Perspectivas da agricultura para 2001

Opinião / 14:43 - 19 de jan de 2001

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É mudança de ano, de década e de milênio. O ano 2000 não pode ser considerado como tendo sido muito bom para a agropecuária brasileira. Houve, é certo, a continuidade da recuperação dos preços recebidos pelos produtores, processo iniciado em 1997, após a crise do Plano Real em 1995 e 1996. Entretanto, os preços internacionais de nossos principais produtos de comércio exterior continuaram baixos e os níveis de produção de várias culturas foram prejudicados pela estiagem de abril-junho e pelas geadas de julho. De outro lado, na retrospectiva da década, pode-se dizer que o comportamento quantitativo de nossa agropecuária foi assimétrico entre os produtos vegetais e animais. Ao contrário das sucessivas declarações governamentais de safras recordes, apenas em 1999 a produção agregada vegetal per capita superou o nível de 1989 (para um conjunto de dezenove produtos). A diferença, para o atendimento da demanda interna, foi atendida pelo aumento das importações, consideravelmente favorecidas por inúmeros anos de câmbio sobrevalorizado. A produção animal (o agregado das carnes bovina, suína, de frango e leite), menos favorecida pela retórica governamental, teve um excepcional desempenho na década de 90, com um crescimento total da ordem de 5,3% ao ano em média, bem acima da taxa de aumento populacional (1,4% ao ano). Esse ótimo crescimento, por sua vez, ocorreu ao lado de uma acentuada tendência de declínio nos preços aos produtores, o que sem dúvida trouxe grandes benefícios aos consumidores, particularmente os de menores rendas, assim como à nossa competitividade internacional. As primeiras estimativas para a produção brasileira de grãos em 2001 são bastante boas, apesar de terem sido feitas com uma expectativa inicial bem favorável para o comportamento das diversas produtividades. O crescimento da área total na região Centro-sul está avaliado em 3,4%, com destaque para as culturas de milho e algodão. Aparentemente, o Brasil começou a recolocar em produção as áreas que haviam sido desativadas com a crise dos anos 90, o que é muito positivo. Arroz e feijão - 1ª safra, por seu lado - tiveram declínios nas intenções de área plantada, reflexões de suas recentes crises. A tabela mostra as estimativas (médias dos limites inferior e superior) da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a produção brasileira de grãos em 2001. Elas são preliminares, mas são de grande utilidade. Para se chegar a essas estimativas, a Conab trabalhou com previsões de produtividade, assim como repetiu os números de produção das regiões Norte e Nordeste, e das safras de inverno de 2000. Se, de um lado, as previsões de produtividade parecem excessivamente otimistas, a repetição dos números da safra de inverno, de outro, parece ser muito pessimista, em função da estiagem e das geadas ocorridas. Os números da tabela 1 indicam grandes safras para milho, soja e algodão, e uma produção total de grãos de 90,3 milhões de toneladas (um crescimento de 9,0% sobre o prejudicado montante da safra de 2000). Portanto, em 2001 o Brasil deverá deixar de ser importador de milho, deverá diminuir as importações de algodão e deverá aumentar as exportações de soja e derivados. A maior preocupação que fica é com respeito ao preço do feijão, pois há a previsão de uma quebra de 8,7% em sua primeira safra (-123 mil toneladas), em uma circunstância de mínimos estoques governamentais (50 mil toneladas em 5 de outubro). A produção de milho está estimada em 37.749 mil toneladas (podará ser maior), para um consumo interno previsto em 36.200 mil toneladas. Isso caracteriza um quadro de excesso de oferta e, em conseqüência, a necessidade de uma precisa e pronta intervenção do governo para sustentar os preços deste cereal, que já estão caindo. A alternativa seria deixa-lo cair no nível do preço FOB de exportação. No plano externo, dois são os grandes problemas para 2001, até certo ponto interligados. Primeiro, a permanência (e, até, aumento) do protecionismo agrícola dos principais países industrializados, o que tem prejudicado os preços de nossos produtos de comércio exterior e dificultado o acesso a seus mercados. Segundo, os preços internacionais desses nossos produtos não reagiram com a melhoria do desempenho da economia mundial em 1999 e 2000. A valorização do dólar norte-americano e o aumento dos subsídios dos países industrializados estão entre as principais variáveis explicativas para esse evento. Alguma expectativa favorável começou a surgir com a recente, mas pequena, desvalorização do dólar e com os episódios relacionados à doença da "vaca louca" na Europa (beneficiando nossas exportações e preços de soja, farelo e carnes). No plano interno, não se deve esperar em 2001 (e 2002) por progressos na reforma tributária, inclusive pela gradativa aproximação da sucessão presidencial. Um bom comportamento dos preços aos produtores em2001 dependerá de: a) continuação do declínio da taxa de juros, como fator estimulador da estocagem e favorecedor da comercialização, principalmente dos produtos de mercado interno; b) continuação da tendência recente de depreciação da taxa de câmbio; c) continuação da modesta, mas importante, taxa de crescimento da economia brasileira, de modo a fortalecer a demanda interna de produtos agrícolas; d) a introdução de tarifas compensatórias nas importações de produtos subsidiados pelos países desenvolvidos; e) uma efetiva política de comercialização da safra, combinando os antigos (preços mínimos e estoques, EGFs e AGFs) e os novos instrumentos (contratos de opções, prêmios de escoamento da produção e outros). Isto é, é importante que a política agrícola seja revitalizada em 2001. Tabela Estimativas da Produção Brasileira de Grãos, Safras 1999/00 e 2000/01 (1.000t) Culturas 1999/00 2000/01 Variação % Algodão-Caroço 1.187 1.407 18,5 Amendoim 171 197 15,2 Arroz 11.534 11.117 -3,6 Feijão 3.080 2.957 -4,0 Milho-Total: 31.641 37.749 19,3 1ª Safra 27.716 33.823 22,0 2ª Safra 3.925 3.925 - Soja 31.887 33.547 5,2 Sorgo 731 731 - Trigo 1.748 1.748 - Outras 808 808 - Total 82.787 90.261 9,0 Fernando Homem de Melo Professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP e pesquisador da Fipe/USP. E-mail:fbh@usp.br.. Artigo publicado no Economia em Perspectiva, do Corecon-SP.

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