O melhor negócio do mundo

Empresa-Cidadã / 09 Janeiro 2018

Pela 18ª vez este título aqui aparece, “O melhor negócio do mundo é um poço de petróleo administrado com responsabilidade social”. Pois esta edição assinala a maioridade, o 18º aniversário da coluna Empresa-Cidadã, que teve início em 2001. Com estas palavras e com a missão de difundir os conceitos e o entendimento das novas práticas de responsabilidade social, desenvolvimento sustentável, sustentabilidade e correlatos.

 

No início, era assim. O autor desta coluna sentava-se à frente do computador e se perguntava: sobre o que falar hoje? Atualmente, a pergunta que se faz é: sobre o que não falar hoje?

 

Isto porque, de lá para cá, a temática da sustentabilidade, da responsabilidade social e do desenvolvimento sustentável engordou, vários caminhos e estatutos éticos foram criados, um número crescente de empresas e ONGs enveredou por suas sendas e a complexidade tomou conta da mente de quem escreve sobre elas.

 

Uma pergunta sempre fica: muita coisa mudou? Basicamente, pouco mudou na ação das empresas. Muito mudou nos seus credos corporativos, mas são repetidos muitos pecados de anos passados.

 

Não mudará nunca, então? Mudará. Tem que mudar. É preciso acreditar que toda sociedade que chega ao limite da sobrevivência empreende as mudanças necessárias para evitar o próprio fim.

 

Esta tarefa mobilizou o comprometimento de personalidades ligadas à luta humanitária, pela democracia e pela cidadania, como no caso do inesquecível Betinho, engajado através da proposta de um modelo brasileiro de balanço social, atualmente em processo de desuso.

 

Outras se engajaram na busca por padrões de gestão mais humanos, diferentes da matriz fordista-taylorista, da chamada administração científica, ou das reengenharias oportunistas e nefastas dos anos 80 e 90. De bom, surgiram a Agenda XXI, assim como estatutos éticos, norteadores de caminhos iluminados, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), estribados no sucesso dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM), sucesso pelo menos como ferramentas de comunicação, que sucedem e expandem documentos básicos, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), e alguns até surpreendentes, como a constituição do México de 1927 e o processo europeu de reconstitucionalização.

 

A “softlaw” derivada desses vetores inclui a Carta da Terra e a Declaração da Mãe Terra (Cochabamba 2010, o mais avançado código de procedimentos éticos jamais redigido), síntese do princípio ético do Bem Viver; a Declaração de Durban (2003), contra o racismo e a discriminação, o TNS; Princípios do Equador I e II; Indicadores Ethos; etc, etc.

 

Algumas das críticas a estes caminhos situam-se na possibilidade da prática do “greenwashing”, em que empresas vestem uma fantasia de sustentabilidade, sem mudar essencialmente as suas práticas, ou no consumismo desenfreado das práticas capitalistas contemporâneas, muitas das quais se traduzem em grandes desastres, como o do navio petroleiro Exxon Valdez; do Tsulama da Vale/Samarco/BHP Billiton (Mariana, MG); ou o desastre do Golfo do México, promovido pela Chevron e agorinha mesmo o caso trágico do navio de transporte de petróleo de bandeira panamenha que se chocou com um cargueiro chinês no Mar da China. Carregado com 136 mil toneladas de petróleo (!), equivalentes a mais de 1 milhão de barris de petróleo, o navio chocou-se com um cargueiro chinês no mar da China, no dia 16 de dezembro passado, está à deriva, com fogo a bordo e, pela quantidade de petróleo que transporta, poderá tornar-se um dos cinco maiores desastres ambientais da História.

 

No período em que esta coluna é publicada, além dos diplomas éticos de adesão voluntária, surgiram também alguns contratos civis, compulsórios, como a legislação ambiental brasileira e a lei de cotas para portadores de deficiência.

 

Chegamos então a uma encruzilhada vital e estamos nela, andando de lado, sem conseguir ultrapassá-la. As mudanças climáticas, que não arrefeceram e mereceram uma banana por parte do presidente dos EUA, retirando-se do Acordo de Paris, a degradação do ambiente econômico (exclusão com concentração extrema da renda e da riqueza, em escala planetária) exigem compromissos cuidadosamente tecidos (Rio 92, Rio+20, COP 21 e COP 22) que não têm merecido práticas consequentes e proporcionais também p or parte de Estados nacionais, entre os quais os de maior peso na produção do desequilíbrio.

 

A civilização sobreviverá ao gabinete Trump, onde tem assento, entre outros, o executivo nº 1 da Exxon Mobil? Ou à voracidade da matriz energética chinesa, ou ao desmatamento no Brasil? Quem sobreviver verá… esperamos estar aqui para dizer que esta é a 19ª vez, 20ª vez, 21ªvez, 22ª vez, ... vez que esta coluna tem início com as palavras “o melhor negócio do mundo é um poço de petróleo administrado com responsabilidade social”.

 

Os avanços têm sido tão tímidos que, afora a retirada dos EUA do Acordo de Paris, afora o novo desastre ambiental com um navio petroleiro, desta vez no Mar da China, o cenário pouco de modificou. A ponto de este texto ter ficado igual ao de 2017.

 

Paulo Márcio de Mello é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br