O poder do dinheiro versus o poder do Estado

Opinião / 18:08 - 18 de dez de 2000

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A partir dos anos 60 e durante as décadas seguintes a corrida espacial consumiu enormes quantidades de dinheiro. Com muita freqüência estes gastos foram considerados suntuosos e injustificáveis em face dos problemas decorrentes da miséria existente no mundo. Entretanto o esforço concentrado em pesquisa e formação de cientistas que isto requereu, teve como produto, a título de exemplo, o raio laser, o satélite artificial, o videocassete, o grafite e tantos outros desenvolvimentos que serviram de base ao salto tecnológico sem precedentes em que se apoia, na atualidade, a economia globalizada. As gigantescas transformações científicas e tecnológicos ocorridas, sobretudo nestas últimas décadas, conseguiram conduzir a transmissão da informação à velocidade da luz (300 mil quilômetros por segundo) ; à "numerização" de textos, imagens e sons; ao recurso já generalizado dos satélites de telecomunicações; à massificação da informática nos setores produtivos e de serviços, à "miniaturização" dos computadores e sua integração em escala planetária. Tudo isto unido ao processo de desregulação econômica, que se iniciou durante a era Reagan-Thatcher, conduziu a uma inusitada aceleração do sistema capitalista. Enquanto a Guerra Fria se manteve de pé, esta aceleração capitalista se viu limitada em termos de liberdade de ação, em virtude da supremacia do político sobre o econômico. O mundo ainda girava sobre parâmetros definidos pelo terror nuclear. O colapso do comunismo determinou o desaparecimento do último muro de contenção que ainda permanecia frente à preeminência do econômico. A partir deste momento a força incontida da aceleração capitalista passou a encurralar os estados. Enquanto o capital privado havia se mantido pari passu com os avanços da tecnologia, gerando inovações gerenciais que permitiam tirar proveito aos investidores, as pesadas burocracias estatais permaneciam inertes e mais próximas do século passado. Impotente para dar resposta ao impulso telúrico que enfrentava, a maior parte do mundo industrializado decidiu aceitar o modelo liberal do Estado imperante nos países anglo-saxões. Os Estados industrializados se entrincheiraram após o "laissez faire, laissez passer" liberal, abdicando de funções que lhes eram tradicionais. Com isto renunciavam a uma confrontação que não tinham como ganhar. E mais ainda, decidiram projetar sobre os quatro rincões do mundo este modelo, transformando-o em paradigma dos novos tempos. De acordo com a revista Veja (3 de abril de 1996) as reservas de capital privado existentes no mundo eram da ordem US$ 10 trilhões. Frente a esta impactante cifra pouco pode o dinheiro público disponível. Alguns números evidenciam a magnitude desproporcional dos fundos privados. A revista Fortune (15 de abril de 1996) assinalava que o dinheiro investido na bolsa por investidores norte-americanos alcançava aos US$ 5,5 trilhões. Em 1995, o volume de empréstimos internacionais, de médio e longo prazos, proveniente do capital privado, chegou a US$ 1,3 trilhão de dólares. Segundo a revista Maniere de Voir, do Le Monde Diplomatique n° 28 (28 de novembro de 1995), as transações diárias sobre o mercado de câmbio que eram de US$ 210 bilhões em 1986, passaram de US$ 1 trilhão em 1994. A mesma revista sustenta que as transações cotidianas nos diversos mercados de valores alcançam aos US$ 3 trilhões. No plano industrial, a outra faceta do processo globalizador, encontramos que as dez maiores corporações do mundo faturam anualmente US$ 1,4 trilhão, o que eqüivaleria ao PIB combinado do Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e Venezuela. A desproporção entre as esferas do poder público e o privado a encontramos bem ilustrada em alguns casos, como os seguintes: enquanto o presidente Clinton foi centro da atenção mundial ao abrir uma linha de crédito de vinte bilhões de dólares para salvar o México, no início de 1995, o especulador Nick Leeson estava mobilizando US$ 27 bilhões sem que ninguém soubesse nem de sua existência nem de suas atividades. Da mesma maneira, enquanto os grandes estados do planeta, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Nacional trabalhosamente reuniram US$ 50 bilhões para ajudar o México, os três maiores fundos de pensão norte-americanos - Fideleity Investiments, Vanguard Group e Capital Research & Management - controlam sozinhos US$ 500 bilhões. Entretanto, o Estado não somente tem sofrido uma considerável perda de hierarquia na área econômica. Também no campo jurídico e no político sua perda de status é evidente. A nova linguagem do direito internacional se assenta em noções como "soberanias limitadas", "tutelas internacionais", "direitos de ingerência" e "administrações supranacionais", na qual todos tem, como denominador comum, o desconhecimento do Estado como ator essencial da vida internacional. Na área política o poder que tradicionalmente detinha o Estado está tendendo a fluir em duas direções distintas: para cima em direção aos organismos supranacionais e coletivos tais como o Conselho de Segurança das Nações Unidas ou a Organização Mundial do Comércio. Para baixo, em direção a regiões cada vez mais autônomas, as quais se consideram mais representativas da identidade étnica, tema em moda nos dias atuais. Regiões como a Córsega, Escócia, Catalunha ou Quebec, vão ocupando de forma crescente espaços que antes ocupava o Estado central. O Estado, cada vez mais encurralado, em todos os sentidos, vê escapar-se seu papel tradicional, ou seja, o de ser intérprete das aspirações sociais, do sofrimento dos excluídos, do coletivo. O poder do dinheiro vai ocupando cada vez mais espaço. É o triunfo inevitável do dinheiro sobre o Estado. Manuel Cambeses Júnior Coronel-aviador R/R e membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra.

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