Pé diabético, uma emergência nacional

Por Izidoro de Hiroki Flumignan.

Opinião / 18:05 - 22 de nov de 2019

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O diabetes é uma crescente pandemia humanitária”, eis o que sentencia uma das maiores autoridades médicas no assunto, a IDF (Associação Internacional de Diabetes), que, com dados alarmantes sobre a doença, chega a esses números tão estarrecedores, que se seguem.

São mais de 425 milhões de pessoas no mundo acometidas pelo mal, e o Brasil desponta com mais de 14,5 milhões de portadores, com indicadores de que entre 2017 até chegarmos a 2045, a previsão é que haja uma expansão desses números, na casa de 48% de diabéticos, atingindo 62%, somente na América do Sul.

Outros importantes estudos de pesquisas, ressaltam por sua vez, números também preocupantes sobre o tema, como os do Instituto de Métrica e Avaliação para a Saúde (IHME) da Universidade de Washington, que publicou na revista The Lancet as causas do aumento dessa chamada pandemia do diabetes.

É, portanto, o que esses cientistas buscam nesses estudos, ou seja, descem a avaliação mais específica, pesquisando semelhantes efeitos da doença, que apontam como causa fundamental de seu agravamento, a obesidade e o sobrepeso da população, que atingem o patamar estratosférico de cerca de 2,25 bilhões de pessoas.

Isso quer dizer que 30% da população mundial, entre as décadas de 1980 e 2013, foi acometida por um distúrbio alimentar, proveniente de um estilo de vida fast food, associado à falta de exercícios físicos, que culminaram no aumento excessivo de peso!

 

Em média, foram realizadas 9 amputações

por dia na rede pública do Rio

 

O efeito desse fenômeno de comportamento alimentar em crianças impactou ainda mais, por se tratar de pessoas em desenvolvimento, aumentando cerca de 47,1% o nível de obesidade no segmento infanto-juvenil. De acordo com o Instituto, o Brasil está acima da média global do excesso de peso, com 58% dos homens e 65% das mulheres.

São dois fenômenos de pandemia: o primeiro é o da obesidade, que tem como efeito o segundo, que é o do diabetes tipo 2, conhecido por estar relacionada ao excesso de peso e aumento da circunferência abdominal. Os dois processos epidêmicos são de natureza global, pois são causados pela desenfreada economia do hiperconsumo, associada à cultura do prazer imediato.

Os medicamentos dispensados gratuitamente pelo SUS aos diabéticos e Farmácia Popular são ultrapassados em qualidade e pagos inclusive por aqueles que não são diabéticos, diante dos impostos que recaem a todos.

O diabetes também causa importante aumento da incidência de infarto do coração, do acidente vascular cerebral, da cegueira irreversível, da insuficiência renal e do pé diabético, que é a complicação mais conhecida entre todas.

Os dados do Ministério da Saúde apontam, que em 2018, a rede pública do Estado do Rio de Janeiro recebeu 3.134 internações de pacientes diabéticos que foram submetidos a alguma amputação dos membros inferiores.

Portanto, em média, foram realizadas nove amputações por dia, e, dessas intervenções, três pacientes morreram a cada dois dias. Outra forma de expressar esse drama, é que a cada três horas, uma pessoa tem amputação de um ou mais dedos dos pés, o pé ou a perna na rede pública do Estado do Rio, em função do diabetes.

Pelos números do Ministério da Saúde, o Brasil realiza cerca de 50 mil amputações por ano. Em comparação ao Rio de Janeiro, os estados de Sergipe, Alagoas e Rio Grande do Norte demonstraram índices ainda bem piores, em relação às complicações do diabetes.

É uma legião de vitimados pelos desdobramentos da doença, que chega a um de seus limites com o pé diabético, além de outros males como a cegueira, infarto cerebral, infarto do coração e a insuficiência renal, que termina em hemodiálise.

