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O maior do mundo

A prisão do 'Santos Dumont' da gestão empresarial e a disputa entre franceses e japoneses

Empresa-Cidadã / 04 Dezembro 2018

Há alguns anos, a Aliança Renaut-Nissan decidiu unir forças para se tornar o maior produtor de automóveis do mundo. Para tanto, adquiriu o controle acionário da Mitsubishi (japonesa), da Dacia (romena), da Samsung (coreana), da AutoVaz-Lada (russa) e de divisões da Datsun, da Alpine e da Infiniti, além de joint venture com a DongFeng.

Com a ressalva de que a contabilização das quantidades produzidas pelas corporações é complexa e apresenta nuances metodológicas controvertidas, ocupava a primeira posição a Volkswagen, controladora da Porsche (alemã), da Audi (alemã), da Skoda (Iugoslava), da Seat (espanhola), da Lamborghini (italiana), da Bentley (inglesa), da Bugatti (italiana), da MAN, e da Scania (sueca) e, além de joint ventures com os chineses da FAW e da SAIC. Tarefa difícil, quando se compete com outras corporações como a Volkswagen (alemã), a GM (norte-americana, líder durante sete décadas), Toyota ou Hyundai-Kia. As vendas das campeãs do ranking ficam em torno de 10 milhões de unidades, em 2017.

Para enfrentar o desafio, a Aliança escolheu como CEO o brasileiro Carlos Ghosn, titular do mesmo cargo no board da Renault, e da Mitsubishi e ex-titular na Nissan, onde foi o CEO por 16 anos e fez o sucessor Hiroto Saikawa. Tornaram-se frequentes na mídia especializada matérias enaltecendo Carlos Ghosn, como a maior contribuição brasileira para a gestão de empresas privadas, o “Santos Dumont da gestão empresarial”.

 

Ghosn, um ‘fantasma’ a assombrar o mundo corporativo

Desde 19 de novembro, o até então admirado Ghosn está detido no Japão, sob as acusações (ainda não julgadas) de sonegação fiscal estimada em equivalentes R$ 167 milhões, sobre ganhos de R$ 334 milhões, no período compreendido entre 2000 e 2015, e por uso de recursos da Nissan em proveito próprio (aquisição e reforma de imóveis em quatro países, mais um no Rio de Janeiro e outro em Beirute) e de familiares.

A Nissan e a Mitsubishi destituíram-no de todas as funções executivas, e a Renault manteve-o no board, apesar de instituir um comando paralelo interino. Sobre a Aliança, Renault, Nissan e Mitsubishi, em nota, no dia 29 de novembro, manifestaram a intenção de mantê-la. No entanto, o executivo principal da Nissan, Hiroto Saikawa, manifestou o desejo de rever a parceria com a Renault, por assimetria no relacionamento.

 

Concentração da renda acelera

A World Wealth & Income Database (base de dados mundial de riqueza e renda) aponta que o 1% mais rico do Brasil detinha 27,8% da renda do Brasil, em 2015 (total das remunerações do trabalho, do capital e da propriedade imobiliária). Estudo anterior, divulgado pela Oxfam no final de setembro deste ano, constatou que os 5% mais ricos detêm a mesma proporção da renda que os 95% seguintes.

Segundo a Oxfam, cinco brasileiros são detentores da mesma proporção da renda que a metade mais pobre da população (de mais de 100 milhões de pessoas)! Podem até ser chamados pelos nomes, a saber. 1) Jorge Paulo Lemann (AB Inbev); 2) Joseph Safra (Banco Safra); 3) Marcel Herrmann Telles (AB Inbev); 4) Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev); e 5) Eduardo Saverin (Facebook).

Recentemente divulgada, série histórica sobre desigualdade e concentração da renda no Brasil, no período compreendido entre 1927 e 2013, apurada pelo economista Pedro Ferreira de Souza, vencedor do Prêmio Anpocs de tese em Ciências Sociais 2017, revela que a concentração no topo da pirâmide de renda deu uma estilingada no período ditatorial. No início deste período, contrariando a versão chapa branca baseada na teoria do capital humano, foram impostas à sociedade políticas de arrocho salarial e de repressão à organização sindical que, combinadas com isenções fiscais concedidas a empresas, foram decisivas para alterar a trajetória de queda da desigualdade, que tinha sido esboçada, entre 1964 e 1968.

A Europa, onde os 10% mais ricos detêm 37% da renda, é o continente com as menores desigualdades. Nele, a evolução das disparidades foi a menor entre as observadas, desde 1980, por conta da implantação de medidas de política econômica como, sistemas progressivos de tributação, com efetividade dos impostos sobre herança e maior rigidez no controle de evasão fiscal.

 

COP24 começa em Katowice (Polônia)

Na pauta da conferência, iniciada neste domingo e que irá até 14 de dezembro, estão em destaque o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que será apresentado nesta COP24, e o Acordo de Paris. Ao final, está prevista a apresentação do “livro de regras” do Acordo de Paris, que teve como resultado síntese o compromisso de 195 países de limitar em até 2º C o aquecimento do planeta, até o fim deste século. É possível também que “livro de regras” seja editado somente em 2019, já que o acerto de 2015 é esperado para entrar em pleno funcionamento a partir de 2020. O Acordo de Paris foi prestigiado na recente reunião do G20, de 1º de dezembro, em Buenos Aires, ao constar no comunicado final da reunião como “irreversível”.

Além disso, também deverá ser discutido como os países ricos ajudarão os mais pobres para que se ajustem às mudanças climáticas, através de um investimento equivalente a US$ 100 bilhões anuais até 2020. O Governo dos EUA, maior responsável pelo aquecimento, ratificou a intenção de abandonar o acordo. Lá, isto é chamado de free-rider problem (problema do carona).

Paulo Márcio de Mello

Professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br