O passado arrasta-se na universidade

Por Mércio Gomes.

Opinião / 15:40 - 17 de mai de 2019

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Há pouco mais de três anos comecei a escrever o livro O Brasil Inevitável. O primeiro capítulo que foi escrito de cabo a rabo, apesar de o livro ter um plano já bem esboçado, foi um capítulo sobre a universidade brasileira, suas razões de ser, suas aporias e as dificuldades atuais e as que poderiam ser previstas. Estávamos em plena greve de 2015, sobre a qual eu me posicionei contrário.

O capítulo é longo e expõe ideias filosóficas e lógicas sobre o capitalismo e o papel da universidade e da classe média em coadjuvar o proletariado a criar uma mais-valia relativa. O texto se apresenta com meandros de fala, ora sendo a favor de uma coisa, ora de outra, e saiu em forma de um diálogo com um colega imaginário.

Pois não é que aconteceu o que eu estava imaginando ao escrever aquele capítulo e do pior modo possível! O capítulo tem o título “O passado arrasta-se na universidade”. Em 2015, eu via sinais de que uma mudança doida poderia acontecer, mas só mais tarde. Não achava que a direita braba ganhasse assim de supetão. Mas tudo se precipitou – eis nossa tragédia atual. Ao final, o capítulo não parece muito esperançoso. Tem até uma tonalidade cínica. Mas, podem acreditar, não é o que esse autor pensa do Brasil.

 

Em 2015, eu via sinais de que uma

mudança doida poderia acontecer

 

Eis um trecho do capítulo. O livro, como já sabem, está à venda nas boas casas do ramo:

O que fazemos nós os professores? Damos aulas, pesquisamos, divulgamos ideias. Formamos engenheiros para construir melhores estradas, prédios, automóveis, navios, aviões; formamos médicos para aumentar a vitalidade e a produtividade dos trabalhadores; formamos advogados, economistas, sociólogos, antropólogos, todos para melhorarem a reprodutibilidade do capital. Você mesmo disse, meu caro amigo engenheiro, no comecinho de nossa conversa, que nós não passávamos de coadjuvantes da reprodução do capital, não se lembra?”

É, pode ser, mas, mesmo assim, nós, professores e tecnólogos, burocratas e advogados não formamos uma classe em si. Discutimos e nos dividimos muito. Há professores de esquerda, outros de direita, há advogados do bem, há engenheiros safados, há burocratas corruptos e há políticos que não podem fazer nada a não ser trabalhar para quem os financiou. Isso é classe social?”

(…)

Sob o estímulo de um açaí bem gelado, em uma tarde de calor da primavera carioca do ano de 2015, reunimo-nos, meu amigo engenheiro e eu, para finalizarmos o papo sobre a universidade, a inteligência brasileira, a responsabilidade da intelectualidade e da classe média brasileira, e o que podemos pensar para o futuro próximo.

Em primeiro lugar, por que voltarmos a fazer greve na universidade? Bem, é só uma suposição, mas, dada a persistência do passado – a indiferença e a inércia de grande parte do professorado; a carência de senso de responsabilidade social; e a reafirmação alegórica de que somos oprimidos e seríamos de direita se não nos rebelássemos contra tal opressão, como vimos no começo de nossas conversas – é muito provável que o mesmo grupo favorável às greves venha a prevalecer no futuro próximo. Sobretudo porque a ideologia que os move, um estranho misto de marxismo com antimarxismo deleuziano, os faz crer que estão sendo fiéis ao Brasil, à nossa cultura e aos direitos que nos assistem. E dificilmente, nos próximos anos, haverá uma mudança de paradigma ideológico no Brasil, não obstante os seus fracassos evidentes. Algum dia, irá mudar, aos sacolejos e borbotões, porém com equivalente força de resistência.

Como nos opor a esse grupo? Primeiro, nossa tarefa como professores – e pesquisadores criadores de know-how e intelectuais – é a de propor ideias, não fugir do debate e aspirar à criação de um novo paradigma que dê conta da complexidade dos temas de classe, cultura, Brasil, processo histórico, ciência, educação de jovens, responsabilidade social, ética etc., e de respeito pelo que já foi construído. Por exemplo, ser contra a trinca francesa não quer dizer que ela não tenha coisas interessantes a dizer. E o mesmo quanto ao marxismo dialético. O que nenhuma dessas duas correntes de pensamento têm é a abrangência sobre o que pode haver no homem e na sociedade: suas ideias lutam por uma hegemonia da conceituação do homem que, a nosso ver, está a léguas de visualizá-lo.

