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O livre comércio com a União Europeia

Por José Carlos de Assis.

Opinião / 19:49 - 10 de Jul de 2019

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No primeiro Governo Lula, a China foi admitida formalmente pelo Brasil como economia de mercado. Isso era preliminar para que se integrasse à OMC (Organização Mundial de Comércio) e se beneficiasse das facilidades comerciais internacionais daí decorrentes.

Eu estava no gabinete do saudoso vice-presidente José Alencar quando vários ministros estavam se reunindo no Planalto para tomar uma decisão a respeito. Alencar foi até lá, mas antes sugeriu que eu esperasse um pouco porque acreditava que a reunião não se estenderia muito.

Quando voltou, algum tempo depois, notei que estava claramente contrariado. “Como admitir que a China é uma economia de mercado, se a direção é do Estado?”, observou ele. Obviamente havia razões políticas para a decisão brasileira, mas era certo também que o livre comércio postulado pela China na ordem global interessava sobretudo a ela, e não a nações que estivessem tecnologicamente menos desenvolvidas. Com a expertise comercial chinesa, a entrada livre de seus produtos no Brasil esmagaria produção e emprego internos.

 

Ave, Cesar, saudavam os gladiadores

romanos, os que vão morrer te saúdam!

 

Na hora só me ocorreu consultar a indústria de brinquedos, relativamente bem consolidada no Brasil à época. Liguei para Sylesio, então, presidente da Abrinq, e pedi sua opinião sobre a decisão em relação à China. Fiquei chocado. Ele estava exultante. Segundo ele, a entrada de produtos chineses com menores impostos no Brasil forçaria a indústria brasileira, pela competição, a ganhar eficiência e produtividade. Exatamente como se encontra nos livros textos: comércio livre promove eficiência e, a longo prazo, baixa os preços!

Anos depois soube que Sylesio fechou sua fábrica brasileira, a Estrela, e abriu uma outra na China. É um empresário esperto. Na perspectiva de ganhar dinheiro evitou a concorrência chinesa no Brasil, preferindo o ambiente de livre mercado na China, contraditoriamente protegido de forma integral pelo Estado. Pessoalmente, foi bem menos idiota que os industriais que celebram o acordo de livre comércio do Brasil com a Europa. Ave, Cesar, saudavam os gladiadores romanos ao Imperador, os que vão morrer te saúdam!

A história do livre comércio foi magistralmente contada pelo economista coreano Ha-Joon Chang no pequeno grande livro Chutando a Escada. Ele o resume da seguinte forma: todos os países, sem exceção, hoje industrializados, foram protecionistas no início de seu processo de desenvolvimento. E todos os países, depois de desenvolvidos, passaram a pregar o livre mercado. É aquela história: façam o que digo, mas não façam o que faço. Se você está na ponta do processo tecnológico, não precisa temer concorrência: é mercado livre.

O acordo de livre comércio com a União Europeia é um engodo. Uma traição não só à indústria, mas sobretudo ao trabalhador brasileiro. Este governo está radicalizando as medidas tomadas por Temer para escravizar a mão de obra e acrescenta ao aviltamento dos salários a destruição das estruturas de empregos de qualidade. Acabamos de perder a Nestlé gaúcha, com 500 trabalhadores. No rastro dessa destruição vão relações antes consolidadas com fornecedores de leite e outros insumos, agora tudo a ser perdido.

É patético que na classe dominante brasileira, pelo menos a parte não escravizada pelo capital financeiro, aceita-se pacificamente a destruição do patrimônio público industrial pela combinação de razões ideológicas e razões de pirataria.

 

 

José Carlos de Assis

Economista e jornalista.

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