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Paul Singer

Empresa-Cidadã / 17 Abril 2018

O economista Paul Israel Singer (Viena, 24/3/1932–São Paulo, 16/4/2018) faleceu em São Paulo, deixando uma obra expressiva. O pequeno Aprender Economia (1983) rivaliza com os pesados manuais escritos por acadêmicos norte-americanos (como Samuelson, Krugman e, principalmente, Mankiw), pois com disciplina ética exponencial, é o único a apresentar objetivos básicos da política econômica, confrontados com as teorias do valor-trabalho e do valor-utilidade. Os grandes manuais ignoram as contradições inerentes às teorias do valor conflitantes, sobre as quais foi erguida a teoria econômica, ou então, perfilam-se rigidamente ante uma delas (valor-utilidade).

 

Somam-se ao leve Aprender Economia outros títulos importantes, a saber, Economia política da urbanização (1973, um dos temas fundamentais trabalhados por Singer), Introdução à economia política (1975), O que é economia (1993) e Introdução à economia solidária (2002). Economia solidária foi outro dos temas que notabilizou Paul Singer, tendo assumido a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 1983.

 

A sua família estabeleceu-se no Brasil em 1940, ante as primeiras manifestações de perseguições nazistas aos judeus, manifestadas após a anexação da Áustria. Formado em eletrotécnica, exerceu a profissão de 1951 a 1956. Exemplo de intelectual organicamente engajado, Paul Singer teve destaque como líder na greve dos 300 mil, que paralisou a indústria paulistana por mais de um mês, em 1953. Membro do Partido Socialista Brasileiro (PSB), foi um dos fundadores da Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop).

 

Passou a lecionar na USP em 1960, doutorou-se em Sociologia em 1966, orientado por Florestan Fernandes. Perseguido pela ditadura implantada em 1964, foi aposentado compulsoriamente, em 1968, pelo AI5, tendo a partir de então participado do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) desde a fundação, núcleo pensante de oposição à ditadura. Foi o secretário de Planejamento da prefeita Luiza Erundina e, em 2009, foi homenageado pelo governo austríaco.

 

Concentração bancária, as tentações do oligopólio

As quatro maiores instituições bancárias do país, somadas, alcançaram, ao final de 2017, 78,5% do mercado de crédito e 76,3% dos depósitos de correntistas. É o que consta do Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado pelo Banco Central. Há dez anos, as quatro maiores instituições financeiras possuíam 54,6% das operações de crédito e 59,3% dos depósitos, o que revela um crescimento expressivo da concentração do setor.

Somados, os lucros das quatro maiores instituições financeiras com ações listadas na Bovespa, Itaú-Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco e Santander, alcançaram R$ 57,6 bilhões, em 2017. Cotejados com R$ 50,3 bilhões, em 2016, verifica-se um acréscimo de 14,5%. Chama a atenção o aumento do lucro da Caixa Econômica Federal em 2017 (202,6%, alcançando R$ 12,5 bilhões). Na análise do Banco Central, a rentabilidade dos bancos foi “fortemente beneficiada pela queda das despesas de provisão para fazer frente às eventuais perdas”, de devedores duvidosos, e acrescentou que o “nível de provisionamento da carteira de crédito permanece adequado ao seu perfil de risco”.

 

Céu de brigadeiro

O risco de liquidez continua a apresentar pouca preocupação para o sistema bancário, e a perspectiva é de manutenção do baixo risco para o primeiro semestre de 2018”, disse o Banco Central. De acordo com o Bacen, avaliações de estresse de capital (simulações de riscos) comprovam que a resiliência aumentou.

Ainda segundo o presidente do Bacen, os juros cobrados aos clientes no balcão ainda estão acima da expectativa e tem por causas o “alto custo operacional e regulatório; falta de boas garantias; necessidade de mais informação no sistema; subsídios cruzados; altos percentuais de encaixes compulsórios; e insuficiente estímulo à concorrência”.

O spread bancário (del credere, diferença entre a taxa de captação dos bancos e a taxa cobrada aos clientes) é alto quando comparado com o resto do mundo. Dentro do spread também estão o lucro dos bancos, a provisão para inadimplência, os tributos pagos e os depósitos compulsórios.

 

Propostas para diminuir os juros na ponta da linha

Entre as medidas em que o Bacen deposita suas expectativas para baixar os juros, estão a mudança na regra do cartão de crédito, a fim de tentar forçar os bancos a reduzirem os juros do cartão. Apesar das taxas do cartão terem caído, a nova regra não conseguiu evitar o aumento da inadimplência.

Outra medida, a vigorar a partir de 1º de julho, refere-se à mudança anunciada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), com a disponibilização de condições mais vantajosas para os clientes que utilizarem mais do que 15% do limite do cheque especial por 30 dias.

Outra medida foi adotada em março, com a redução de 40% para 25% da alíquota de recolhimento compulsório pelos bancos nos depósitos à vista. Segundo o Banco Central, com os novos percentuais, foram injetados cerca de R$ 25,7 bilhões no sistema financeiro.

Serão as medidas propostas para a redução dos juros capazes de superar as tentações do oligopólio?

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br