônjuge tende a fazer mais que a mulher responsável pelo domicílio (39% contra 30,6%). O mesmo ocorre em relação aos homens, mas em menor medida: 27,5% para o cônjuge, contra 25% para o principal responsável.

Alessandra chamou a atenção para o fato de que os maiores cuidados são dedicados a crianças de 0 a 14 anos: 49,6% das pessoas disseram ter cuidado de moradores de 0 a 5 anos, enquanto 48,1% cuidaram de moradores de 6 a 14 anos. As principais atividades foram auxiliar nos cuidados pessoais (78,6%), com predominância de mulheres (86,9%), contra 65% de homens; e auxiliar nas atividades educacionais (66,8%), também destacando as mulheres, com 71,7%, contra 58,8% dos homens.

A pesquisa revela que no ano passado, 81,3% da população acima de 14 anos de idade tinham afazeres domésticos no domicílio ou na casa de parentes, equivalendo a 135,5 milhões de pessoas. Nesse conjunto de atividades, há predominância também de mulheres (89,8%) em relação aos homens (71,9%). Por região, a maior taxa foi encontrada no Sul do país (86,5%) e a menor no Nordeste (75,5%).

Alessandra Brito ressaltou que a análise da intensidade de horas dedicadas às atividades de cuidados de moradores ou parentes não moradores, afazeres domésticos ou em domicílio de parentes é maior na Região Nordeste (17,5 horas por semana) do que no Sul (16 horas por semana). No Brasil, a média de horas dedicadas aos afazeres domésticos ou cuidados de pessoas é 16,7 horas, com predomínio de mulheres (20,9 horas por semana). Entre os homens, a média alcança 11,1 horas por semana.

- As mulheres, além de ter uma taxa de realização maior, dedicam mais horas a essas atividades do que os homens - disse a economista.

No Brasil, a principal atividade em 2016 foi preparar ou servir alimentos, arrumar a mesa ou lavar a louça, com taxa de realização de 80%. As mulheres são de novo o destaque, com 95,7%, contra 58,5% dos homens. Em seguida, vem o cuidado com a limpeza ou a manutenção de roupas e sapatos, com 76% em nível nacional, com participação maior de mulheres (90,8%) do que de homens (55,7%). De acordo com a pesquisadora, a única atividade de afazeres domésticos em que as mulheres perdem para os homens é a de pequenos reparos ou de manutenção do domicílio: 65% para os homens, contra 33,9% para as representantes do sexo feminino.

 

Trabalho voluntário - A pesquisa mostra que 6,5 milhões de brasileiros, ou 3,9% da população de 14 anos ou mais de idade, realizam trabalho voluntário, que pode ser feito para uma organização ou uma pessoa, seja parente ou não, sem remuneração.

- Você pode cuidar de um vizinho ou fazer um pequeno reparo na casa de um vizinho sem cobrar. Isso é considerado, para a pesquisa, trabalho voluntário. Não é só ajudar em uma organização não governamental (ONG). É um conceito mais amplo de trabalho voluntário - afirmou a economista.

A sondagem revela que o trabalho voluntário cresce com a idade, com maior taxa de realização entre as pessoas de 50 anos ou mais (4,6%); seguida do grupo de 25 a 49 anos (4,1%); e do grupo de 14 anos a 24 anos (2,5%). Em média, as pessoas fazem seis ou sete horas de trabalho voluntário por semana.

Por sexo, a taxa de realização de trabalho voluntário em 2016 era maior entre as mulheres (4,6%) do que entre os homens (3,1%). Em compensação, os homens dedicam mais horas a essa atividade, à exceção da Região Sul (5,8 horas por semana, contra 6 horas semanais das mulheres). No Centro-Oeste, os dois sexos se equiparam, com 6,9 horas semanais de cada dedicadas ao trabalho voluntário.

Outro dado mostrado pela pesquisa do IBGE é que das 6,5 milhões de pessoas que fizeram trabalho voluntário no ano passado, 6 milhões (91,5%) foram por meio de empresa, organização ou instituição. Além disso, as pessoas ocupadas realizavam mais trabalho voluntário em 2016 do que as não ocupadas. Enquanto 4,2% dos ocupados no Brasil faziam trabalho voluntário, entre os não ocupados a taxa era de 3,6% no ano passado.

 

Agência Brasil