O exemplo que apresentei da crítica à concepção marxista do capitalismo é um caso claro. O capitalismo só pode ser entendido levando em conta uma certa autonomia da ciência e da tecnologia, autonomia esta que está vinculada a uma classe social, a ser chamada de classe média, para não inventarmos outro termo agora (esqueçamos “classe tecnológica”, como falamos anteriormente). Essa classe não é a mesma do proletariado nem por sua inserção econômica no capitalismo, nem por sua visão de mundo, nem por ideologia, nem por atividade social e política.

Sua aliança com trabalhadores deve ser feita de uma forma consciente e não baseada na ideologia marxista nem tampouco na ideologia deleuziana. Portanto, mais clareza nas regras do jogo a ser jogado. Eu vou falar dessa classe com mais vagar em outro momento, ou em uma aula ou em nossas conversas, ou em algum capítulo de um livro que estou escrevendo, vamos ver. (Ver Capítulo 4.)

Os deleuzianos e os foucaultianos têm razão em muitos pontos. Um deles é que jogar pesado na identidade do ser pode significar a sua reificação e, portanto, sua ossificação. ‘Eu sou eu, e jacaré é um bicho’, diz o ditado popular, exagerando na identidade. O ser é cambiante, a identidade é cambiante, sim. Eu posso ser algo diferente amanhã, meu devir me chama, mas dificilmente chegarei a ser um jacaré. Sem garantia de identidade, para que se comprometer com algo? Por voluntarismo do bem?

Imagine, por esse tipo de voluntarismo, Foucault apoiou a revolução dos aiatolás, no Irã, pelo argumento de que essa revolução desafiava o status quo da civilização ocidental e da hegemonia capitalista americana e europeia. Se fosse Deleuze, para falar ironicamente, teria dito que a revolução dos aiatolás tinha devir, era o devir naquele momento. Bela escolha de Foucault, sobretudo para alguém que decidiu viver no olho do furacão da nossa civilização, entre São Francisco, Nova York e Paris!

O senso de responsabilidade que exigimos da parte dos professores tem um quê de moralismo, sim. Há que se sentir parte de um todo em que não se é apenas um contribuinte. Nós, que somos mais velhos, já passados do meio do caminho de nostra vita, temos filhos, sobrinhos e netos, e com eles temos responsabilidades. Sendo professores, os jovens a quem ensinamos viram filhos, sobrinhos e netos, de algum modo, sem pieguice (não precisa me chamar de tio), mas com senso de pertencimento a uma comunidade mais ampla. Fazer greve é abandonar essas crianças e esses jovens. Paro por aí.”

E o salário, a verba para pesquisa e a responsabilidade de incrementar o papel da ciência na formação da cultura brasileira? Como fazer tudo isso em universidades sem condições?”, vociferou meu amigo já se enfezando com minha brusca parada.

Bem, meu caro engenheiro, sei lá. Vamos tocar de ouvido. Pode ser que haja motivos muito fortes para uma greve dura e irrestrita nos próximos anos, e aí eu mesmo refarei minhas considerações. Mas acho difícil. Melhor confiar nos nossos alunos que estão no governo, nos nossos partidos cujos líderes e companheiros nós ensinamos não muito tempo atrás.”

Em uma última tentativa de me incitar a falar mais, meu amigo soltou o desafio maior: “Afinal, por que o Brasil não prestigia o professor, a educação e a ciência?”

Deixa isso pra lá, caríssimo. Vamos tratar de outros problemas mais sérios. Talvez, ao final, tenhamos algum encaminhamento sobre esses temas, como se diz nas greves. Por enquanto, estamos no blá-bláblá que é nosso mister.

Sigamos. Na próxima semana vou dar uma aula sobre a formação da sociedade colonial brasileira e por que ela continua tão presente entre nós. Depois falaremos sobre por que a economia brasileira não funciona a contento. E depois, aí só vendo. Auf Wiedersehen!”

 

 

Mércio Gomes

Ph.D em Antropologia, presidiu a Funai entre 2003 e 2007. Atualmente leciona na UFRJ. Autor de diversos livros, mantém o blog O Brasil Inevitável.

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