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O melhor negócio do mundo (XIX)

Assim era o mundo em 14 de janeiro de 2001.

Empresa-Cidadã / 15 Janeiro 2019 - 18:48

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Esta é a décima nona oportunidade em que utilizo o título “O melhor negócio do mundo” em uma edição da nossa coluna Empresa-Cidadã. Inspirada pela visão de futuro do jornalista Acúrcio de Oliveira, a coluna Empresa-Cidadã começou a ser publicada no jornal MONITOR MERCANTIL em 14 de janeiro de 2001, reunindo, até hoje, mais de 900 edições, com o propósito básico de estimular o senso crítico e as práticas da responsabilidade social e da sustentabilidade

Ao longo de 18 anos, conceitos e valores da responsabilidade socioambiental, e outros que deles derivaram, pioneiros, voluntários e profissionais reúnem-se em torno de uma gama de realizações em que o cotidiano perseguiu os sonhos.

Naquele ano, os 11 mil quilômetros que separam Porto Alegre (RS) de Davos (Suíça) só não foram maiores do que é a distância entre países ricos e pobres, como mostrou o confronto de ideias e, sobretudo, de ideais estabelecido entre o Fórum Social Mundial de Porto Alegre e o Fórum Econômico Mundial de Davos, realizados simultaneamente, em janeiro de 2001.

Em Genebra, o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, apresentou um relatório de 87 medidas sugeridas para reduzir as disparidades entre as economias do Hemisfério Norte e do Hemisfério Sul. Do relatório da ONU, concluiu-se que os investimentos estrangeiros diretos (IED) nos países mais pobres aumentaram timidamente, de US$ 178 bilhões em 1997, para US$ 190 bilhões, em 2000. Vejamos uma das explicações para tão pouco.

Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam que a dívida consolidada dos países-membros atingiu US$ 184 trilhões (equivalentes a R$ 717 trilhões), cerca de 225% do PIB mundial, o que equivale a mais de US$ 86 mil (R$ 335 mil) por pessoa. Essa enorme dívida global cobra remuneração. Tem que ser financiada e concorre com outras alocações da riqueza.

Levando-se em conta dados apurados no final de 2017, com base em informações fornecidas por 190 países, desde 1950, o mundo atingiu um endividamento de cerca de US$ 70 trilhões (equivalentes a R$ 272 trilhões), conforme a colunista da revista Sputnik, Natalia Dembinskaya.

Os países mais endividados são os EUA, a China (os mais responsáveis pelas mudanças climáticas) e o Japão, acumulando mais de metade da dívida global, o que ultrapassa as suas participações na produção mundial. Para comparação de políticas econômicas, a dívida externa da Rússia é de US$ 525 bilhões (equivalentes a R$ 2 trilhões), representando 18,7% do PIB daquele país, que também zerou o seu déficit orçamentário.

Foi o próprio FMI que, em outubro de 2018, chamou a atenção para o potencial destrutivo da dívida total dos países. Em 2008, a relação média entre a dívida global e o PIB era de 36%. Hoje, supera a marca de 50%.

Os países mais ricos têm necessidade de se tornarem doadores para que as suas economias não estiolem. Tanto assim que a principal medida proposta do relatório de Kofi Annan é a do fim das barreiras alfandegárias impostas a bens e serviços exportados pelas nações mais pobres. E não se referiu às barreiras técnicas ou fitossanitárias, do tipo vaca louca.

Armada até os dentes para se defender de um ataque dos santos guerreiros contra o dragão da maldade da globalização, como o que levou ao fracasso de Seattle, de 1999, aquela Davos ocupou-se de discutir os efeitos da desaceleração da economia americana sobre a economia global, que pode custar até um ponto percentual do seu crescimento. Ainda estava sendo gestada a “Crise da subprime”. Alternativamente, Porto Alegre discutiu os efeitos perversos da globalização da economia sobre o crescimento das economias mais pobres.

Frequentaram o Fórum Social Mundial algumas das personagens mais exóticas do palco da desobediência ao pensamento hegemônico do neoliberalismo. José Bové foi. O ativista francês aproveitou para invadir e destruir parte da plantação de soja transgênica da multinacional Monsanto. Resultado: mais notoriedade, detenção pela Polícia Federal, até Bové assinar notificação com compromisso de deixar o país em 24 horas, a aplicação da Lei dos Estrangeiros, respaldada pela Advocacia Geral da União, e concessão de mais 24 horas pela Justiça Federal de Porto Alegre. Hoje, o isolacionista presidente dos EUA, Donald Trump, supera em muito o exotismo de Bové.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, seguranças da loja Carrefour, grupo multinacional, francês, como Bové, mantiveram em cárcere privado duas mulheres acusadas de furtar bloqueadores solares e as teriam entregado à marginalidade do bairro Cidade de Deus, além de editarem a fita de vídeo do circuito interno de vigilância, posteriormente entregue à polícia. Os seguranças foram detidos, mas nada se disse sobre a aplicação da Lei dos Estrangeiros, neste caso, versão Cidade de Deus da globalização. Diferente da de Porto Alegre. Hoje, a segurança do Carrefour prefere assassinar cães vadios.

Diferente do que parte do noticiário pode ter sugerido, sugestão reforçada pela diversidade das conclusões de mais de 400 oficinas, o Fórum Social Mundial de Porto Alegre não foi um evento antiempresa. Bem ao contrário, o que deve ser percebido era a manifestação de que saúde e educação fortalecem mercados com maior capacidade de aquisição. Que meio ambiente é o maior patrimônio a ser legado entre gerações. Que ética, democracia e solidariedade são valores que atraem investidores, fidelizam consumidores e entusiasmam colaboradores. Em Porto Alegre falou-se, portanto, da empresa na sua forma mais requintada - a EMPRESA-CIDADÃ.

Assim era aquele mundo da primeira edição desta coluna, o de 2001.

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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