O Nazareno, a primeira pedra e o dano moral

O ‘e-mail’ rupestre deu problema no TRT do Rio Grande do Sul.

Seu Direito / 16:17 - 5 de ago de 2019

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A que ponto chegamos. Em plena era digital, em que basta um ponto eletrônico grudado na orelha feito um brinco para que o sujeito seja alertado em tempo real no outro lado do planeta, uma empresa gaúcha foi multada em R$ 5 mil pela 11ª Turma do TRT do Rio Grande do Sul porque o supervisor da linha de montagem costumava chamar à atenção os empregados atirando pedras sobre eles.

No caso julgado (Processo 0021922-23.2017.5.04.0404), o empregado dava manutenção em redes hidráulicas e foi atingido na testa por um desses “e-mails” do chefe. É que, devido ao barulho ensurdecedor no local de trabalho e os equipamentos de proteção auricular, os empregados não ouviam as ordens do chefe e eram, então, chamados pelo supervisor com essa forma rupestre de comunicação. Por azar, esse empregado voltou-se na direção do chefe no exato momento em que a pedra tinha sido lançada. A “mensagem” atingiu-lhe a testa e houve intenso sangramento.

Embora na primeira instância (4ª. Vara do Trabalho de Caxias do Sul) o juiz tenha entendido que se tratava de um modo usual de comunicar dado o alto grau de ruído no ambiente de trabalho e que o chefe não tivera intenção de ferir ou ofender, o tribunal não entendeu assim e classificou a conduta do supervisor como ofensiva à dignidade do trabalhador, condenando a empresa por dano moral. Esse meio tosco de comunicação dá boa mostra do nível de deterioração da comunicação interpessoal nas empresas e do grau de insalubridade no ambiente de trabalho.

Esse caso me lembra uma crônica que alguém escreveu sobre o Nazareno. Conta-se que Jesus, vindo de suas peregrinações por Betânia, entrou num vilarejo atraído pelo burburinho da turba e, ao dobrar uma ruela, viu uma multidão de desocupados encurralando Maria Madalena. Os moralistas traziam nas mãos pedras e paus e ameaçavam apedrejar a pobre mulher sob alegação de que era uma devassa, uma messalina, uma prostituta barata que ninguém queria no vilarejo. Do alto de sua autoridade, Jesus abriu caminho entre a gente rude, fez com que fizessem silêncio e, apanhando uma pedra do chão, disse:

Quem nunca errou atire a primeira pedra!

Um gordinho da primeira fila pegou a pedra das mãos do Santo e atirou com toda força em direção à assustada Madalena. A pedra acertou em cheio a pobre moça, que caiu, desmaiada, em meio a uma poça de sangue. Cristo, estupefato, olhou firmemente para o gordinho e perguntou:

Filho, estou pasmo. Você nunca errou?

E o gordinho, fazendo pose de campeão, respondeu:

Desta distância nunca, Salvador...

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