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Paraisópolis cria seu próprio banco e moeda

Conjuntura / 17 Maio 2018

Em São Paulo, a maior cidade brasileira, os pobres, há muito desdenhados pelos bancos tradicionais, decidiram criar não apenas um banco próprio, mas também sua própria moeda. Espera-se que a nova iniciativa permita que os moradores da favela Paraisópolis, no sul da capital, façam uma coisa que muitos moradores da cidade acham normal: abrir uma conta bancária, obter um cartão de débito e solicitar um pequeno empréstimo.

O banco sem fins lucrativos de Paraisópolis, previsto para iniciar suas operações no segundo semestre do ano, será administrado pela comunidade local, e a moeda de Nova Paraisópolis será uma proposta. Os clientes do banco também se beneficiarão de descontos em cerca de 8 mil lojas e empresas dentro da favela, cuja população é estimada em cerca de 100 mil habitantes, de acordo com o último censo, ficando entre as dez maiores favelas do Brasil.

Nossa intenção é permitir que as pessoas tenham uma conta e possam realizar saques e pequenos empréstimos”, disse o líder comunitário Gilson Rodrigues, presidente do Sindicato de Moradores de Paraisópolis, à Xinhua.

Segundo Rodrigues, o banco priorizará empréstimos a taxas de juros mais baixas do mercado, para quem quiser abrir seus próprios negócios e até oferecer treinamentos sobre como montar e administrar pequenas empresas. “Quando você incentiva e prepara empresários, o negócio tende a se sair bem, e o empréstimo é pago sem atrasos”, disse Rodrigues.

Dinheiro da elite

Para financiar a iniciativa, a associação de moradores planeja realizar um jantar de arrecadação de fundos para personalidades proeminentes e líderes empresariais. O dinheiro arrecadado será destinado a um fundo para as operações do banco.

Em vez de irem a donos de bancos ou acionistas, os juros dos empréstimos devem ser investidos de volta à comunidade por meio de projetos, como a criação de uma orquestra jovem, uma companhia de dança ou a construção de um restaurante numa cobertura com vista para a cidade.

Não queremos ganhar dinheiro (...) queremos investir em desenvolvimento comunitário, em empresas locais e em consumo, gerando empregos”, afirmou Rodrigues. A associação de moradores informa que 21% das pessoas que moram em Paraisópolis também trabalham lá.

A favela tornou-se rapidamente famosa há alguns anos, quando serviu de pano de fundo para uma novela brasileira, embora a fama pouco tenha feito para melhorar as condições precárias de vida, como um sistema de esgoto em ruínas e, em alguns casos, inexistente e a falta de infraestrutura ou serviços.

Quase 5 mil famílias na favela que vivem em unidades de aluguel muito baixo recebem um subsídio mensal da prefeitura para ajudar a cobrir estes custos.

Microcrédito ganhou Nobel

O economista Bruno Duarte observou que a iniciativa do banco de favelas foi tentada com sucesso em outras partes do mundo e em partes menos densamente povoadas do Brasil. Duarte disse que, em 2006, o empreendedor social de Bangladesh Muhammad Yunus ganhou o Prêmio Nobel da Paz por ser pioneiro no conceito de microcrédito para ajudar os pobres.

A ideia funciona porque atende a uma necessidade básica em áreas marginalizadas, com pouca presença do governo ou acesso ao financiamento tradicional, disse Duarte. “A maioria dos residentes em áreas rurais do Brasil ou em cidades menores no interior hoje ainda não tem acesso a serviços (financeiros) ou pequenos empréstimos”, observou ele.

O fato de os próprios moradores estarem envolvidos na administração do banco de Paraisópolis “cria automaticamente um sistema de autogestão (...) que ajuda a reduzir as taxas de inadimplência” no pagamento de empréstimos, disse ele. Além disso, afirmou, “as pessoas sabem que, ao usar esses bancos, criam empregos e lucram em sua própria comunidade”.

Pau Ramirez, Agência Xinhua