O elevado custo do tratamento e a invalidez atingem em cheio aos que invadem os postos da Previdência Social, por problemas que poderiam ter sido evitados, se houvesse uma gestão médica brasileira que exercesse a cultura da medicina preventiva, e priorizasse a atenção da Rede Primária de Saúde, que é eficiente e de baixo custo.

Segundo o próprio Ministério da Saúde, a alta incidência de complicações do diabetes no Rio e em outros estados brasileiros se deve a fatores como o encolhimento da cobertura da atenção básica – de 67%, em 2017, para 52,8%.

No final do ano passado, a Prefeitura do Rio de Janeiro reduziu o número de equipes de Saúde da Família, de 1.283 para 967, e destas, 139 estão incompletas. Foi um erro estratégico de gestão, como já se tornou corriqueiro em saúde pública, visto que é exatamente no posto de saúde e nas clínicas da família que se encontra a primeira barreira para evitar complicações do diabetes.

Nesse gargalo, o diabetes se tornou, hoje, a doença mais cara do mundo, superando todas as outras de grande destaque também, como o câncer, a Aids, a tuberculose as arboviroses.

 

Gasto médio, somente com medicamentos

para o controle glicêmico, é de R$ 900 mensais

 

E aí vem a pergunta que não quer calar: por que o diabetes se tornou essa doença tão cara assim? Simples: porque, além de estar em níveis crescentes, também é uma doença crônica e de gravidade progressiva e que não tem uma política coordenada de prevenção.

Ou seja, acompanha seu portador pela vida inteira e vai piorando à medida que este envelhece, além de prescindir de cuidados aumentados. A complexidade desta doença é tratada com polimedicamentos e insumos tecnológicos cada vez mais sofisticados e caros.

Segundo cálculos da Associação Carioca de Diabetes (ACD), o gasto médio, somente com medicamentos para o controle glicêmico, é de R$ 900 mensais, excluindo os custos das complicações e das doenças associadas, enquanto o rendimento domiciliar per capita do Brasil foi de R$ 1.373 em 2018, segundo o IBGE.

Diante desse quadro tão preocupante, a instituição também tem proposto que o diabetes seja uma doença de notificação compulsória. O que significa isso? É que cada paciente seja monitorado pela dosagem periódica de hemoglobina glicada, exame este que tem a capacidade de identificar a gravidade do caso da pessoa com diabetes, possibilitando-se o tratamento mais eficaz para cada caso.

Além disso, a Associação, há muitos anos, vem lutando para que o profissional de Podologia seja inserido no Serviço Público de Atenção Primária Multidisciplinar, de atendimento às pessoas com diabetes. Isso porque a inserção desse profissional, nos cuidados preventivos de lesões, higiene, hidratação, calos e na orientação sobre o uso de calçados adequados, seria o suficiente para evitar mais de 80% das dramáticas amputações desses pacientes.

A Saúde Pública de uma nação determina o desenvolvimento de seu povo, pois é diretamente proporcional ao desenvolvimento do PIB, que influencia seus resultados nas contas públicas, e também nas despesas internacionais, pois todos os medicamentos e equipamentos usados pelas pessoas com diabetes têm origem externa.

E finalmente o SUS, que, mesmo subfinanciado, como está atualmente, atende a 75% dos brasileiros e é considerado um exemplo internacional de assistência médica gratuita.

Porém, muito ainda terá que se fazer pela saúde no Brasil, para que o dramático contexto da epidemia do diabetes sirva para esclarecer aos gestores desse país sobre a importância da Atenção Primária de Saúde e o quanto são imprescindíveis a seriedade e o compromisso, para destinar não somente investimentos contínuos e ininterruptos para a área, mas sobretudo, ter como diretriz uma gestão de excelência, para gerir com competência tais recursos!

Izidoro de Hiroki Flumignan

Sanitarista e endocrinologista, é professor da disciplina de Distúrbios Alimentares da PUC.

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