‘O mundo não é uma commodity’

E ainda há quem considere que esta turma de pesos-pesados está disposta a trocar quase US$ 1 trilhão por um acarajé.

Empresa Cidadã / 19:29 - 4 de jun de 2019

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Foi François Hollande (65 anos), ex-presidente da França, que resumiu a sua crítica a quem ainda acredita ser possível utilizar de forma egoísta os recursos não renováveis do planeta, dizendo que “o mundo não é uma commodity”.

Recentemente, o CDP, antes chamado de Carbon Disclosure Project, divulgou uma relação de 177, entre 215 empresas líderes que, consultadas, permitiram ao CDP estimar um dispêndio extraordinário, consolidado, que alcança a cifra de aproximadamente US$ 970 bilhões no desenvolvimento de iniciativas ante as mudanças climáticas. É o preço da sobrevivência nos próximos cinco anos, jogo para gente grande.

Entre as empresas relacionadas na pesquisa, que perfazem cerca de US$17 trilhões em valor de mercado, constam nomes como Apple Inc., Bank of America, Acciona S.A, Bayer AG, Braskem S/A, Coca-Cola European Partners, Ford Motor Company, L'Oréal, Microsoft Corporation, Mitsubishi Electric Corporation, Stanley Black & Decker, Inc., Toyota Industries Corporation, Tetra Pak, Basf SE, Carrefour, Danone, EDF, Goldman Sachs Group Inc., e Johnson & Johnson.

Estão relacionadas também Kawasaki Kisen Kaisha, Ltd., Lego Group, Lloyds Banking Group, HP Inc., Hyundai E&C, Hyundai Motor Co., Michelin, Nestlé, Oracle Corporation, Philip Morris International, Pirelli, Siemens AG, Sony Corporation, Stanley Black & Decker, Inc., Sumitomo Chemical Co., Ltd. Sumitomo Forestry Co., Ltd., Telefonica, Thyssenkrupp AG, Toyota Industries Corporation, e Unilever. Neste desafio, também há oportunidades de investimentos, avaliadas em US$2,1 trilhões, principalmente nos setores das energias renováveis e de veículos elétricos.

E no Planalto Central do Brasil, em pleno “deserto de ideias” da Esplanada, há quem considere que esta turma de pesos-pesados está disposta a trocar quase US$ 1 trilhão por um acarajé...

 

O Fundo Amazônia, quanto mais mexe...

O Fundo Amazônia foi criado em 2008 para o financiamento de projetos de conservação da floresta. O fundo é administrado pelo BNDES e pelo ministério do Meio Ambiente (MMA) e é capitalizado por doações provenientes, em sua maior parte, da Noruega e da Alemanha, alcançando um saldo de R$ 3,4 bilhões. Recentemente, cresceram os olhos e a boca do lobby do agronegócio na direção destes recursos. Para atender aos interesses do grupo, o governo brasileiro (leia-se MMA) não poderia faltar e encaminhou às embaixadas da Noruega e da Alemanha uma proposta de modificação no regulamento do Fundo Amazônia

O propósito do MMA é desvirtuar as finalidades do fundo, para permitir, por exemplo, permissão para o financiamento de indenizações, com vistas à retirada de proprietários privados, invasores ilegais de áreas de conservação, possibilidade hoje vedada pelas normas. Como dizia minha avó, quem tem padrinho não morre pagão. Alguém paga por ele...

 

Inconsistências...

Em meados de maio, o chefe do departamento responsável pelo Fundo Amazônia foi exonerado da função, em decisão do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que anunciou indícios de “inconsistências” em contratos apoiados pelo fundo. No início de junho, menos de um mês após o afastamento do chefe do departamento, o ministro do MMA manifestou interesse em contratar uma empresa privada para fazer o monitoramento do desmatamento da Amazônia, apesar de o processo, que hoje é feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), não ser inteiramente aproveitado.

O ministro alega o interesse de melhorar a qualidade do monitoramento, mas neste governo, até o final de maio, foi registrada a menor taxa de autuações por alerta de desatamento (22%) dos últimos quatro anos (850 autuações e 3.860 alertas).

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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