Pequenas e médias empresas: a gestão da "mais-valia"

Opinião / 18:14 - 24 de fev de 2000

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A rigor uma empresa com pouco capital acumulado se assemelha a um ateliê medieval na qual a voz do mestre imperava Se o mercado de capitais conta com pouco mais de mil sociedades anônimas (S/A) registradas na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) continuamente informando e dando transparência a seus atos, via balanços e notas, que dizer das milhares de pequenas e médias empresas desobrigadas de qualquer transparência, exceto a contábil por obrigação fiscal e a bancária, por necessidade de capital? Nelas, a gestão moderna não ultrapassou a escala em que o desafio de acumular capital, a qualquer preço, é primordial. Observe-se que segundo dados de 1996, citados no Atlas do Mercado Brasileiro da Gazeta Mercantil, o país conta com 1.625.289 empresas recolhendo ICMS. Os processos de sobrevivência e de crescimento dependem em muito do capital acumulado nas empresas para adquirir: imóvel ou sede; equipamentos; estoques e caixa, diminuindo a dependência bancária; e, por fim, bem remunerando o dono. O estágio atual da economia brasileira abriga a existência de um sem número de empresas de pequeno e médio porte - a imensa maioria - curtas de capital e buscando obtê-los via transferência de renda da mão-de-obra, mal remunerada e com carga horária anormal, e ainda do Governo, via menor pagamento de tributos, especialidade de "planejadores fiscais", exagerada, como comprova a correlação entre recolhimentos de CPMF e de IR. Portanto, a determinante da economia brasileira é a demanda por capital em fase inicial de acumulação, apoiada por princípios de gestão correspondentes, em linha como o que observou na indústria inglesa de 1830 a 1850, fase atual da maioria das empresas brasileiras. Alguns fundamentos compõem sua gestão de "mais-valia" (neoliberal): - pagar pouco; - dilatar horários de trabalho sem remunerar; - concentrar o poder organizacional; - esconder lucro para reduzir impostos, tornando quimera sua distribuição; - enfatizar a gestão contábil, para efeitos fiscais. Eis fatores essenciais à acumulação mais acelerada de capital, modelo patronal de gestão para o desenvolvimento de sua empresa, e plenamente retomados pelo neo-liberalismo. Normalmente o patrão se sente superior e como tal se comporta junto a seus empregados impondo-lhes diretrizes de ação, com pouca margem de correção, de criatividade ou de interferência destes "inferiores" em seu negócio. (Do contrário teriam aberto seu próprio.) Assim, o contador tem obrigação de buscar prejuízos para efeitos fiscais; o advogado, defender situações das quais discorda; o vendedor, usar argumentos "superiores" de venda; o marketing, "vestir" suas idéias e assim por diante, transformando-se toda a empresa numa projeção das percepções do patrão que, imperfeito, transfere à empresa suas imperfeições. A redução deste individualismo exacerbado ocorrerá ou quando os filhos se incorporarem à gestão, introduzindo uma dialética interna de preferências e de associações familiares, ou quando a empresa tiver acumulado capital suficiente a demandar maior autonomia de gestão financeira, desestruturando a gestão do patrão. A rigor uma empresa com pouco capital acumulado se assemelha a uma guilda ou a um ateliê medieval na qual a voz do mestre imperava. Mas qual o volume de capital que rompe a gestão do patrão? O Banco do Brasil, em seu balanço de 1998, atendia a 50 mil empresas com faturamento até R$ 100 milhões e identificava 339 grupos empresariais de grande porte. A Conjuntura Econômica de agosto de 1998 listou as 500 maiores empresas do país, em ordem decrescente, cujo ativo total da última colocada alcançava R$ 122,6 milhões, com Receita Operacional líquida de R$ 117,2 milhões. Algumas empresas que ocupam melhor posição nesta classificação têm receita inferior a R$ 100 milhões (em torno de 50 delas), o que nos daria 450 empresas com faturamento superior a R$ 100 milhões - constituindo parte daquelas empresas que o Banco do Brasil atende como sua clientela Corporate (393 empresas), com faturamento superior a R$ 100 milhões. Certamente estas 500 empresas, com expressivo volume de vendas e de capital, são as que oferecem variáveis graus de autonomia de gestão, universo pequeno no Brasil, empresas capazes de entender o processo da "mais-valia" e da agenda de debates que propusemos neste MONITOR MERCANTIL a 09/02 último. Como o Banco do Brasil não esgota o mercado das empresas, dele detendo em torno de 25% a 30% de participação, poderíamos multiplicar o número das outras 50 mil empresas por três, e teríamos 150 mil empresas com faturamento entre R$ 700 mil a R$ 100 milhões em 1998. Este seria o universo das empresas em fase mais acelerada de acumulação de capital, transitando de uma estrutura feudal patronal à pré-capitalista, em que gestão patronal apenas enfraquece, mas não a ponto de romper com a voz do dono e de sua gestão de "mais-valia", próximas a ideologia neoliberal. Certamente só as 500 empresas com faturamento acima dos R$ 100 milhões, nosso corte teórico, conhecem gradualmente o enfraquecimento de práticas patronais. Mesmo quando a empresa cresce, o patrão se mantém no comando com seu sistema de gestão. Por que dividi-lo pagando mais a alguém se pode embolsar a "mais-valia", ganhando sozinho? Não é à toa que pesquisa da Symnetics com 45 empresas classificadas neste universo das 50 maiores identificou intenso conservadorismo na tomada de decisões, com 81% delas não considerando a opinião de seus funcionários (Gazeta Mercantil, 26/05/99, pág. C-6). Portanto, até entre empresas que já atingiram um expressivo valor de capital acumulado o poder patronal não desceu da Diretoria ao quadro funcional, como ensinam os livros de administração. Não se pratica "criatividade em equipe". Eis uma realidade do País a se considerar, readequando-se cursos de administração, de organização e de gestão, que reforçam a profissão do "contabilista", o velho contador, como a mão-de-obra especializada mais demandada, raramente havendo contadores desempregados. Certamente reformas curriculares voltadas para a modernização de gestão deveriam atingir em cheio os cursos de contabilidade, a estrutura contábil do país e mesmo a qualificação exigida para assinar balanços, estes sim uma excelente alavanca de mudança. A fase é ainda de acumulação inicial de capital, uma fase de "mais-valia" intensiva, e não de democratização ou participação na gestão e nos lucros, como vem postulando utopicamente a Constituição Federal desde 1946. Afinal, os lucros se escondem, neste processo cumulativo de capital, exigindo contínuas reformas contábeis que logrem explicitá-los. Com relação à mão-de-obra e ao trabalho muito há por ser feito para reduzir relações jurídicas precárias, e algumas delas já mencionamos em artigos anteriores no MONITOR MERCANTIL: "Administração do Trabalho no Brasil" (outubro de 1998), "A "mais-valia", um fundamento essencial" (12/99) e "Mais-valia, debates e curvas salariais" (02/00), enfatizando-se sobretudo este ponto: a retomada da consciência da "mais-valia", mais atual do que nunca, na medida em que traduz parcela substantiva da filosofia neo-liberal, e da neo-precarização das relações jurídicas trabalhistas. Paulo Guilherme Hostin Sämy Diretor da ABAMEC - Rio. Especialista em RH, Bancos e Comércio Exterior. Autor de: "Criatividade em Equipe" (Suma Econômica).

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