O papel mais difícil para Regina Duarte

Por Paulo Alonso.

Opinião / 23:00 - 23 de jan de 2020

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Regina Duarte é uma atriz extraordinária e vem, ao longo dos anos, encantando a todos os que a assistem na televisão, no teatro e no cinema. Ela encarna os seus papéis com total desprendimento e é sempre elogiada pela crítica. Sua carreira é reconhecida e vivamente aplaudida. Já viveu papéis importantíssimos, desde 1965, quando estreou na antiga TV TUPI, na novela A Dama vencida, vivendo Malu, passando por outras participações relevantes em Véu de Noiva, Irmãos Coragem, Minha Doce Namorada, quando recebeu a alcunha de a “namoradinha do Brasil”, Carinhoso, Selva de Pedra, Malu Mulher, Roque Santeiro, Vale Tudo, dentre tantos outros, até chegar em Tempo de Amor, seu último trabalho, em 2017, na telinha. Em 2018, atuou, no cinema, em As Herdeiras, e nesse mesmo ano, no teatro, em O Leão do Inverno. Sua formação inclui aulas de balé clássico, com Mozart Xavier, declamação com Maria Silvia Ferraz Silva e um curso com Eugênio Kusnet sobre o método Stanislavski.

O nome de Regina Duarte está definitivamente marcado na História da Televisão do Brasil. E ela é muito querida por seus numerosos fãs, além de respeitada pelos colegas, ainda que vários não concordem com o seu atual posicionamento político. Regina começou muito cedo e coleciona prêmios relevantes por suas inesquecíveis interpretações. São 55 anos ininterruptos de trabalhos memoráveis. Viveu e encarnou todos os tipos de mulheres, em especial as Helenas, em História de Amor, Por Amor e Páginas da Vida, do autor Manuel Carlos. Aliás, Maneco é apaixonado por seu trabalho.

Depois de interpretar tantos papéis, Regina Duarte estará a partir de agora vivendo o seu maior desafio, como Secretária Nacional de Cultura do Governo Bolsonaro. Sem dúvida, o seu posicionamento junto ao governo tem despertado preocupação de alguns dos seus colegas de trabalho, que temem pelo desgaste que poderá enfrentar, comprometendo até a sua imagem de atriz e de cidadã, em se envolver com um governo de extrema-direita que, até então, demonstra alto desprezo pela cultura, pelo meio-ambiente e pela educação do país. Não podemos nos esquecer de que Regina já apoiou Fernando Henrique Cardoso, candidato ao Senado; José Serra, candidato à Presidência da República; e o então prefeito de São Paulo João Dória. Foi à uma passeata, empunhando a Bandeira do Brasil, apoiar as medidas contra a corrupção a favor do então juiz federal Sérgio Moro. Esteve em Cuba, sendo fotografada com o Comandante Fidel Castro. Posicionamentos políticos ambíguos.

Mesmo assim diante de uma polêmica, Regina recebeu apoio de parte da classe política, como o do cantor e compositor Gilberto Gil, ministro da Cultura de Lula; do diretor Daniel Filho, seu ex-marido; da produtora Paula Lavigne; do ator Carlos Vereza; e da atriz Maitê Proença. Todos acreditam que, com seu talento e carisma, Regina possa construir uma ponte entre a inteligência brasileira e o governo Bolsonaro, contribuindo, com seu jeito doce e sereno e, ao mesmo tempo, inteligente, uma ponte para que a cultura volte a ser respeitada e que a censura hoje imposta possa ser abrandada, pelo menos. Ela, todavia, terá de se adaptar a um mundo diferente do que convive, sem uma liberdade maior. Difícil será interpretar esse papel! Mas os desafios são sempre muito bons e vencê-los melhor ainda.

A demora da atriz em confirmar sua entrada na Esplanada dos Ministérios está diretamente associada ao seu custo de vida. Ela terá, por exemplo, de rescindir o seu contrato com a TV Globo, onde recebe até R$ 120 mil em carteira assinada, já que é uma das poucas atrizes que ainda mantêm contato celetista com a emissora. Perderá, assim, a estabilidade de décadas. Na pasta da Cultura, seu salário girará em torno de RS 17 mil mensais, apenas 14,2% da remuneração paga pela Globo.

Regina teria solicitado à empresa de comunicação que lhe permitisse voltar a integrar o cash da emissora, caso não permanecesse por mais tempo na equipe do governo. Todavia, esse acordo parece ser difícil, uma vez que o Presidente Bolsonaro ataca quase que diariamente a TV Globo e ela estaria servindo a um patrão que contraria os interesses da emissora na qual ela se criou e fez uma carreira de sucesso. Pode aparentar, inclusive, ingratidão.

O fato é que o martelo só será batido, quando o Presidente da República voltar da sua viagem oficial à Índia. Ele, inclusive, cogita recriar o Ministério da Cultura, extinto por ele mesmo, com o objetivo de quem sabe seduzir a atriz. Até lá, muitas expectativas em torno do destino da eterna viúva Porcina, de Dias Gomes, estarão na ordem do dia. É ver para crer.

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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